Justica em Recuperação Judicial.

Algumas semanas atrás li uma notícia do site consultor juridico enaltecendo a transformação institucional do Poder Judiciario diante da percepção que se tinha no passado, que a justiça era grande, cara e lenta.

Tomei um susto.

Afinal a percepção de 20 anos atrás pouco mudou, pelo contrario, foi turbinada com uma pitada de injustiça muito em função da obsessão pela produtividade.

Verdade inconveniente essa. O Poder Judiciário decidiu que eficiência é diretamente proporcional a resultado de julgamento produzido em série.

De pouco adiantou o pacto federativo na criação, aplicação e julgamento de lei em normas em um sistema nacional, igual em todos os estados.

Hoje percebo que a regra clara não facilitou, o trabalho não rendeu e o problema aumentou.

Enquanto a OAB nacional, sabe la a serviço de quem, envia questionário para o advogado sugerindo a necessidade de formação de um comite para regular a implementação da IA no mundo jurídico, o próprio Poder Judiciário noticiou que implementou, sem qualquer licença.

Curioso, pune quem desse sistema quer ser excluido, afinal se a peça não pode ser processada, classificada, reunida por essa ferramenta evidente que Alguem havera de trabalhar para ler.

Quem?

Sera que o Juiz faria isso?

A julgar pelas respostas que recebi nessa crítica que fiz, entendi com pouca, ou quase nenhuma duvida, que não.

O relato da servidora pública que acordava às quatro horas da manhã de um domingo para, com a mente descansada, concluir uma decisão muito bem fundamentada e justa, causou perplexidade prla gravidade da situação.

Quando li esse trecho pensei, deve estar na hora de tomar Rivotril.

Afirma a servidora que por três dias leu mais de 1.000 páginas, pesquisou jurisprudencia de cada aspecto para escrever uma minuta com o máximo de prudência,  imparcialidade e sensibilidade.

Devo estar velho, não me recordo de ter lido na constituição sobre a existência de juízes por procuração.

O magistrado togado é, ou deveria ser, o agente investido pelo Estado, de independência funcional para estudar os fatos e decidir em caráter pessoal sobre direitos, deveres e ate mesmo a liberdade e na situação extrema, a vida das pessoas.

A produção em série de decisões viola isso.

Reconheço que os assessores, técnicos, e demais funcionários da justiça exercem papel fundamental e indispensável no auxílio do juiz.

Porém, jamais poderiam substituir uma atividade que é privativa do Juiz.Não, isto não é justo e não esta correto. Ninguém deveria conhecer mais de um processo do que o magistrado.

Ademais ha uma diferença entre auxiliar quem decide e decidir para quem assina.

Quando servidores passam a minutar decisões em série para cumprir metas de produtividade, “Huston we have a problem”.

Ha outro fato preocupante na obsessão pela qual a servidora justificou seu trabalho.  Porque devo aceitar por normal que o condutor do processo seja ele?

Porque devo aceitar que o magistrado, que passou em um dos concursos mais difíceis do Brasil vire um gerente de gabinete, distribuidor de tarefas, deixando de ser o maior entendedor de processo.

A meta de produtividade estabelecida pelo CNJ nos cerceia a justiça.

Curioso.

Porque em segunda instância tudo é corrido e na superior muitos ministros sentam em processo com pedido de vista na maior tranquilidade por dias, meses, anos.

Sera que os pedidos de vista existem para verificar se a decisão minutada corresponde ao que aquele julgador quer decidir? Se deram conta que a hipótese padrão não se encaixa e o julgamento precisa ser melhorado.

Seja qual for o resultado.

Algo se perdeu no caminho.

No passado era melhor.  O direito como um todo era objeto de pesquisa e reflexão como ciência, e muitos dos livros foram escritos por professores, advogados, doutrinadores e até magistrados.

Hoje a justiça a toque de caixa por administração conta com a nova doutrina e modernização da lei promovida por magistrados, e nem isso melhorou a qualidade dos julgamentos.

Será mesmo que tudo está bem? Sera que a qualidade dos julgamentos esta melhor?

Justiça não é uma fábrica, ali está a empresa, a vida e a liberdade de pessoas.

Todo cliente que me procura quer antes de tudo alguém que o escute. Confia que seu processo será integralmente lido e decidido por quem julga.

Não espero nada diferente de um juiz. Que ele naturalmente assuma ás rédeas das causas que estão sob seus cuidados.

Em última analise, o único apto a perder o sono alem de nos e dos clientes, deve ser quem julga.

Ninguém mais

Do pote de manteiga ao AI-5: a Justiça que oscila entre perdão e punição

Há muito tempo venho comentando a percepção que tenho de insegurança jurídica no que tange às decisões da Suprema Corte brasileira.

As contradições são amplas e abrangem desde o combate ao crime organizado — leia-se o Comando Vermelho e demais organizações criminosas, que equiparo a facções paramilitares — até as condenações recentes ligadas ao 8 de janeiro, levando-se em consideração o que já foi julgado no passado, coincidentemente no governo do PT.

O ponto nevrálgico dessa inconsistência reside na oscilação de ambas as cortes, STF e STJ, em ampliar e restringir a lei para absolver (favorecendo) ou condenar (prejudicando) alguém.

A par do fato de que muitos julgamentos ali se tornam políticos, pautados e rapidamente impulsionados pelo alegado clamor público noticiado pela imprensa, o que vejo pelos longos e soníferos votos é que suas excelências parecem querer fundamentar uma grande justificativa para a não distribuição de justiça. Ainda que sejam a ultima palavra.

Um olhar pelo prisma de que somos todos iguais perante a lei revela que, quando a Suprema Corte resolve equilibrar as situações, o que surge é um julgamento vergonhoso e tendencioso.

Lembro-me como se fosse ontem, quando passaram a mão na cabeça da Angélica, que furtou um pote de manteiga de aproximadamente R$ 3,10 em um mercado, tendo ficado mais de 100 dias presa, porque era mae, pobre e desempregada.

Não percebi o que estava por vir.

Naquela época me perguntava como um processo de três reais poderia tomar o tempo dos ministros. Afinal, para todo o resto do povo que não tem apoio da imprensa, os julgamentos demoram anos para ser resolvidos. Desculpas não faltam, processo, cartorio, peritos, partes e por ai vai.

A inconsistência não reside apenas na casuística da aplicação da lei, mas também na velocidade: havendo interesse — ou dono — os processos são julgados em qualquer instância a jato. Muitos outros, ficam como vinho em baú de carvalho, em seus gabinetes, seja por medo de decidir, amadurecendo, esperando a conjuntura mudar para chegar ao fim que desejam. O que por si é uma incongruência, afinal não é crível admitir dada a experiência e eloquência das excelências que precisam de anos para estudar.

Quer saber como tudo funciona em ordem pratica?

Basta estar advogando do lado dos desconhecidos, sem holofote, para logo perceber como os julgamentos são demorados, além de mal instruídos por muitos agentes cartorários e, sim, também por advogados.

Justiça no Brasil parece foi desenvolvida para funcionar assim: quanto pior, melhor.

Angélica à parte, no ano de 2010 a Corte, no julgamento da ADPF 153, decidiu — em pleno governo Lula — pela constitucionalidade da anistia dada aos militares.

Ainda estou aqui!

Culpados foram anistiados de um lado. Fato curioso: criou-se uma comissão para apurar os abusos da ditadura e compensar as famílias da tragédia que as abateu. Fato: dinheiro paga tudo. Justo ou injusto é assim que funciona.

De nada adiantou, naquela época, o clamor popular por justiça e liberdade em tempos de repressão. Incontáveis foram os movimentos de combate ao AI-5, todos derrotados pela anistia dos militares.

O que não se esperava, anos depois, seria a rendição da Justiça e a condução de julgamentos por premissas sociais.

Assim é que um recurso rejeitado por mais de trinta vezes ganha força para anular um julgamento sem ter sido retomado a jato — seja pela vergonha, pela consciência ou até mesmo em razão do juramento feito pelos magistrados.

Tudo esquecido.

O enredo resumido a trama seria a venda que não ocorreu, por um papel não assinado em um foro que não seria adequado. Quem diria: anos depois, a mesma situação aconteceu, e todos os ditos envolvidos tiveram pena duríssima e desproporcional em relação às decisões passadas.

Enquanto isso, o crime compensou: quem furtou pouco se livrou; quem, em nome do Estado no passado abusou safou; e, curiosamente, até a Globo se desculpou. Seria porque a moral e os bons costumes estão em baixa?

As inconsistências não se resumem a essas matérias. Recentemente foi retomado o julgamento acerca da legalidade das terceirizações constantes da reforma trabalhista.

O que foi proposto, aprovado e posto em prática agora espera suas excelências decidirem as entrelinhas. É o governo dizendo peraí que agora precisamos distribuir justiça (renda) considerando os grupos envolvidos.

Isso no Brasil é gritante.

Não à toa os advogados cobram caro e precisam diariamente se virar, correndo atrás dos processos como cachorro correndo atrás do próprio rabo. Basta uma notícia, um interesse oculto de alguém, para ter uma decisão diferente.

Essa é a crítica que faço à Justiça brasileira depois de um pouco mais de 24 anos de formado e 1.200 processos conduzidos.

Vejo, por esse prisma, que os julgamentos em terceira instância são políticos, sim: alguns contam com plateia de advogados; outros, quando mais importantes, com a presença de próprios ministros que se escutam, falam muito para se convencer e terminam os julgamentos mais preocupados em saber a repercussão do que na decisão. Se congratulam como muitos se reúnem em ocasiões sociais. Ao que parece não tem vergonha mesmo.

Enquanto isso, nós, cariocas, estamos há dois dias acompanhando no RJTV a máfia dos animais silvestres — certamente por ausência de pauta ou mesmo vergonha da dura realidade que vivemos.

Melhor falar do animal silvestre do que do “Jaé” que não funciona ou da greve dos motoristas de ônibus. Crime organizado so mesmo na Marvel.

Ambas as casas legislativas do Rio são uma vergonha: representam o feudo que nos impõe aceitar o governo como é, como está. Não a toa muitos dizem não ter alternativa de voto ou so gritam quando algo lhe atrapalha.

Dai porque atribuo a falta de crítica ao mesmo medo que, no passado, muitos tinham de falar do Estado.

Podem ficar tranquilos: ainda estou aqui, não vou embora tão cedo e se Deus permitir terei muitos anos de vida.