O Tempo que Revela

A condição humana para estar vivo é suportar, enfrentar e superar uma infinidade de questões — e alguns problemas que surgem no caminho.

Considero esse período que antecede o Natal o mais importante do ano. A percepção da comemoração de mais um aniversário do nascimento de Jesus traz, de fato, o melhor das pessoas.

Penso — e entendo — quem gostaria de viver o clima de Natal o ano inteiro. Imagine lidar apenas com pessoas capazes de serem mais otimistas, um pouco mais generosas e até assertivas, ao invés desse vai e vem de egos e disputas que atravessam o resto do ano.

Não à toa, parece que em janeiro tudo de bom que muitos fazem em dezembro simplesmente desaparece. A perspectiva de esperar longos — porém rápidos — meses para retornar a esse estado provoca em alguns, além de tristeza, um certo egoísmo. Passam a viver para si mesmo.

A minha parte venho procurando fazer o ano inteiro.

Nesta semana montei a árvore de Natal. Me alegra ver e viver essa liturgia — esse estado de espírito. A árvore montada, as luzes incandescentes acesas, sem ferir os olhos, e eu aqui, olhando para a estrela iluminada no topo como quem olha para si. Não tanto quanto gostaria — poucos em batalha conseguem —, mas consciente de que cada vez mais preciso olhar melhor para dentro.

Aproveito, portanto, esse tempo — e essa época — para, silenciosamente, pensar: o que eu fui, o que fiz, o que sou e o que ainda pode nascer em mim.

Deus é misericordioso, isso sabemos. Vejo que alguns, confiantes em alguém que nos amou até o limite — que tudo nos deu, inclusive a si —, esquecem que não são deste mundo. Eu me lembro disso, e sobre isso escrevi e afirmei muitas vezes.

A percepção desse fato é o que me encoraja todos os anos a receber família e amigos em casa para celebrar a Festa da Árvore. Essa ocasião serve para lembrar que viver é mais do que trabalhar, comprar, cumprir agenda, resolver problemas e eliminar pendências.

Viver exige manter o coração limpo.
É difícil. Porque? Ninguém nos ensinou que viver é perigoso.
E a tentação de endurecer é diária.

Confesso que não sei se mudei o suficiente, se amadureci o necessário ou se apenas sobrevivi.

Ainda estou aqui.

Enquanto digito, respiro, reflito, penso e reorganizo.
Processo parecido faço quando escuto música, organizo meus discos e me dedico à casa, à família, ao marido — com valores que, espero, edifiquem nosso castelo e se Deus permitir, ficara em pe para sempre.

Nos acertos e tropeços, entendi que busco na fé uma forma de manter o coração limpo e sobreviver em um mundo que insiste em nos endurecer e afastar do que realmente importa.

Chego ao fim do ano com alguns arranhões, feridas em processo de cicatrização e perspectiva de sucesso em algumas questões.

Em retrospectiva, vejo que caminhei entre cidades, histórias, reuniões, estradas e lembranças — tudo o que foi possível para tentar viver com densidade. Tenho dificuldade de viver no modo automático, de caber em caixas, de conviver com o raso ou o improviso vazio.

Recentemente, alguém disse que eu tenho capacidade de mudar de assunto sem perder profundidade: falar de regulamentação bancária, preço de brunch em Paris, tensão do tensor da W123 e do sentido moral do Estado brasileiro — e ainda assim permanecer no mesmo eixo de responsabilidade e consistência.

Por anos me julguei insuficiente por não mudar de opinião conforme o vento. Hoje entendo: eu mudo quando entendo.
E para entender, aprendi a ter escuta longa.
No profissional, aprendi a discordar sem aumentar o volume — aumento a precisão. Custe o que custar, demore o quanto for, resolvendo, da certo no final.

Não é facil, so consigo porque não estou em guerra comigo mesmo.

Ser gay nessa sociedade — intolerante em alguns aspectos, acolhedora em outros — me ensinou a levar tradição e afeto a sério, mas não como peso. Não me enraízo em valores que não me pertencem. Nesta vida curta, procuro aproveitar meus pais, as cidades onde estou, meus carros e esses textos que escrevo: representam a memória viva.

Melhor do que isso so mesmo gravando video, bloqueio que estou constantemente tentando superar.

Ainda que às vezes pareça cético, procuro terminar meus textos com esperança.
Que seja por um fio — vale a pena tentar.

Quanto mais me aproximo dos cinquenta, mais busco sentido no que atravessa o tempo: pessoas, gestos, memórias.

Há carros que a gente compra.
E há carros que nos encontram, como se estivessem à nossa espera.
Isso diz muito sobre mim.
Vejo valor no que amadurece, não no que apenas envelhece.
No que permanece quando o mundo corre — ou nos cobra correr.
Não preciso levantar a voz para ser quem sou.

Procuro reconhecer o que tem valor mesmo quando ninguém está olhando.

Entendi que o tempo não leva tudo — ele revela.
Só o tempo revela quem ficou, quem se foi, o que importa e o que só fazia barulho.

Tantas certezas, e ainda não sei exatamente quem sou.
Mas sei o que não quero ser.
E, por agora, isso basta.

Que esta véspera de Natal e o ano que está por vir sejam de mais presença e menos embrulho.
Menos promessa e mais verdade.
Tão importante quanto decorar a casa, entregar uma lembrança e preparar a mesa — é habitar o coração.

Sigo buscando.
Com calma.
Com firmeza.
Com coração.
E com fé — porque com fé tudo é possível.

Este blog, com seus erros e acertos, é o meu lugar de pensar.

Curiosidade Não Matou Este Gato!

Ainda que o ditado popular diga que a curiosidade matou o gato, esse aqui — vou me apropriar do elogio pela primeira vez na vida — tem sete vidas.

Das sete, umas três eu já usei sendo curioso com assuntos que poderiam ter me custado a própria vida.

Passada essa fase, a chamada “melhor idade” — termo elegante para evitar assumir a velhice — tem me feito refletir não apenas sobre o que aprendi, mas também sobre o que gostaria de ter feito diferente. Especialmente considerando que não sou deste mundo e que Deus, a qualquer momento, pode me entregar um desafio cuja solução mude muita coisa.

Quando me dei conta disso, passei a viver todos os dias. Simples assim. É o que tenho para hoje.

E aquela curiosidade que antes me colocava em apuros? Ela também mudou. Como eu mudei.

Hoje, ela é voltada para viagens com significado — e, se possível, algum estilo. Não me canso de pesquisar lugares bons para tomar café da manhã. Não precisa ser elegante: se tiver história, estou lá.

Diante da onda de calor que enfrentamos no mundo, tenho me sentido curioso por destinos com clima mais ameno — de preferência saindo de Lisboa, onde estou agora.

Quem me lê há algum tempo já percebeu que tenho interesse — e uma visão crítica — sobre política, tanto nacional quanto internacional. Não é de hoje que venho questionando temas dentro do que consigo enxergar e compreender.

No campo profissional, precisei me interessar por assuntos ligados à economia e finanças para entender e operacionalizar o reenquadramento de Basileia. A curiosidade me levou até aí.

Também nunca deixei de me interessar por pessoas influentes — sejam empresários, políticos, pensadores, ou qualquer um que mova o mundo com ideias ou atitudes.

E onde essa curiosidade me levou?

A redigir textos e e-mails com clareza profissional — alguns com tom formal, outros bilíngues. Me levou a criar conteúdos com estrutura e precisão. E a manter o pensamento afiado.

Mas a vida não se resume ao trabalho e às relações que dele decorrem.

Desde pequeno, sempre tive um olhar estético voltado para a arte. Do clássico que aprendi quando jovem ao contemporâneo, como as obras de David Gerstein, que ainda hoje me surpreendem.

A curiosidade também me levou a olhar com carinho para o carro de 30 anos que uso diariamente e o relógio da década de 40 que funciona à corda — ambos ainda ao meu lado, com firmeza e presença. Percebi, com isso, que há muita coisa boa no mundo que não precisa ter uma marca estampada para ter valor. Da mesma forma, muitas marcas de hoje já não representam mais a excelência de outrora.

Curiosidade, afinal, é o que ainda me move.

What are you curious about?