No Brasil, minha preocupação é que continuemos concedendo reconhecimento político a pessoas e estruturas sem exigir delas a correspondente prestação de contas.
Estamos efetivamente defendendo a democracia ou apenas protegendo aqueles que falam em nome dela?
Essa pergunta não se dirige exclusivamente aos políticos. Também exige coerência de quem critica.
É por isso que mantenho meus textos, minhas falas e meus parágrafos.
Não significa que eu jamais tenha errado ou mudado de opinião. Significa que considero mais importante reconhecer minha trajetória do que tentar apagá-la.
Não apago minha história. Eu a vivo todos os dias.
Nada como um feriado para recordar os aprendizados que a vida nos proporciona. Alguns chegam com o tempo. Outros, com a experiência.
Outros, infelizmente, com a dor.
Mas nem todos os aprendizados dizem respeito à política.
Aprendi que a dor ensina.
Aprendi a encontrar Deus e agradecer pelos milagres, pelas bênçãos e até pelas dificuldades. Compreendi que ajudar o próximo pode ser tão simples quanto repartir o pão.
Aprendi que nunca é tarde. Que a vida é feita de encontros, desencontros e reencontros.
E aprendi que, se não tivesse encontrado coragem para tentar, mesmo quando o resultado foi a derrota, talvez jamais tivesse conseguido enxergar o mundo com tamanha clareza.
A experiência ensina coisas que nenhuma vitória é capaz de ensinar.
Hoje, uma convicção permanece: o melhor agente de transformação não é o político. É o cidadão.
Continuo aprendendo, revendo ideias, reconhecendo erros e procurando compreender melhor o mundo e a mim mesmo.
Sempre me causa espanto quando vejo pessoas tentando se apropriar da vontade popular para encaixá-la em suas próprias narrativas políticas.
Isso vale para a direita, para a esquerda e para o centro.
O recente processo eleitoral no Rio de Janeiro oferece um exemplo dessa discussão.
Um candidato terminou atrás nas urnas. Surgiu uma controvérsia sobre a validade dos votos atribuídos a outro concorrente. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu pela anulação desses votos, alterando o cálculo da maioria necessária para a eleição em primeiro turno.
A discussão chegou ao Supremo Tribunal Federal, que rejeitou o pedido por razões processuais, diante da ausência de esgotamento das vias recursais na Justiça Eleitoral.
A partir daí, surgiu o argumento de que a vontade soberana dos eleitores não teria sido respeitada.
Mas quem tem autoridade para falar em nome de todos os eleitores?
Não é justamente por isso que existem regras, prazos, recursos e instituições?
A controvérsia jurídica é legítima. Houve, inclusive, divergência entre ministros do TSE sobre o tratamento dos votos e seus efeitos na definição de um eventual segundo turno.
Entretanto, é preciso distinguir o debate jurídico da apropriação política da ideia de soberania popular.
Democracia não é apenas votar. É também respeitar as regras de apuração, o devido processo legal e os mecanismos institucionais de contestação.
Podemos discordar de decisões judiciais, criticá-las e recorrer pelos meios previstos em lei.
Mas nenhuma candidatura é proprietária da vontade popular.
A soberania pertence aos eleitores inclusive àqueles que votaram em outros candidatos, anularam o voto ou optaram por não comparecer.
O resultado eleitoral não transforma a interpretação de um partido ou candidato na única expressão legítima da democracia.
Princípios democráticos não podem servir apenas quando o resultado nos convém.
Uma propriedade extraordinária do Alto Leblon, avaliada em cerca de R$ 200 milhões, foi demolida.
No lugar, dez novas casas.
Financeiramente, a conta da incorporadora parece excelente.
Mas o que me interessa é o que essa conta revela sobre o Rio.
Se existem vários compradores para imóveis de R$ 30 ou R$ 40 milhões, onde está aquele comprador capaz — e disposto — a colocar R$ 200 milhões numa única propriedade?
Talvez essa demolição não conte apenas a história de uma casa.
Talvez conte a história da mudança da elite e do próprio Rio de Janeiro.