A parábola do predestinado

Ainda que meu longo tempo no divã não tenha sido pautado por questões inerentes a sexualidade, percebo que fui predestinado a ser gay, ainda que não tenha de imediato atendido o chamado.

Naquele tempo, a comunicação se dava por telefone após ouvido o ruído de discar. Para encaminhar mensagem por escrito, se não por carta ou telegrama, restava telex que transmitia ao vivo ou mensagens gravadas por fita perfurada.

De mídia magnética só fita k7 e de rolo, esta última muito complexa e preciosa para mensagens de voz. Ainda que tivesse um microcassette para tal imagina se alguém iria perder tempo para dizer tu é gay que eu sei.

Não é de hoje que predestinados recebem suas mensagens sob enigmas, por diversas formas, até mesmo do além.

Escutei na primeira leitura da missa de hoje, em celebração a Santo Antonio, que jesus se comunicava com os fiéis através de parábolas, e de forma mais explícita aos que lhe acompanhavam no dia a dia, em sua caminhada.

Se até minha adolescência, mesmo com o advento do fax, telefone celular, e-mail, SMS e internet não foi fácil imagino naquela época em que coisas importantes eram escritas em tábuas e/ou pergaminhos.

Resumo da ópera: vivi a vida rolando lero até captar a vossa mensagem.

Ainda que tenha casado no dia do casemento dos meus pais por amor. Ainda que tenha na lua de mel chegado em Amsterdan em plena parada gay tendo optado por dançar e beber cerveja. Ainda que tenha tido um cachorro da raça poodle preto toy chamado Jean Pierre Du Vermont. Não amado mestre não sabia que era gay.

Se tais elementos me fizeram um predestinado hoje sei que nada sei. E ainda que perdido a mensagem, minha infância tinha muito mais emoção.

Naquela época não havia bullying . Gordo, magro, homem, viado, bisha, forte e covarde eram termos usados que não agrediam nem definiam ninguém. Li Fernando Sabino, Jose Alencar, Agatha Christie, Monteiro Lobato sem me influenciar.

A vida naquela época não girava em torno do que estava sentindo, e sim do que tinha que fazer, dos obstáculos que deveria completar. Esse modo de viver moderno em que tudo é sentido, debatido, explicado, contextualizado eh muito chato para não dizer impossível de viver.

Ainda que não tenha percebido minha natureza afetiva por homens, talvez em razão dos amores platônicos, os que deram certo contaram com o protagonismo de mulheres excepcionais, uma das quais inclusive casei.

Quando entendi a mensagem segui e tive a sorte de chegar num ponto em que a humanidade estava bem diferente em relação a isso. Ainda que estejamos vivendo hoje um momento difícil em razão do egoísmo polarizado e imaturo que busca se afirmar e ditar a política do coletivo. Hoje tudo é diferente.

Somos tolerados. Isso é bom. Resolve questões do dia-dia como conviver com um parceiro. Como não vivo buscando aprovação de ninguém, tolerância mantém um nivel minimamente aceitavel de contato com terceiros. Também posso casar no cível, o que é bom, afinal de contas somente quando se tem a segurança da união é que podemos viver através do casamento o conceito e experiência de união para o fim de constituir família e através dela experimentar plenamente a vida.

Casar é bom. Viver sem preconceito em razão de doença também. Apesar da crítica ferrenha a forma pela qual links patrocinados e alguns entendedores simplificam a vida tornando normal questões importantes como DST, seja para dar esperança ou para vender tratamento. Fato que nem isso nem a camisinha ou falta de uso é motivo para alguém deixar de ser gay.

Nem mesmo a santa igreja católica que apesar de recentemente ter mantido em sua tradição milenar o entendimento que o casamento não se aplica aos gays tem sido um empecilho a isso. Afinal seu papa disse que devemos aceitar e respeitar os filhos de deus independente de sua natureza. Não me surpreende se nos próximos anos surgir algum tipo de liturgia nova, que tipo benção ou sacramento para reconhecer isso sem o conflito do casamento tradicional permitido apenas pela união de homem e mulher.

Então chegay no campo com a bola andando no segundo tempo numa partida ganhado com larga escala contra o retrocesso e os problemas do passado.

Isso é garantia de viver tranquilo, num mar de rosa, sem pehengue?!

Claro que não. Superada a parábola do predestinado depois de trinta anos de vida há muito pela frente. E assim espero ideia e sugestões para um post

Boa semana e bom final de domingo para todos!

Um comentário em “A parábola do predestinado

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