Muito recentemente minha vida tomou uma mudança súbita de direção. Meses depois percebi a serie de elos quebrados, que juntos formaram o enredo para tomada da decisão.
Se uma coisa aprendi com o meu pai que é cirurgião foi tomar decisão. Assim é que de certa forma me destaco na advocacia, por decidir melhor ou pior as questões e ter capacidade de reavaliar.
Não foram os elos culpados. Claro que não. A decisão tomei após observar um conjunto de atitudes que retiraram a minha paz.
Foi um conjunto de atitudes, gritos, reclamações, afirmações e ações cujo enredo, pelo que ja escrevi ate agora na reflexão dos cinquenta anos, pouco a pouco sinalizou que eu deveria me afastar, privilegiar a paz, ter confiança no escolher, sobretudo recusar.
Ao privilegiar a paz enterrei tudo que não deu certo.
Passei a negociar apenas o essencial.
Isso incluiu algo que antes parecia impossível. Abrir mão de discutir tudo. Sair em silencio. Atitude bem diferente daquele Pedro de anos atrás.
Evolui.
Pelas reflexões que começaram antes dos cinquenta anos percebi momentos da vida que me fizeram evoluir em questões relacionadas a temas importantes de minha vida, como escolha, limite, relações, silencio, desapego e o que fica.
O que fiz ano passado?
Observei os sinais e parei de reagir a tudo. Isso não significa não negocie. Aprendi a respeitar meus limites.
Todos os dias acordo cedo por volta das 5 horas da manhã para em seguida viver aquela que para mim é a melhor parte do dia.
É o momento que paro para tomar um cafe com Paulo e rezar antes de começar o dia.
Aprendi que uma dose pequena de religião todo dia muda a gente. Mal comparando a religião em doses homeopáticas proporciona a longo prazo um resultado.
A lucidez aumenta quando aprendo e passo a identificar fatos e circunstâncias que somam.
De igual forma, o que vai embora não deveria ser motivo de tristeza. Se foi é porque Deus quis. Não é mal.
O efeito pratico disso no dia dia é obvio. Hoje em dia não corro atrás de tudo, ha muito ja disse que o importante não era abraçar o mundo e sim viver com qualidade ainda que seletivamente.
A adoção desse critério cria a percepção de que hoje o que existe é o que me faz bem. O que não fazia foi embora.
Logo o que fica nao é por acaso! esta ai porque te respeita, soma e constrói sem invadir. Talvez seja esse o maior sinal de lucidez.
So fico com o que for verdadeiro!
Como por exemplo o momento que escrevo esse capitulo
Não foi nada fácil porem consegui entender que viver nāo é so acumular experiência. É saber descartar também.
Tema bom e oportuno para escrever sobre durante a o período da Páscoa.
Afinal, a percepção que por um dia dormimos com o deus morto, ainda que depois de ressuscitado, para mim ja é o suficiente para pensar.
A reflexão que gira em torno da noite de sono nas trevas é também de enterrar tudo o que não é bom e também o que precisamos desapegar.
O peso das discussões, da reação as inúmeras injustiças, precisa ir embora. Aproveito e descarto até mesmo a culpa de coisas que nem são minhas, a propósito leva embora o que falam de mim também.
Vou segurar o que me ensina, o que constrói e me fortalece.
Para quem acredita os sinais sempre aparecem de onde menos esperamos. E quando a gente percebe deus nos cercou de pessoas que nos fazem bem, ajudam, acrescentam.
Eu não preciso de tudo para seguir em frente, so o que me sustenta.
A pulada de capitulo anterior não aconteceu por acaso, nem tive eu a intenção de deixar esse para trás. Acabou que fui engolido por situações e emoções causadoras desse retardo
Esse gentil escritor teve o veiculo abalroado por traz em pleno transito. Nada grave, algo banal, situação normal de transito.
Nesse enredo que a princípio não me incomoda, a forma que ocorreu foi muito ruim.
Trafegava na descida da rampa do retorno do shopping rio sul em pleno transito. Ainda assim fui surpreendido pelo impacto decorrente da escolha do condutor que optou por não deixar o carro de trás passar e acelerou.
O que não deveria acontecer veio depois
A condutora não assumiu a responsabilidade. Seu modo de agir deu a entender que a culpa por ela não ter respeitado a distância era minha.
Faltou cuidado e atenção pela motorista negligente.
Isso pela minha criação foi o que mais incomodou. muito mais ate em relação ao dano.
Naquele momento nao reagi e fiz o que deveria fazer, solicitei a identificação e os dados da apolice de seguro uma vez que por obvio teria que acionar a cobertura de terceiro.
O que não ocorreu, tendo o esposo dito que deveria procurar meus direito.
Indignado logo acionei a criminalista e o cível com quem trabalho. Para não advogar em causa própria, conversei com eles os próximos passos e segui, confiante e sem hesitação.
Nos dias seguintes, muito me perguntei se deveria seguir fazendo o certo ja que também senti internamente uma duvida se as acoes seguintes eram suficientes.
Optei por não reagir e lidar internamente com essa agressão. O que dizer? A estagnação me deu a paz. Foi quando aquele rompante de raiva e desejo por justiça foi enterrado.
Lição aprendida de forma amarga porem util e necessária. Nem toda ação cabe uma reação, e nem a falta de reação é sinonimo de fraqueza.
O veiculo foi levado ao concessionário para reparo. Entreguei o assunto a Deus e dias depois ja pronto recebi uma ligação do corretor informando que o proprietário havia aberto um sinistro que posteriormente pagou o reparo.
E aquela sensação desconfortável que senti do incidente.
Numa reflexão mais longa entendo que veio muito mais pela lembrança do que fui no passado do que com o presente.
Agora entendo, não era sobre o acidente nem sobre a grosseria. Era sobre mim. Ser quem eu sou mesmo quando uma parte quer reagir.
Tem coisas que, mesmo depois de tudo o que vivi, ainda me incomodam. Não pelo fato em si, mas pela naturalidade com que certas situações passam a ser aceitas.
Talvez seja esse o ponto mais perigoso de qualquer circunstância: quando o absurdo deixa de causar reação e passa a ser apenas mais um capítulo previsível. E ninguém faz nada.
O Rio de Janeiro vive exatamente isso. Ha muitos anos que critico a passividade de uns e a cooptação de outros pela imprensa.
Acontece sempre assim. Uma serie de atos coordenados são feitos com objetivo de manter a eleição de um grupo politico que ai esta.
Esses acontecimentos, quando vistos isoladamente, até poderiam ser tratados como exceção. Mas, quando analisados em conjunto, revelam algo muito mais profundo: o poder, quando quer, se reorganiza para continuar sendo poder.
Desta vez, o Estado enfrentou uma dupla vacância.
Como pode isso acontecer? governador renunciou, o vice já havia seguido outro caminho, e o presidente da Assembleia Legislativa, depois de muito tempo afastado, foi definitivamente cassado. Justiça tardia.
Que confusão.
O esperado seria uma solução simples.
Mas não foi.
Deputados se reuniram para eleger novo presidente da Assembleia, que assumiria automaticamente o governo.
Enquanto isso, o poder judiciário no seu habitual vai e vem questionou o caminho institucional. Resolveu um ministro propor novas eleições, discutindo regras, prazos e formas de votação.
Judiciário e segurança jurídica sao dois institutos que simplesmente não existem.
Sobreveio outro ministro e suspendeu tudo. Chegou a dizer que seu par votou mas nao votou.
Quem perde? O Estado agora comandado pelo presidente do Poder Judiciário, que ja se viu não decide uma linha sem perguntar a instância superior ou falar do devido processo legal.
A pergunta que me faço não é jurídica. Nada disso.
Qual é o sentido de paralisar tudo para rediscutir caminhos que, no fim, não alteram quem está no poder?
O eleitor que vota vai às urnas dizendo que escolhe e vota para prefeito, governador, deputado, senador e ate presidente.
Mas a realidade insiste em mostrar outra coisa.
Uma parte significativa e altamente relevante sequer comparece. Dos que comparecem, alguns anulam.
E, entre os que permanecem, muitos sao os mesmos nomes que atravessarem o tempo como se fossem ocupantes de cargo vitalício.
Essa semana o Poder Judiciário resolveu discutir o rito. Bonito no papel.
Fala-se em legitimidade de voto ignorando que há regiões onde o voto não é plenamente livre. Onde a escolha já vem condicionada antes mesmo de chegar à urna.
Politicos que cresceram dentro desse mesmo ambiente agora se colocam como críticos do sistema que os sustentou. Sao eleitos ha uma vida e agora não sabem?
É difícil não ter indignação. Mas o que mais me chama atenção não é isso. Me assusto com a naturalidade.
Vivo em um país onde decisões são revisitadas, entendimentos são reabertos, e a própria ideia de segurança jurídica parece, cada vez mais, relativa. E quando a base do sistema se torna instável, tudo ao redor acompanha.
Nada é definitivo, previsível. Tudo pode ser ajustado curiosamente, quase sempre no momento mais conveniente.
Então volto à pergunta inicial.
Por que isso ainda me incomoda? Porque, no fundo, não deveria ser assim. E talvez o maior risco não esteja no que acontece.