Cerca de dez anos atrás li um livro muito interessante. Chama-se a invasão vertical dos bárbaros. É uma reflexão filosófica de Mario Ferreira dos Santos sobre a deterioração dos valores culturais e do empobrecimento intelectual de uma sociedade.
Ja estava incomodado com esse duelo que fazem as marcas. Pessoas consumindo ostensivamente objeto com logo como se fosse melhor. Isso se tornou um estilo de vida, a meu ver equivocado.
Uma camiseta pode ser melhor do que a logomarca.
Questiono esse estilo de vida não é de hoje.
Me espantei com a enorme quantidade de Brasileiros espantados e tristes por conta dos ataques a Dior, que a propósito ja deixou de ser uma marca francesa ha muito tempo.
Meu deus!!!
Resolvi portanto sintetizar o que senti no vídeo abaixo.
Não é de hoje que venho criticando a baixa qualidade das matérias das revistas especializadas em automóveis.
A geração que me antecedeu — aquela que sabia distinguir um bom carro de um amontoado de plástico bem-acabado — foi substituída por outra que parece não ter aprendido absolutamente nada.
Pior: perdeu as referências.
A prova? A notícia do retorno do Salão do Automóvel em São Paulo, agora dominado por marcas predominantemente chinesas, é tratada como um triunfo editorial.
Na falta de conteúdo denso, técnico e de qualidade, o jeito é noticiar como grande marco justamente aquilo que escancara a decadência do setor: a ocupação do espaço por quem oferece carros cujos trincos plásticos vibram nos buracos — mas “compensa” com um pedaço de plástico macio no painel.
É esse o novo parâmetro de excelência. Vale o bonito, o iluminado, o disponível.
E sobram absurdos. As revistas listam “14 marcas diferentes” de um mesmo conglomerado como se fossem independentes — no tempo em que montadora era montadora, e não colagem de logotipos.
Infelizmente, o Brasil ajudou a chegar aqui.
Por escolha política, abrimos as portas para montar, não fabricar, carros chineses. E agora celebramos como visionários justamente os grupos que estão comprando robôs humanoides — como se fossem gerar empregos por aqui.
Acorda: nem no país deles vão.
Outro dia li que determinado modelo “evoluiu” ao adotar lanternas traseiras independentes, sem a faixa de LED.
E quem disse que barra de led é bom? Que é eficiente? Que é bonito? Desde quando trocar uma luz de freio decente por três micro LEDs virou avanço? Há casos piores: carros cuja seta é um LED… torto.
Mas é tudo para chamar atenção. Assim como tirar todos os botões e obrigar o motorista a desviar o olhar para o tal “minimalismo” da tela. Depois vende um sistema que detecta o olhar para o lado e pede atenção. Deveria ser um crime hein?
Tudo pode sempre piorar: muitos nem acendem luz de freio durante a regeneração. Aí o sujeito empata trânsito, desacelera sem aviso e quase causa um acidente — mas não reclame. Ele está dirigindo “o futuro”.
Enquanto isso, seguimos vendo lanternas toscas, carros que parecem confortáveis mas te deixam com a cintura abaixo do joelho, assoalho alto, cabine apertada… grandes por fora, pequenos por dentro.
Mas tudo faz 0–100 em 2, 3, 4 ou 5 segundos. E isso basta para o marketing e para os desafortunados que não tem condições de comprar algo melhor. Culpado é o custo Brasil.
O resto — ergonomia, segurança real, durabilidade, engenharia — virou irrelevante. Ninguém compra carro para bater, então porque se preocupar.
Não é de hoje que somos movidos pelo poder da persuasão.
Quando se compreendem os mecanismos de gatilho, cria-se um sistema onde pessoas e instituições lucram ao nos oferecer a sensação de recompensa, e não a recompensa em si.
É mais ou menos assim que vivemos no Brasil:
Na Black Friday, anunciam um “desconto” maior do que o preço normal do mês anterior — e ainda fazemos festa achando que estamos levando vantagem.
Já aconteceu com você? Provavelmente, sim.
Isso não é novidade.
Da mesma forma que o escoteiro trabalha de graça esperando uma gratificação;
que aquele que bate à sua porta “em nome de Deus” oferece paz, benção e oração, para depois sugerir uma contribuição “compatível com a sua condição”;
ou mesmo o hippie da rosa — você recebe a rosa, e de repente se sente moralmente obrigado a pagar.
A psicologia da reciprocidade é antiga.
É simples. Funciona. E hoje é explorada à exaustão.
É justamente isso que está acontecendo no Prêmio Reclame Aqui. Já ouviu falar?
O prêmio se apresenta como reconhecimento de excelência.
Mas, na prática, é gamificação de engajamento:
Vote em dezenas de categorias — mesmo que você não conheça as empresas, mesmo que em algumas só exista um único candidato — e no final você ganha… uma medalha virtual.
Recompensando o vazio pelo nada.
Ou seja:
“Escolha o vencedor, não precisa saber quem é, clique, sinta-se eleitor… e ao final te dou uma medalha para você achar que participou de algo importante.”
Isso não é prêmio.
Não é reconhecimento.
Não é reputação.
Isto é uma vergonha.
E, num olhar mais atento, é difícil não perceber a engenharia por trás:
Empresas supostamente combinadas, categorias inventadas, subcategorias criadas para que todos possam concorrer — ou ao menos parecer que concorrem — e vencer alguma coisa.
É o famoso:
“Vamos participar da premiação do nada? Juntamos umas desconhecidas com outras, e deixamos o público decidir pelo cansaço. Quem sobreviver ao clica-clica leva.”
Nada é impossível.
Nesse país, até a bala mágica teria saído do JFK e desembarcado num acordo anticorrupção.