Serie 50 | Capitulo 12 – O peso de sustentar quem se é

No capitulo anterior escrevi sobre um silencio diferente. Este tem origem único e exclusivamente em mim. Não se relaciona com o medo nem o que vem dos outros.

Aquele silencio, que não pede explicação, justifica nem me impulsiona a voltar atrás foi fundamental. Através dele vivi uma mudança importante que so veio aparecer depois.

Foi quando então me dei conta que precisava me sustentar.

Oh Deus obrigado por sua infinita misericórdia e companhia ao longo da vida. Através de Ti hoje sou quem sou de verdade.

Esse é um compromisso diário que faço comigo mesmo do acordar ao dormir. Curioso, por tempo essa verdade me pareceu mais difícil do que a própria verdade.

Seria porque precisei expulsar demônios de mim?

Talvez.

Ou porque a evolução da mudança, no primeiro momento fez com que tudo parecesse claro. Faz sentido. Acordo todos os dias, abro os olhos portanto enxergo, decido e me posiciono.

Formula essa que me permite viver com leveza, certo?

Perfeito ate chegar o teste silencioso que somos submetidos por todos.

Através dele nos é sugerido fazer concessões, enfrentar situações que não desejamos se repita, tudo isso acontece nesse enredo dos outros que não é obvio, portanto não percebemos imediatamente. Tudo e muito sutil.

E não sao poucos que deixam de resistir a mudança e voltam atrás. Não e porque não aprenderam e sim porque não se sustentam.

Olho para traz e percebo quantas vezes fiz isso e errei. Assim como Thomas Edison que precisou de inúmeras tentativas até chegar a lâmpada, também passei pelo meu proprio processo..

Tentei, falhei e recomecei por muitas vezes.

O que me levou a isto, reflito.

Tres fatores, sendo um deles a confusão da paz com acomodação, situação que zerou a fila do embate. Achei que ser maduro era me silenciar, deixa passar. Tudo isso me permitiu viver com menos conflito.

Hoje sei que essa confusão ai me permitiu entender que na verdade fiz uma grande confusão sem lógica e coerência.

Querido Pedro, ouso lhe dar um conselho que reflete muitas das experiências que voce teve na vida.

Esquece o todo.

Nem todos vão te acompanhar, ficar, nem voce vai se sentir confortável no ambiente passado onde ja nao cabe mais.

E está tudo bem

Hoje não existe espaço para me abandonar e não caber.

Por mais caro que tenha custado ser quem sou, creio e tenho certeza que é infinitamente menor ao que teria se tivesse optado por não ser.

Hoje eu escolho qual conta vou pagar.

Essa decisão é única e exclusivamente minha. O processo é silencioso, se repete todo dia por isso se sustenta.

O que me faz pensar, o que faço com o espaço que sobra quando finalmente conseguir ocupar o meu lugar?

Ja sei qual sera o tema do proximo capitulo.

Ate.

Serie 50 | Capitulo 11 – O silencio depois da ruptura.

Depois de escrever sobre o desconforto que temos uns pelos outros e o impacto nas decisões do dia-dia no capitulo anterior, me perguntei algo simples e trivial, o que vem em seguida?

Silencio…

Mas não é aquele cantado por Simon & Garfunkel que saúda a escuridão como velho conhecido de prosa. Definitivamente não é o caso, esse silencio não se assemelha em absolutamente nada do que disse a musica.

Pensando bem, talvez aquela circunstância descrita na musica, de pessoas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrever canção sem compartilhar, sem ousar, tenha sido o rastro da escuridão que vivia ao me censurar e não decidir.

Esse silencio é diferente.

Não tem relação com a escuridão que ja vivi nem com o desconforto dos outros. Também não tem relação com o conflito que antecedeu a tomada de decisão.

O silencio é do tipo que não exige explicação ou justificativa. Com a seguinte e importante vantagem, não tem o impulso para voltar atrás.

Para evoluir e chegar aqui, precisei entender que não era necessário ser compreendido pelos outros, ou mesmo que as minhas escolhas deveriam fazer sentido para eles.

Na-na-ni-na-não.

Hoje entendo que não preciso permanecer no olhar alheio como forma de validação para manter algum tipo de pertencimento.

Esse capitulo não foi simples de assimilar. Para vive-lo foi preciso pagar seu preço: a ruptura e o fim do antigo lugar.

Se voce estiver passando por isso, me permita um conselho, aproveite e enterra, por definitivo, a necessidade de ser entendido.

Esse passo não tem nada haver com os outros. Ele aconteceu simplesmente porque o que vivi no passado não mais me sustenta.

Dai vem o silencio.

Qualquer silencio? Não, vem esse tipo de silencio.

Diferente do que já senti na solidão por omissão ou rejeição, esse silencio decorre do fato que não preciso explicar.

Isso muda tudo.

Esse silencio me trouxe paz. Essa fase me permitiu organizar e reorganizar a vida.

Então digo que através dele criei espaço… para existir sem ajuste, mediação, tradução.

Lição essa que ate hoje não ouvi de ninguém.

O silencio não é sobre perder versões de si, de pessoas e lugares. Isso não existe mais, nem mesmo a necessidade de caber.

Por isso é um caminho sem volta.

O silencio de hoje não me permite voltar atrás pela ausência de identidade com o que passou.

E pela primeira vez, eu não preciso explicar.

No silencio do caminho para academia

Serie 50 | Capitulo 10 – O Desconforto do Outro

Não é preciso muito tempo para perceber o quanto demorei para decidir questões importantes na vida.

Sim, fui avesso a mudança. Preferi ficar no canto da sala, naquele espaço conhecido e confortável em que vivi anestesiado do mundo.

So fui me dar conta de quando a mudança chegou pela reação dos outros e não por mim como é de se esperar.

Assim quando estamos lutando com a balança e muitos dizem “voce esta gordo” ou depois “emagreceu demais” o que ha em comum nisso é o desconforto dos outros ao perceber a mudança.

Mal sabem, tao grande quanto o que temos por nos mesmos.

No fim do dia, o meu ecossistema ja estava também adaptado as diferentes e previsíveis variações sobre o mesmo tema. Eu.

Nessa condição eu e todos estávamos na zona de conforto.

A virada de chave aconteceu, mudei sem negociar.

Uns se afastaram, fiquei sozinho. Outros resistiram e não pouparam comentários. E tem aqueles que sao um convite a velha forma de ser.

Muitas perguntas.

Sera um dos efeitos adversos das mudanças que fiz a revelação da estagnação de outros?

Sera a existência de um por si motivo suficiente para causar um desconforto em outro?

Estamos todos fadados a encarar o desconforto como algo usual de quem vive? Inevitável?

Creio que, em parte, sim.

De la para ca aquele sentimento de rejeição se calou. Hoje ja não vejo isso como errado. Estar sozinho nas decisões e mudanças foi difícil.

Enfrentar isso não foi nada fácil.

Dos 50 anos arrisco dizer vivi 45 em terapia. Compreender o simples fato que não importa a direção que siga, vamos sempre deixar alguém desconfortável foi uma valiosa lição. Que a vida me ensinou.

Hoje encaro o desconforto como uma situação verdadeira e que não me diminui. Normal na interação de todo mundo.

Quem hoje me acompanha não o faz para enquadrar ainda que algumas decisões não tragam conforto:

Importante mesmo é entender que cada um tem o seu tempo.

O meu chegou quando enfim passei a me respeitar.

Eu no meu quadrado

Serie 50 | Capitulo 9 – O Tempo de Não Pedir Licença.

Se o Raimundos pensa que só existem mulheres de fase, estão redondamente enganados.

Claro, com bem menos intensidade e rancor, nos diversos capítulos desta serie coloquei o foco nas fases mais variadas da vida.

Fase de amar, de casar, de separar, de recomeçar, de encontrar denovo, casar novamente e de entender que todas as fases vividas, são o alicerce dessa nova fase da vida, que chega sem alarde.

Essa é a que estou hoje e que vivo silenciosamente todos os dias.

O que tem de diferente?

Bem, não preciso pedir licença a ninguém para falar, concordar ou discordar. Nem para fazer o necessário para ocupar o meu espaço.

Porque fui tao diferente no passado?

Teria sentido um medo que me enterrou vivo? Seria prudência demais na tentativa de manter as situações existentes funcionando sem incomodar, sem perturbar o entorno que sao as pessoas ao redor?

Fato: Todas as vezes que pedi licença fiquei de fora.

Esse foi o tamanho do processo de auto anulação vivido. Fiquei fora de mim, por isso também não aprofundei algumas amizades e vivi um ecossistema paterno que para minha idade era artificial.

Como pude?

Para viver nunca foi necessário pedir autorização. Sempre foi uma condição humana cuja alternativa é certamente muito pior.

Para viver a minha história, nem eu, voce e ninguém deveria ter que pedir licença. Demorei muito tempo para entender isso. Hoje, aqui, nessas linhas e fora delas, vivo plenamente.

Foi somente assim que consegui superar alguns defeitos, historias e contradições que, reunidas, sao o ingrediente que formam a minha presença.

A idade chegou e percebo que não preciso ser agressivo para mostrar firmeza. Da mesma forma ocupo naturalmente o meu espaço sem arrogância e com elegância falando o que penso.

Hoje aos 50 não preciso mais esconder-me dentro de mim, a vida se resume ao que vivo por dentro e para fora.

Depois do livre arbítrio talvez esta seja uma das poucas e valiosas liberdade que todos nos temos.

Ao viver assim, curiosamente, o mundo fica mais simples.

Serie 50 | Capitulo 8 – O Espaço Que Ocupo.

Percebo algo comum de muitos ao perguntar sobre a minha história: porque demorei tanto a entender e assumir a natureza afetiva que tenho?

Hoje percebo que veio do fato que passei a vida inteira tentando caber.

Queria muito suprir as expectativas depositadas em mim. Obviamente não deu certo, e cansei.

A dificuldade que tive de me entender, portanto conviver e socializar na infância, me tornou adaptável ao ambiente. Adaptar não é uma virtude. Não há mérito nisso.

Hoje percebo que o adaptado nunca sera um profissional pleno, marido presente ou homem forte que resolve as questões do dia-dia. Essa flexibilidade não gera maturidade. Nem o silencio sobre mim foi elegante.

Essa virada de chave dos 50 anos me fez refletir que o importante mesmo é ser quem eu sou, ocupando o próprio espaço sem pedir desculpas.

Isto, ao contrário do que no passado pensei, não é ser arrogante. É presença.

O que aprendi depois de muita dor e do peso que as circunstâncias recaiam sobre mim, é que eu me diminuí, me menosprezei para manter o equilíbrio de situações e problemas que… não eram meus.

Quero viver, se assim Deus permitir, o espaço que ocupo.

Ou seja, não quero ser entendido a força, nem falar ou convencer quem ja decidiu a não escutar. Cada um é o senhor do seu destino. Também não vou disputar espaços que exigem energia demais para pouco sentido. Se você quiser por favor passe a frente e bom caminho.

Hoje, no espaço que ocupo, escolho onde sento, onde falo, onde invisto tempo, com quem falo e também onde me silencio.

São decisões reais provenientes de um alinhamento interno. A presença surge sem ser anunciada, competência, aparece sem ser proclamada. Simplesmente sou, dentro do meu quadrado, percebido.

Saber quem sou, e principalmente quem não mais sou, trouxe uma calma incrível. To be, or not to be, that is the question.

Aquela ideia conquista que no passado que significava mais trabalho, mais responsabilidade, mais compromisso hoje não é vista da mesma forma.

Ouso dizer. Me parece meio raso.

Hoje, aos 50 ocupo meu espaço sem tirar o de ninguém. Pelo contrário, crio relações honestas simplesmente porque não quero mais caber.

Quero viver e ocupar meu espaço sem imposição, sem medo e se possível, sem excessos.

Com postura.

E sigo!

Com sono, barba e cabelinho cacatua.