Dez anos depois: o que realmente evoluiu na democracia brasileira?

Era 30 de outubro de 2016.

Naquela data, escrevi um texto intitulado Mais uma etapa da democracia brasileira.

Dez anos depois, volto àquela reflexão e me pergunto: o quanto realmente evoluímos?

Novas eleições, velhos governos, novas promessas e incontáveis discursos sobre democracia.

O calendário avançou. Mas será que o país avançou na mesma proporção?

Ainda que a abstenção tenha diminuído e mais brasileiros tenham comparecido às urnas, isso não significa, necessariamente, que estejamos vivendo melhor.

O clima político me parece mais hostil. A confiança nas instituições continua sendo objeto de disputa.

E segurança, educação e qualidade de vida permanecem no centro das nossas insatisfações.

Isso me leva a uma contradição.

De um lado, observo a capacidade de mobilizar milhões de pessoas durante o processo eleitoral.

De outro, percebo uma enorme dificuldade de transformar essa mobilização em um projeto duradouro de país.

A cada eleição, parece que recomeçamos do zero.

Mudam os slogans, mudam as promessas, mudam os personagens. Mas muitos dos problemas fundamentais permanecem.

Hoje vivo num Brasil que não imaginava encontrar quando escrevi aquele texto, em 2016.

E o que mais me preocupa não é exclusivamente a política.

É a dificuldade de convivência entre pessoas que pensam de maneira diferente.

É perceber como o debate público pode se tornar hostil, mesmo numa sociedade que tanto fala em democracia, pluralidade e respeito.

A evolução que eu esperava como cidadão não se mede apenas pelo número de eleitores nas urnas.

Também se mede pela qualidade das instituições, pelo respeito às diferenças e pela capacidade de transformar decisões coletivas em melhorias concretas.

Não questiono o direito de cada pessoa fazer suas escolhas.

Questiono a responsabilidade de viver com as consequências delas.

A apuração dos votos não encerra o processo democrático.

Depois dela, continuam existindo a oposição, a fiscalização, a obrigação de cumprir as promessas e o dever de prestar contas.

E também existe a responsabilidade de quem votou.

A democracia não pode se resumir à celebração de uma vitória ou à lamentação de uma derrota.

Ela exige acompanhamento, participação e cobrança permanente.

Em 2016, eu tinha expectativas sobre o futuro do Brasil.

Em 2026, continuo fazendo perguntas semelhantes.

Não porque ignore o valor das eleições, mas porque considero insuficiente uma democracia que se limita a reproduzir disputas sem enfrentar seus problemas estruturais.

Dez anos depois, minha pergunta permanece:

Será que estamos construindo um país melhor ou apenas aperfeiçoando a forma de nos manter no poder?

Simples assim.


Este texto retoma uma reflexão publicada originalmente em 30 de outubro de 2016.

Leia o artigo original — Mais uma etapa da democracia brasileira

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