Da vida ao divã, do divã a vida.

É senso comum nos sites de pesquisa tipo Google que os filhos são e representam muitas vezes o legado da paternidade de seus pais. Nessa condição nascemos aprisionados ao conceito de nossos pais sobre o que somos e o mundo que vivemos.

O mistério de ser filho é explorado em todos os meios de comunicação. A TV por exemplo não deixa passar um fato sem antes dizer de quem o noticiado é filho, de onde veio e o que faz. Seja para criar expectativa ou identidade com sua audiência.

Ser filho é um encargo. Vira notícia e gera audiência. No cinema se manifesta de varias outras formas. Harry Potter nasceu com uma marca na cabeça. Na saga Crepúsculo no filho era impresso a marca do pai, ainda que lobisomem. A projeção da história de seus pais gerou consequência nos seus filhos. Se alguma dúvida ficou basta assistir Inteligência Artificial que mostra ate os robôs podem ser e se aceitam como filhos.

Na vida real o problema começa quando começamos a frustrar as expectativas de nossos pais em relação ao que desejam de nós enquanto filhos.

Isso não é fácil viver, não depois de ter na memória tantos eventos que acionam gatilhos. E são muitos. Nascemos com a marca do aniversário que ja nos remete aos motivos pelo qual somos filhos.

De minha parte nunca deixei passar barato essa condição. Para ser justo e correto, sempre fui um filho bem diferente. Ja na alfabetização não me deixei levar por testes. Não os fazia e só não fui reprovado por verbalizar o motivo, dando a entender que ja estava alfabetizado e que ja tinha compreendido a lição.

Depois comecei a ouvir opera e aos 4 anos escutava “O Rigoletto” no volume alto como hoje se toca Anitta na rádio. O que dizer, era difícil trabalhar na casa de meus pais. Aquele filho maluco que escuta uma gritaria espantou o marceneiro, enloqueceu a baba, empregada e por aí vai. Também não era igual ao filho dos amigos dos meus pais.

Certo dia indaguei, se viver é morrer um pouco a cada dia porque haviam me tido como filho? Fui para na terapia.

Sem demérito da situação e de minha mãe que sempre procurou me dar o melhor, fato é que crianças pelo script devem ser crianças. E como tal nos é esperado agir em um padrão.

Incontáveis os casais que a partir do nascimento do filho se sentem incluídos em um meio social que seja para se sentir igual ou inserido no contexto de pais com filhos recém-nascidos, pequenos, da mesma creche, escola, infância e por aí vai.

Não dei essa facilidade. O que não era fácil piorou. Passei a dizer ao meu irmão de forma bem clara e dinâmica que um dia todos iriam morrer. E que ele também iria morrer.

Enquanto ele dividia o quarto com esse maluco que aqui escreve, meus pais aumentavam o número de dias de terapia. Na altura do campeonato ja estava indo 3 ou 4 vezes por semana sem previsão de alta.

Mergulhei na terapia por mais de trinta anos. Infante, criança, adolescente, adulto, não houve sequer um momento que vivi sem terapia.

Engraçado que passei tantos anos falando tanta coisa no divã que nunca parei para falar da minha sexualidade. Busquei essencialmente entender qual era o papel esperado de mim enquanto filho nesse universo que se apresentava. Vivia na busca de entender qual seria a equação a resolver os problemas da vida de modo que pudesse viver facil e rapidamente.

A busca pela equação não era aritmética. Anos depois entendi que a equação seria a metáfora para me sentir confortável enquanto filho de meus pais.

Poxa se tivesse entendido isso mais cedo teria vivido outras experiências. Se bem que o processo pelo qual por anos falei e amadureci em torno do que sou hoje me deixou mais seguro para viver qualquer coisa. Felizmente tive alguém que por muitos anos me ouviu pacientemente sem julgar. Que logo entendeu o caminho que havia escolhido e seguiu sem apressar. Depois de muito falar passei entender e agir. Isso também me fortaleceu.

A experiencia de viver a desconstrução de um fato a cada dia, ou mesmo da vida por conta da terapia por tanto tempo, não é fácil ser vivida.

Sim! a terapeuta esta viva até hoje, passa muito bem obrigado.

A certeza que como filho vivi em algum momento a expectativa de meus pais veio na forma da indagação sobre o porque estava assumindo minha sexualidade pos maduro. Sera que eles sabiam? Depois veio na constatação que os filhos do meu irmão serão os únicos netos que terão. Para botar a pa de cal na questão certo dia ouvi que a vida não estava sendo nada como planejado.

Se não tivesse feito terapia talvez teria levado no pessoal. Felizmente as marcas do passado e o amadurecimento de uma vida me levou a dar a seguinte resposta “viver é perigoso”.

Não pedi para nascer, e vivi um bom tempo verbalizando a dor do parto e o acordar da vida como a linha tênue entre a vida e a morte. O que é motivo de alegria e simboliza um legado por uns para mim foi a superação de dificuldades, da alegria a tristeza, do ansioso ao calmo, do bipolar ao normal, de situações essencialmente extremadas até conseguir fazer sentido nisso tudo.

Foi quando aprendi a segunda lição. Depois de entender que viver é violento, aprendi que não há nada de seguro nas relações humanas.

Porém essa reflexão farei na madrugada quem sabe de outro dia ou possivelmente em uma reflexão por vídeo a ser adicionado nesse texto.

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