Serie 50 | Capitulo 14 – O absurdo que se normaliza

Tem coisas que, mesmo depois de tudo o que vivi, ainda me incomodam. Não pelo fato em si, mas pela naturalidade com que certas situações passam a ser aceitas.

Talvez seja esse o ponto mais perigoso de qualquer circunstância: quando o absurdo deixa de causar reação e passa a ser apenas mais um capítulo previsível. E ninguém faz nada.

O Rio de Janeiro vive exatamente isso. Ha muitos anos que critico a passividade de uns e a cooptação de outros pela imprensa.

Acontece sempre assim. Uma serie de atos coordenados são feitos com objetivo de manter a eleição de um grupo politico que ai esta.

Esses acontecimentos, quando vistos isoladamente, até poderiam ser tratados como exceção. Mas, quando analisados em conjunto, revelam algo muito mais profundo: o poder, quando quer, se reorganiza para continuar sendo poder.

Desta vez, o Estado enfrentou uma dupla vacância.

Como pode isso acontecer? governador renunciou, o vice já havia seguido outro caminho, e o presidente da Assembleia Legislativa, depois de muito tempo afastado, foi definitivamente cassado. Justiça tardia.

Que confusão.

O esperado seria uma solução simples.

Mas não foi.

Deputados se reuniram para eleger novo presidente da Assembleia, que assumiria automaticamente o governo.

Enquanto isso, o poder judiciário no seu habitual vai e vem questionou o caminho institucional. Resolveu um ministro propor novas eleições, discutindo regras, prazos e formas de votação.

Judiciário e segurança jurídica sao dois institutos que simplesmente não existem.

Sobreveio outro ministro e suspendeu tudo. Chegou a dizer que seu par votou mas nao votou.

Quem perde? O Estado agora comandado pelo presidente do Poder Judiciário, que ja se viu não decide uma linha sem perguntar a instância superior ou falar do devido processo legal.

A pergunta que me faço não é jurídica. Nada disso.

Qual é o sentido de paralisar tudo para rediscutir caminhos que, no fim, não alteram quem está no poder?

O eleitor que vota vai às urnas dizendo que escolhe e vota para prefeito, governador, deputado, senador e ate presidente.

Mas a realidade insiste em mostrar outra coisa.

Uma parte significativa e altamente relevante sequer comparece. Dos que comparecem, alguns anulam.

E, entre os que permanecem, muitos sao os mesmos nomes que atravessarem o tempo como se fossem ocupantes de cargo vitalício.

Essa semana o Poder Judiciário resolveu discutir o rito. Bonito no papel.

Fala-se em legitimidade de voto ignorando que há regiões onde o voto não é plenamente livre. Onde a escolha já vem condicionada antes mesmo de chegar à urna.

Politicos que cresceram dentro desse mesmo ambiente agora se colocam como críticos do sistema que os sustentou. Sao eleitos ha uma vida e agora não sabem?

É difícil não ter indignação. Mas o que mais me chama atenção não é isso. Me assusto com a naturalidade.

Vivo em um país onde decisões são revisitadas, entendimentos são reabertos, e a própria ideia de segurança jurídica parece, cada vez mais, relativa. E quando a base do sistema se torna instável, tudo ao redor acompanha.

Nada é definitivo, previsível. Tudo pode ser ajustado curiosamente, quase sempre no momento mais conveniente.

Então volto à pergunta inicial.

Por que isso ainda me incomoda? Porque, no fundo, não deveria ser assim. E talvez o maior risco não esteja no que acontece.

Mas no dia em que isso deixar de incomodar.

O ano que dei unfollow na hipocrisia

Este foi o ano em que minha paciência com a hipocrisia acabou. E eu fiz o mais simples dos gestos radicais: dei unfollow.

Unfollow na narrativa que glamouriza preguiça como lifestyle carioca.

Unfollow na cultura da reunião que ocupa tempo e entrega nada.

Unfollow na justiça que funciona como roleta — eficiente para alguns, lenta para muitos e hostil para quem realmente precisa dela.

Unfollow nesse país que confunde referência com propósito, status com trabalho e opinião com entrega.

Ao mesmo tempo, fiz o contrário do que o ambiente sugeria em novembro: montei minha árvore, recebi gente, celebrei a vida. Não porque tudo esteja bem, mas porque ainda existe algo mais perigoso do que o caos — a crença de que ele é normal.

Fato: A verdade é simples e dolorosa!

O Brasil pela mídia, pelo governo e empresários politicamente engajados não é o país das pessoas que realizam. É o país das pessoas que prometem.

E promessas — como bem sabemos — não pagam contas, não educam crianças, não corrigem injustiças e não sustentam futuro. Um país que não entrega nada é um país que exige demais de quem tenta fazer alguma coisa.

No fim do dia fica a impressão de ser um grande toma-la-da-ca e dane-se a cidade e o povo.

O que importa…. E a propaganda, ou especificamente a foto “somos cenografia” .

Prefiro ficar aqui e acreditar em Jesus. Esses ai mais dia menos dia vão pagar e não vai ser o que o dinheiro pode comprar não… vai ser justamente o contrário.

Amem!

O país onde o crime tem voz e o cidadão é quem paga o preço

O país onde o crime tem voz e o cidadão é quem paga o preço

Não é de hoje que assisto à inversão moral que tomou conta do debate público no Brasil.

Quando o bandido mata um inocente na saída do banco, no sinal, metralha um carro ou invade uma casa, é “tragédia”.

A imprensa, porcamente, transforma o luto em audiência e a dor em manchete. Vive da tragédia e dela se alimenta.

Quem não se lembra do pequeno João Hélio?

Mas quando a polícia enfrenta facções que impedem gente de trabalhar e viver em paz, vira “extermínio”.

Curioso é que nem o povo — refém do próprio bandido — endossa essa narrativa.

Por quê?

Em que momento o Estado falhou tanto que deixou de dar a essas pessoas a chance de enxergar que podem ser dignas de uma nova vida — ou ao menos de uma vida civilizada?

Fato: o Brasil é o país onde o criminoso ganha rosto, história e empatia — e a vítima, um número numa planilha.

José Vicente da Silva Filho, Miriam Leitão, Gleisi Hoffmann, Lewandowski e tantos outros adotam, cada qual à sua maneira, o mesmo discurso polido, o mesmo tom professoral, a mesma fórmula vazia:

“É preciso conter os abusos.”

“Respeitar o Estado de Direito.”

“Evitar a escalada da violência.”

Todos confortavelmente instalados em seus cargos, cercados de assessores, motoristas e seguranças.

Bonito no papel. Cômodo na consciência. Mas inócuo — e perigoso.

O Estado de Direito que defendem já foi sequestrado.

E, por ironia, esse discurso “civilizado” parece endossar o próprio caos institucional em que vivemos — apenas com outra narrativa.

Não foi a polícia quem sequestrou o Estado.

Foi o crime organizado, que dita toque de recolher, cobra pedágio e veta a liberdade do cidadão.

Decide em quem se vota, onde se compra o gás, quanto se paga na TV a cabo e qual operadora de telefone o morro vai usar.

O verdadeiro abuso é o da omissão.

É a covardia de quem se refugia em códigos e tratados enquanto o povo sangra nas ruas.

Duvido que algum deles tenha coragem de andar de janela aberta, com o celular na mão e relógio no pulso, num carro comum, atravessando o Rio de Janeiro.

Quando um policial reage, é manchete.

Quando uma criança é baleada por traficante, é rodapé.

Essa seletividade moral é o retrato da elite brasileira — cercada por muros e escoltas — que ainda tem a pretensão de ensinar ética a quem dorme com o barulho dos tiros.

É confortável ser garantista quando se vive blindado.

Difícil é defender o trabalhador que acorda cedo, atravessa território dominado por facção e reza para voltar vivo — ou que se acostuma a andar cercado por gente armada oferecendo tudo em troca de apoio.

Esse, o Brasil progressista e acadêmico prefere ignorar.

Não cabe na narrativa.

E assim seguimos: reféns de um moralismo seletivo que protege quem oprime e condena quem protege.

Quando o criminoso morre, é luto nacional.

Quando a polícia vence, é “violência do Estado”.

Quando o cidadão morre, é só mais uma estatística.

E quando o Judiciário reage apenas pela manchete do jornal, é só mais um capítulo do esgoto que chamamos de normalidade.

Segue o baile.

O circo da picanha e da Madonna

Lula atravessa o mandato inteiro falando da COP30, da China, dos BRICS, do AeroLula velho, da alegria e da picanha ao povo.

Enquanto isso, Eduardo Paes transforma o Rio de Janeiro em um grande circo — show da Madonna, Lady Gaga, Innovation Week e o que mais garantir manchete e aplauso. De prefeito se tornou papagaio de pirata.

Comum a ambos é o ritual de subir o morro e pedir voto ao cidadão — traficante ou não, todos são eleitores.

A violência no Rio, curiosamente, não existe no Natal, no Ano Novo e no Carnaval.

Durante a semana, o RJTV se limita à repetição das mesmas matérias, os mesmos números, as mesmas promessas. Problema é tao conhecido quanto a omissão do Poder Publico.

Quando se enfrenta a violência, o problema é sempre da polícia e do governador.

Quando o bandido morre, o importante passa a ser o direito humano.

Violencia no Brasil se tornou sinônimo de democracia.

Enquanto isso, a Justiça — essa suposta defensora da democracia — prende e solta com a mesma velocidade. Inocente culpado, culpado inocente. Lei violada, lei aplicada. Resultado pratico esta ai.

Palestra, simpósio, congresso, ISO nove mil e muitos e a credibilidade abaixo do nível do mar. Não a toa se preocupam mais em quem vai ser indicado a ministro do que cobrar efetivamente algo do Poder Judiciário.

Anos se passam, e os bandidos continuam soltos: alguns de colarinho branco, outros do pó branco, sem contar a gangue da maconha, devidamente legitimada e tributada, afinal, a onda não faz mal a ninguém.

E assim segue a realidade carioca: uma mistura de cinismo, covardia e demagogia.

Enfrenta-se o crime organizado na favela, e o socialista de iPhone da Zona Sul resolve não ir à aula no dia e faltar o dia seguinte. Consciência pesou? Não tem clima para o projeto social?

São muitos os covardes nessa história — sobretudo aqueles que vivem dessa pobreza institucional, fabricada para servir de desculpa: para faltar ao trabalho, para justificar o medo, para reclamar da falta de segurança e para ganhar dinheiro!!!

E o Rio segue sendo o mesmo espetáculo, com seus atores de sempre e suas plateias distraídas.

Afinal, será que hoje tem Jeep Tour na Rocinha?

Ou melhor prender quem enfrenta o sistema?

Do pote de manteiga ao AI-5: a Justiça que oscila entre perdão e punição

Há muito tempo venho comentando a percepção que tenho de insegurança jurídica no que tange às decisões da Suprema Corte brasileira.

As contradições são amplas e abrangem desde o combate ao crime organizado — leia-se o Comando Vermelho e demais organizações criminosas, que equiparo a facções paramilitares — até as condenações recentes ligadas ao 8 de janeiro, levando-se em consideração o que já foi julgado no passado, coincidentemente no governo do PT.

O ponto nevrálgico dessa inconsistência reside na oscilação de ambas as cortes, STF e STJ, em ampliar e restringir a lei para absolver (favorecendo) ou condenar (prejudicando) alguém.

A par do fato de que muitos julgamentos ali se tornam políticos, pautados e rapidamente impulsionados pelo alegado clamor público noticiado pela imprensa, o que vejo pelos longos e soníferos votos é que suas excelências parecem querer fundamentar uma grande justificativa para a não distribuição de justiça. Ainda que sejam a ultima palavra.

Um olhar pelo prisma de que somos todos iguais perante a lei revela que, quando a Suprema Corte resolve equilibrar as situações, o que surge é um julgamento vergonhoso e tendencioso.

Lembro-me como se fosse ontem, quando passaram a mão na cabeça da Angélica, que furtou um pote de manteiga de aproximadamente R$ 3,10 em um mercado, tendo ficado mais de 100 dias presa, porque era mae, pobre e desempregada.

Não percebi o que estava por vir.

Naquela época me perguntava como um processo de três reais poderia tomar o tempo dos ministros. Afinal, para todo o resto do povo que não tem apoio da imprensa, os julgamentos demoram anos para ser resolvidos. Desculpas não faltam, processo, cartorio, peritos, partes e por ai vai.

A inconsistência não reside apenas na casuística da aplicação da lei, mas também na velocidade: havendo interesse — ou dono — os processos são julgados em qualquer instância a jato. Muitos outros, ficam como vinho em baú de carvalho, em seus gabinetes, seja por medo de decidir, amadurecendo, esperando a conjuntura mudar para chegar ao fim que desejam. O que por si é uma incongruência, afinal não é crível admitir dada a experiência e eloquência das excelências que precisam de anos para estudar.

Quer saber como tudo funciona em ordem pratica?

Basta estar advogando do lado dos desconhecidos, sem holofote, para logo perceber como os julgamentos são demorados, além de mal instruídos por muitos agentes cartorários e, sim, também por advogados.

Justiça no Brasil parece foi desenvolvida para funcionar assim: quanto pior, melhor.

Angélica à parte, no ano de 2010 a Corte, no julgamento da ADPF 153, decidiu — em pleno governo Lula — pela constitucionalidade da anistia dada aos militares.

Ainda estou aqui!

Culpados foram anistiados de um lado. Fato curioso: criou-se uma comissão para apurar os abusos da ditadura e compensar as famílias da tragédia que as abateu. Fato: dinheiro paga tudo. Justo ou injusto é assim que funciona.

De nada adiantou, naquela época, o clamor popular por justiça e liberdade em tempos de repressão. Incontáveis foram os movimentos de combate ao AI-5, todos derrotados pela anistia dos militares.

O que não se esperava, anos depois, seria a rendição da Justiça e a condução de julgamentos por premissas sociais.

Assim é que um recurso rejeitado por mais de trinta vezes ganha força para anular um julgamento sem ter sido retomado a jato — seja pela vergonha, pela consciência ou até mesmo em razão do juramento feito pelos magistrados.

Tudo esquecido.

O enredo resumido a trama seria a venda que não ocorreu, por um papel não assinado em um foro que não seria adequado. Quem diria: anos depois, a mesma situação aconteceu, e todos os ditos envolvidos tiveram pena duríssima e desproporcional em relação às decisões passadas.

Enquanto isso, o crime compensou: quem furtou pouco se livrou; quem, em nome do Estado no passado abusou safou; e, curiosamente, até a Globo se desculpou. Seria porque a moral e os bons costumes estão em baixa?

As inconsistências não se resumem a essas matérias. Recentemente foi retomado o julgamento acerca da legalidade das terceirizações constantes da reforma trabalhista.

O que foi proposto, aprovado e posto em prática agora espera suas excelências decidirem as entrelinhas. É o governo dizendo peraí que agora precisamos distribuir justiça (renda) considerando os grupos envolvidos.

Isso no Brasil é gritante.

Não à toa os advogados cobram caro e precisam diariamente se virar, correndo atrás dos processos como cachorro correndo atrás do próprio rabo. Basta uma notícia, um interesse oculto de alguém, para ter uma decisão diferente.

Essa é a crítica que faço à Justiça brasileira depois de um pouco mais de 24 anos de formado e 1.200 processos conduzidos.

Vejo, por esse prisma, que os julgamentos em terceira instância são políticos, sim: alguns contam com plateia de advogados; outros, quando mais importantes, com a presença de próprios ministros que se escutam, falam muito para se convencer e terminam os julgamentos mais preocupados em saber a repercussão do que na decisão. Se congratulam como muitos se reúnem em ocasiões sociais. Ao que parece não tem vergonha mesmo.

Enquanto isso, nós, cariocas, estamos há dois dias acompanhando no RJTV a máfia dos animais silvestres — certamente por ausência de pauta ou mesmo vergonha da dura realidade que vivemos.

Melhor falar do animal silvestre do que do “Jaé” que não funciona ou da greve dos motoristas de ônibus. Crime organizado so mesmo na Marvel.

Ambas as casas legislativas do Rio são uma vergonha: representam o feudo que nos impõe aceitar o governo como é, como está. Não a toa muitos dizem não ter alternativa de voto ou so gritam quando algo lhe atrapalha.

Dai porque atribuo a falta de crítica ao mesmo medo que, no passado, muitos tinham de falar do Estado.

Podem ficar tranquilos: ainda estou aqui, não vou embora tão cedo e se Deus permitir terei muitos anos de vida.