Causa e efeito: quando a política dá a volta e chega ao mesmo lugar

O homem que esteve na linha para chegar ao governo sem ter sido eleito diretamente para aquele cargo acabou impedido de assumir naquele momento.

Meses depois, submetido ao voto popular, recebeu mais de quatro milhões de votos.

Daí a César o que é de César.

Quem terminou atrás pode reclamar, judicializar e disputar todas as questões que a lei permitir. Isso também é democracia.

Mas processo nenhum altera um dado daquela votação: o candidato que entrou apontado como favorito terminou atrás.

A capital não é o Estado do Rio.

Popularidade anunciada não é garantia de voto.

Narrativa não faz urna.

Talvez essa seja a maior ironia de todo esse processo eleitoral.

Às vezes a política dá uma volta enorme para chegar exatamente ao mesmo lugar.

Causa e efeito.

Simples assim.

Reclame Aqui e a Medalha do Nada

Não é de hoje que somos movidos pelo poder da persuasão.

Quando se compreendem os mecanismos de gatilho, cria-se um sistema onde pessoas e instituições lucram ao nos oferecer a sensação de recompensa, e não a recompensa em si.

É mais ou menos assim que vivemos no Brasil:

Na Black Friday, anunciam um “desconto” maior do que o preço normal do mês anterior — e ainda fazemos festa achando que estamos levando vantagem.

Já aconteceu com você? Provavelmente, sim.

Isso não é novidade.

Da mesma forma que o escoteiro trabalha de graça esperando uma gratificação;

que aquele que bate à sua porta “em nome de Deus” oferece paz, benção e oração, para depois sugerir uma contribuição “compatível com a sua condição”;

ou mesmo o hippie da rosa — você recebe a rosa, e de repente se sente moralmente obrigado a pagar.

A psicologia da reciprocidade é antiga.

É simples. Funciona. E hoje é explorada à exaustão.

É justamente isso que está acontecendo no Prêmio Reclame Aqui. Já ouviu falar?

O prêmio se apresenta como reconhecimento de excelência.

Mas, na prática, é gamificação de engajamento:

Vote em dezenas de categorias — mesmo que você não conheça as empresas, mesmo que em algumas só exista um único candidato — e no final você ganha… uma medalha virtual.

Recompensando o vazio pelo nada.

Ou seja:

“Escolha o vencedor, não precisa saber quem é, clique, sinta-se eleitor… e ao final te dou uma medalha para você achar que participou de algo importante.”

Isso não é prêmio.

Não é reconhecimento.

Não é reputação.

Isto é uma vergonha.

E, num olhar mais atento, é difícil não perceber a engenharia por trás:

Empresas supostamente combinadas, categorias inventadas, subcategorias criadas para que todos possam concorrer — ou ao menos parecer que concorrem — e vencer alguma coisa.

É o famoso:

“Vamos participar da premiação do nada? Juntamos umas desconhecidas com outras, e deixamos o público decidir pelo cansaço. Quem sobreviver ao clica-clica leva.”

Nada é impossível.

Nesse país, até a bala mágica teria saído do JFK e desembarcado num acordo anticorrupção.

Segue o baile.