Serie 50 | Capitulo 11 – O silencio depois da ruptura.

Depois de escrever sobre o desconforto que temos uns pelos outros e o impacto nas decisões do dia-dia no capitulo anterior, me perguntei algo simples e trivial, o que vem em seguida?

Silencio…

Mas não é aquele cantado por Simon & Garfunkel que saúda a escuridão como velho conhecido de prosa. Definitivamente não é o caso, esse silencio não se assemelha em absolutamente nada do que disse a musica.

Pensando bem, talvez aquela circunstância descrita na musica, de pessoas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrever canção sem compartilhar, sem ousar, tenha sido o rastro da escuridão que vivia ao me censurar e não decidir.

Esse silencio é diferente.

Não tem relação com a escuridão que ja vivi nem com o desconforto dos outros. Também não tem relação com o conflito que antecedeu a tomada de decisão.

O silencio é do tipo que não exige explicação ou justificativa. Com a seguinte e importante vantagem, não tem o impulso para voltar atrás.

Para evoluir e chegar aqui, precisei entender que não era necessário ser compreendido pelos outros, ou mesmo que as minhas escolhas deveriam fazer sentido para eles.

Na-na-ni-na-não.

Hoje entendo que não preciso permanecer no olhar alheio como forma de validação para manter algum tipo de pertencimento.

Esse capitulo não foi simples de assimilar. Para vive-lo foi preciso pagar seu preço: a ruptura e o fim do antigo lugar.

Se voce estiver passando por isso, me permita um conselho, aproveite e enterra, por definitivo, a necessidade de ser entendido.

Esse passo não tem nada haver com os outros. Ele aconteceu simplesmente porque o que vivi no passado não mais me sustenta.

Dai vem o silencio.

Qualquer silencio? Não, vem esse tipo de silencio.

Diferente do que já senti na solidão por omissão ou rejeição, esse silencio decorre do fato que não preciso explicar.

Isso muda tudo.

Esse silencio me trouxe paz. Essa fase me permitiu organizar e reorganizar a vida.

Então digo que através dele criei espaço… para existir sem ajuste, mediação, tradução.

Lição essa que ate hoje não ouvi de ninguém.

O silencio não é sobre perder versões de si, de pessoas e lugares. Isso não existe mais, nem mesmo a necessidade de caber.

Por isso é um caminho sem volta.

O silencio de hoje não me permite voltar atrás pela ausência de identidade com o que passou.

E pela primeira vez, eu não preciso explicar.

No silencio do caminho para academia

Serie 50 | Capitulo 10 – O Desconforto do Outro

Não é preciso muito tempo para perceber o quanto demorei para decidir questões importantes na vida.

Sim, fui avesso a mudança. Preferi ficar no canto da sala, naquele espaço conhecido e confortável em que vivi anestesiado do mundo.

So fui me dar conta de quando a mudança chegou pela reação dos outros e não por mim como é de se esperar.

Assim quando estamos lutando com a balança e muitos dizem “voce esta gordo” ou depois “emagreceu demais” o que ha em comum nisso é o desconforto dos outros ao perceber a mudança.

Mal sabem, tao grande quanto o que temos por nos mesmos.

No fim do dia, o meu ecossistema ja estava também adaptado as diferentes e previsíveis variações sobre o mesmo tema. Eu.

Nessa condição eu e todos estávamos na zona de conforto.

A virada de chave aconteceu, mudei sem negociar.

Uns se afastaram, fiquei sozinho. Outros resistiram e não pouparam comentários. E tem aqueles que sao um convite a velha forma de ser.

Muitas perguntas.

Sera um dos efeitos adversos das mudanças que fiz a revelação da estagnação de outros?

Sera a existência de um por si motivo suficiente para causar um desconforto em outro?

Estamos todos fadados a encarar o desconforto como algo usual de quem vive? Inevitável?

Creio que, em parte, sim.

De la para ca aquele sentimento de rejeição se calou. Hoje ja não vejo isso como errado. Estar sozinho nas decisões e mudanças foi difícil.

Enfrentar isso não foi nada fácil.

Dos 50 anos arrisco dizer vivi 45 em terapia. Compreender o simples fato que não importa a direção que siga, vamos sempre deixar alguém desconfortável foi uma valiosa lição. Que a vida me ensinou.

Hoje encaro o desconforto como uma situação verdadeira e que não me diminui. Normal na interação de todo mundo.

Quem hoje me acompanha não o faz para enquadrar ainda que algumas decisões não tragam conforto:

Importante mesmo é entender que cada um tem o seu tempo.

O meu chegou quando enfim passei a me respeitar.

Eu no meu quadrado

Serie 50 | Capitulo 9 – O Tempo de Não Pedir Licença.

Se o Raimundos pensa que só existem mulheres de fase, estão redondamente enganados.

Claro, com bem menos intensidade e rancor, nos diversos capítulos desta serie coloquei o foco nas fases mais variadas da vida.

Fase de amar, de casar, de separar, de recomeçar, de encontrar denovo, casar novamente e de entender que todas as fases vividas, são o alicerce dessa nova fase da vida, que chega sem alarde.

Essa é a que estou hoje e que vivo silenciosamente todos os dias.

O que tem de diferente?

Bem, não preciso pedir licença a ninguém para falar, concordar ou discordar. Nem para fazer o necessário para ocupar o meu espaço.

Porque fui tao diferente no passado?

Teria sentido um medo que me enterrou vivo? Seria prudência demais na tentativa de manter as situações existentes funcionando sem incomodar, sem perturbar o entorno que sao as pessoas ao redor?

Fato: Todas as vezes que pedi licença fiquei de fora.

Esse foi o tamanho do processo de auto anulação vivido. Fiquei fora de mim, por isso também não aprofundei algumas amizades e vivi um ecossistema paterno que para minha idade era artificial.

Como pude?

Para viver nunca foi necessário pedir autorização. Sempre foi uma condição humana cuja alternativa é certamente muito pior.

Para viver a minha história, nem eu, voce e ninguém deveria ter que pedir licença. Demorei muito tempo para entender isso. Hoje, aqui, nessas linhas e fora delas, vivo plenamente.

Foi somente assim que consegui superar alguns defeitos, historias e contradições que, reunidas, sao o ingrediente que formam a minha presença.

A idade chegou e percebo que não preciso ser agressivo para mostrar firmeza. Da mesma forma ocupo naturalmente o meu espaço sem arrogância e com elegância falando o que penso.

Hoje aos 50 não preciso mais esconder-me dentro de mim, a vida se resume ao que vivo por dentro e para fora.

Depois do livre arbítrio talvez esta seja uma das poucas e valiosas liberdade que todos nos temos.

Ao viver assim, curiosamente, o mundo fica mais simples.

Serie 50 | Capitulo 8 – O Espaço Que Ocupo.

Percebo algo comum de muitos ao perguntar sobre a minha história: porque demorei tanto a entender e assumir a natureza afetiva que tenho?

Hoje percebo que veio do fato que passei a vida inteira tentando caber.

Queria muito suprir as expectativas depositadas em mim. Obviamente não deu certo, e cansei.

A dificuldade que tive de me entender, portanto conviver e socializar na infância, me tornou adaptável ao ambiente. Adaptar não é uma virtude. Não há mérito nisso.

Hoje percebo que o adaptado nunca sera um profissional pleno, marido presente ou homem forte que resolve as questões do dia-dia. Essa flexibilidade não gera maturidade. Nem o silencio sobre mim foi elegante.

Essa virada de chave dos 50 anos me fez refletir que o importante mesmo é ser quem eu sou, ocupando o próprio espaço sem pedir desculpas.

Isto, ao contrário do que no passado pensei, não é ser arrogante. É presença.

O que aprendi depois de muita dor e do peso que as circunstâncias recaiam sobre mim, é que eu me diminuí, me menosprezei para manter o equilíbrio de situações e problemas que… não eram meus.

Quero viver, se assim Deus permitir, o espaço que ocupo.

Ou seja, não quero ser entendido a força, nem falar ou convencer quem ja decidiu a não escutar. Cada um é o senhor do seu destino. Também não vou disputar espaços que exigem energia demais para pouco sentido. Se você quiser por favor passe a frente e bom caminho.

Hoje, no espaço que ocupo, escolho onde sento, onde falo, onde invisto tempo, com quem falo e também onde me silencio.

São decisões reais provenientes de um alinhamento interno. A presença surge sem ser anunciada, competência, aparece sem ser proclamada. Simplesmente sou, dentro do meu quadrado, percebido.

Saber quem sou, e principalmente quem não mais sou, trouxe uma calma incrível. To be, or not to be, that is the question.

Aquela ideia conquista que no passado que significava mais trabalho, mais responsabilidade, mais compromisso hoje não é vista da mesma forma.

Ouso dizer. Me parece meio raso.

Hoje, aos 50 ocupo meu espaço sem tirar o de ninguém. Pelo contrário, crio relações honestas simplesmente porque não quero mais caber.

Quero viver e ocupar meu espaço sem imposição, sem medo e se possível, sem excessos.

Com postura.

E sigo!

Com sono, barba e cabelinho cacatua.

Serie 50 | Capitulo 7 – O Peso Que Não Se Ve. (Parte II)

Lembro-me bem de uma cena de De Volta para o Futuro em que Marty, ao receber uma informação de seu amigo Doc respondeu: “Isso é pesado”.

Volta e meia nos difíceis embates da vida ouvi que Deus não da a ninguém um fardo maior que possa carregar. E não so por isso, ao chegar a exaustão, incontáveis vezes pedi ajuda para carregar o meu.

Assunto pesado, cor que grita, muitos são os adjetivos para descrever um sentimento por trás de uma ação.

Peso a parte, ja escrevi dizendo que aos 20 vivia para provar; aos 30 com o mundo aos meus pés queria conquistar o mundo; ja com 40 procurei me sustentar e quando cheguei, finalmente aos 50 percebi que a fase é de entender.

Ando pensando muito sobre o que não vejo. Nada em relação ao sucesso aparente, menos ainda das viagens apesar de ser o interlúdio um artigo sobre carro.

Não são esses os assuntos que me ocupam, e sim o cansaço invisível que compreende situações e decisões que ninguém soube. Sao um combustível para noite ma dormida e duvida respondida pela frase de consolo “e esta tudo bem”.

Esse tipo de exaustão moral, silenciosa e emocional se nutre do acumulo de expectativas, de pessoas que dependem de mim, tudo regado pelas diferentes versões de minha própria existência aqui classificadas por décadas.

Custei olhar para mim e reconhecer que, com o passar do tempo, a força de mudar não mais protagonista de minha existência.

O momento hoje é de escolher.

Precisei de cinquenta anos e tres casamentos para começar a enxergar padrões. Eles estavam nos relacionamentos que exigiram demais sem oferecer tanto. Também presente nos ambientes cujo peso drenou energia sem oferecer na igual proporção contrapartida.

É tempo de passar a régua, reconhecer a finitude e ter respeito ao que resta. A flor da idade vem com peso embora delicada.

Passei anos resolvendo problemas dos outros e meus para corrigir situações, transformando o que estava quebrado em algo funcional com alguma dignidade. Quem orbita a minha vida bem sabe.

Com o tempo passei a acumular perguntas sem resposta. Se não tenho o habito de pedir, quem vai resolver os meus problemas. Qual é o meu problema? Ainda sem resposta voltei a terapia para relatar pelos assuntos dos textos o que sinto.

A falta de resposta é um peso que não se ve. Some a isso as renuncias silenciosas e o não que dói no momento, ainda que se revele uma especie de livramento no futuro.

Sair de cena, não enfrentar determinadas batalhas também tem seu peso. O conjunto desses argumentos bem demonstra a evolução do poder de selecionar. Não preciso provar nada a ninguém, e sim decidir melhor o que quero.

Pensando nisso acordo, treino, trabalho e durmo diferente. O resultado disso é ter serenidade na batalha. É um sentimento real ainda que em construção.

Olho ao meu entorno e tenho certeza que aos 50 o luxo não é ter mais e sim precisar menos. Isso se aplica ao ruído, a urgência e validação sem a qual não vivo a verdade. Menos é mais.

Engraçado, no começo dessa serie bem escrevi sobre o passado, escolhas que fiz e limites que impus. Agora o momento compreende a inteligência emocional comigo mesmo.

Procuro não ter nada alem do necessário, a sempre buscar o justo e permanecer saudável.

Esse peso, que a gente não vê, pode me dobrar ou ensinar a postura quando aprendemos a conviver.

Estou a escolher a segunda opção.

E sigo!