Série 50 | Capítulo 1 … Consegui!!

Então o grande dia chegou… fiz 50 anos!

Durante muito tempo me perguntei se conseguiria chegar a essa idade bem, com saúde, e o que seria de mim ao cruzar esse marco. Cinquenta sempre soou distante, quase abstrato. Hoje é aqui e agora.

O que representa ser um cinquentão? Uma virada de chave? Um novo olhar sobre a vida pessoal e profissional? Novas perspectivas?

Ainda carrego muitas perguntas sem respostas, e talvez esse seja o maior sinal de vitalidade. Quem se pergunta, ainda caminha. Quem busca ainda vive.

Chegar aos 50 me trouxe uma grata surpresa: permitir-me o novo. Novas amizades, novos programas, novos olhares. Não como fuga do passado, mas como continuidade e expansão.

O que não mudou foi a rotina do dia a dia. E percebo que isso não é pouco. Voltei a acordar cedo para rezar e tomar café enquanto vejo o dia clarear. Esse ritual, independentemente do dia anterior, me reorganiza por dentro. Zera os excessos, silencia o ruído e me devolve ao essencial decorrente da fe em Deus. Todos os dias.

Sinto-me privilegiado por ter um marido e por viver nossa vida com liberdade, sem medo e sem as marcas do preconceito. Talvez porque nunca tenha alimentado isso em mim, não carrego esse reflexo nem isso atraio. A vida devolve aquilo que cultivamos.

Aos 50, sigo aprendendo. Aprendendo sobre mim, sobre pessoas, sobre amigos, sobre o tempo. Aprendendo a viver o presente e a acolher tanto as oportunidades quanto os problemas que cada dia traz.

Descobri que toda dificuldade é, também, uma oportunidade de fazer melhor. Esse entendimento me impulsiona nos processos, nas negociações, na vida profissional. Resolver problemas é, afinal, o que faço de melhor e sigo esse caminho com mais calma, mais consciência e menos ansiedade.

Essa é a essência da Série 50.

Não sobre o que ficou para trás, mas sobre o que continua e o que ha por vir. Sobre maturidade sem dureza. Sobre fé sem alarde. Sobre presença.

Aqui estou.

Essa é a minha vida, minha família, meus amigos que fazem parte do pequeno acervo afetivo, e a expressão do que sou como cristão.

Feliz. Grato.

Obrigado.

Que venha mais um ano. Rumo aos 51 escrevendo reflexões que estarão presentes na nova decada.

Entre o Silencio e a Luz

Há momentos em que a vida nos coloca diante de um vazio que a gente não sabe nomear.

Não é tristeza, não é medo, não é cansaço.

É apenas um silêncio profundo que toma conta por dentro — como se tudo ficasse suspenso.

Hoje acordei assim.

Com um aperto discreto na garganta e uma sensação de algo que precisa ser entendido, não evitado.

Não foi por coincidência que a leitura do Cafe com Deus Pai foi Mateus 6:22–23.

“Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; mas se forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.”

É impressionante como esse texto ilumina o que muitas vezes confundimos.

Não fala dos olhos em si, mas do olhar — da direção para onde apontamos a alma.

Há circunstâncias que tentam nos puxar para o velho padrão:

– a reação impulsiva,

– a memória dolorosa,

– a dúvida,

– o medo de repetir o passado.

Mas a palavra de Mateus muda tudo.

Ela nos lembra que a luz e a escuridão não chegam de fora — começam dentro.

E, de repente, aquele vazio ganhou outro significado: ele não era ausência de Deus.

Era espaço.

Espaço para a reconstrução.

Espaço para reorganizar o olhar.

Espaço para deixar a luz entrar sem pressa.

A dificuldade, a inércia que às vezes sentimos não é sinal de fracasso. É apenas o resultado de experiências que ainda pesam.

Mas a direção — a direção verdadeira — continua lá.

Ela não se perde, só fica encoberta.

E é nessa hora que Mateus ensina: se o olhar apontar para o que é bom, mesmo no cansaço, a luz volta.

Se o olhar se fixa no que é mau — ressentimento, medo, culpa — a luz se apaga.

Hoje entendi que o meu trabalho é apenas ajustar o ângulo do olhar.

Continuo de pé.

Um pouco cansado, talvez.

Mas com a certeza de que Deus preenche o vazio com propósito, e que cada silêncio interior é o convite para um recomeço.

Que eu siga assim: enxergando o que é bom, caminhando com luz, e permitindo que Deus conduza, no tempo Dele, o próximo capítulo da minha vida.

O Fim do Degelo: Reflexões às Vésperas dos Cinquenta

Parece que foi ontem que iniciei o ano me perguntando como ele iria transcorrer. Acredito que não sou o único a pedir e estabelecer metas pessoais e profissionais.

De todas as que fiz, hoje olho à minha volta e percebo que vivo a mais improvável delas. Graças a Deus.

Depois da crise dos quarenta, entrei no retrospecto dos cinquenta.

Percebi que, em poucos meses, essa idade vai chegar. Jamais poderia imaginar que a proximidade desse aniversário causaria tamanha revolução e reorganização interna.

Ajuda o fato de que, no campo profissional, apesar da demora na solução de algumas questões que venho buscando resolver há anos, os resultados estão chegando.

Faço parte e/ou sou a ponte para a solução, porque vivo diariamente os problemas dos outros. E não esqueço — nem das pessoas, nem das circunstâncias.

Esse tipo de profissional que me tornei foi construído ao longo dos anos, nos embates diários de situações e pessoas, moldado pela educação, assertividade, caráter e transparência. Isso ilustra bem uma frase que costumo dizer: “quem puxa os seus não degenera, herda.”

Amém!

Não tenho motivo, nem tive educação ou instrução para agir de forma contrária. Se hoje estou vivendo em altitude e velocidade de cruzeiro, apesar das turbulências, foi porque planejei, busquei e Deus, no comando, me capacitou para ser assim.

A revolução veio no campo pessoal.

Recentemente, falei ao Paulo que, antes de conhecê-lo pessoalmente, escutei sua voz. Através dela, conheci seu coração. A partir disso, a questão não era se eu ficaria com ele até o fim da vida, e sim se ele me aceitaria para ser dele pelo resto das nossas vidas.

Foi assim que entrei na vida dele. Ainda que com traumas, defeitos e um coração duro, construímos uma relação que torna os mais de vinte anos de distância em zero e aprendemos a viver o hoje.

Obrigado, Deus, Tu és bom o tempo todo. Conheces bem o coração das pessoas e não as julgas pelo que fazem, mas pelo que são.

Até mesmo quando me afastei da igreja ao me entender gay, voce me acolheu. E aqui estão inúmeras passagens que considero milagres, vividos o qual sou testemunha.

Não há um dia em que não me lembre de suas palavras quando estive internado e curado, como bem disse um emissário no corredor do hospital. Seja lá ou até mesmo num exame complexo laboratorial.

Quatro anos atrás, Ele operou outro milagre grandioso:

Me trouxe o Paulo. Aquele coração frio e duro, anos depois, começou a amolecer.

Junto com ele, algumas das emoções reprimidas voltaram. Algumas com lágrimas de alegria, outras de superação. Também chorei angústias, dores e frustrações nos momentos mais improváveis do dia.

Se hoje consigo acordar e olhar para a vida com amor e felicidade, reconhecer logo cedo a importância de rezar e agradecer por despertar, abraçar o maridão, escutar música e ter uma vida com ele, foi porque aprendi — e a vida me ensinou — a reconhecer esses momentos, como descrevi no texto “At times life is pure joy.”

Para os que não me conhecem pessoalmente, pode parecer que vivo para enfatizar a alegria e a felicidade o tempo todo. Acredito que, com o passar do tempo, as experiências relatadas revelam que ambas são reconhecidas em situações do dia a dia, ainda que permeadas por outras questões.

Como, por exemplo, dizer não. Não há contexto em que o estabelecimento de limites e um “não” sejam alegres.

Em “Livrai-me de todo o mal” retrato a felicidade por ter mais um ano com meus pais. Que presente esse dado por Deus: deu vida longa à minha família. Nesse contexto, sou de corpo e alma grato por viver esse momento.

Isso, assim como o desejável dia previsível e tipicamente normal, me dá uma sensação de pertencimento.

Voltando ao início do ano, o que mais? Esses sentimentos vêm sendo amplificados ao longo dos dias e semanas. Causaram suposto descontrole das emoções e, por elas, lágrimas caem como a chuva aparece todos os dias no Pará.

Coração conquistado, vida em ritmo de construção normal, tenho me dedicado à nossa família. Através de situações difíceis, aprendi a dar valor a todos os que estão presentes.

Olho para trás com felicidade, por que não?, ao ver que construímos nosso amor em um ecossistema de vida, trabalho, família e amigos por perto.

Isso aquece meu coração, que acorda e bate insistentemente forte, como a boca que treme, treme, treme ao comer a folha de jambu.

Fiz planos para tudo, menos para o aquecimento do coração. Esse veio como uma dança, um sorriso, um beijo, pela família, pelos amigos, veio com tudo o que é bom, ainda que por trás de desafios.

Posso hoje perceber, meses antes dos cinquenta, que o fim do degelo está próximo!

E os cinquenta vão chegar comigo em paz com a família, o trabalho e o passado.

Curiosidade Não Matou Este Gato!

Ainda que o ditado popular diga que a curiosidade matou o gato, esse aqui — vou me apropriar do elogio pela primeira vez na vida — tem sete vidas.

Das sete, umas três eu já usei sendo curioso com assuntos que poderiam ter me custado a própria vida.

Passada essa fase, a chamada “melhor idade” — termo elegante para evitar assumir a velhice — tem me feito refletir não apenas sobre o que aprendi, mas também sobre o que gostaria de ter feito diferente. Especialmente considerando que não sou deste mundo e que Deus, a qualquer momento, pode me entregar um desafio cuja solução mude muita coisa.

Quando me dei conta disso, passei a viver todos os dias. Simples assim. É o que tenho para hoje.

E aquela curiosidade que antes me colocava em apuros? Ela também mudou. Como eu mudei.

Hoje, ela é voltada para viagens com significado — e, se possível, algum estilo. Não me canso de pesquisar lugares bons para tomar café da manhã. Não precisa ser elegante: se tiver história, estou lá.

Diante da onda de calor que enfrentamos no mundo, tenho me sentido curioso por destinos com clima mais ameno — de preferência saindo de Lisboa, onde estou agora.

Quem me lê há algum tempo já percebeu que tenho interesse — e uma visão crítica — sobre política, tanto nacional quanto internacional. Não é de hoje que venho questionando temas dentro do que consigo enxergar e compreender.

No campo profissional, precisei me interessar por assuntos ligados à economia e finanças para entender e operacionalizar o reenquadramento de Basileia. A curiosidade me levou até aí.

Também nunca deixei de me interessar por pessoas influentes — sejam empresários, políticos, pensadores, ou qualquer um que mova o mundo com ideias ou atitudes.

E onde essa curiosidade me levou?

A redigir textos e e-mails com clareza profissional — alguns com tom formal, outros bilíngues. Me levou a criar conteúdos com estrutura e precisão. E a manter o pensamento afiado.

Mas a vida não se resume ao trabalho e às relações que dele decorrem.

Desde pequeno, sempre tive um olhar estético voltado para a arte. Do clássico que aprendi quando jovem ao contemporâneo, como as obras de David Gerstein, que ainda hoje me surpreendem.

A curiosidade também me levou a olhar com carinho para o carro de 30 anos que uso diariamente e o relógio da década de 40 que funciona à corda — ambos ainda ao meu lado, com firmeza e presença. Percebi, com isso, que há muita coisa boa no mundo que não precisa ter uma marca estampada para ter valor. Da mesma forma, muitas marcas de hoje já não representam mais a excelência de outrora.

Curiosidade, afinal, é o que ainda me move.

What are you curious about?

A melhor versão de mim

São muitas as vantagens que conquistei ao envelhecer. Mentira.

Quem me conhece sabe que costumo dizer: envelheço porque a alternativa é muito pior. Ainda que essa frase não seja originalmente minha, ela veio de pai para filho. Com o passar dos anos, percebi que comecei a funcionar de forma diferente.

E isso, surpreendentemente, não é de todo mal.

Fui uma criança bastante perdida, depressiva e insegura. Hoje, essa fase passou. Olho as questões do cotidiano de forma mais dura. Sei o que quero — e principalmente o que não quero. Procuro decidir com base no que acredito, sem a necessidade de agradar a todos.

A adolescência também foi difícil. Muitas decisões e atitudes foram tomadas de maneira impulsiva. Lembro bem da falta de paciência, do estresse, da irritação. Com o tempo, essas frustrações acabaram sendo transformadas em algo mais produtivo: uma fonte de paciência e tolerância.

Curiosamente, mesmo depois de tantos anos, ainda me vejo impaciente e intolerante em algumas situações. Parece que algumas coisas não mudam.

Outro aspecto que notei foi o tempo que passo fazendo contas. E não falo apenas de números. São contas sobre o tempo de vida, o que ainda quero fazer, o que é possível realizar, o que já não faz sentido. Contas de trabalho, de dinheiro, de energia, de prioridades.

Através dessas contas, parei de desperdiçar meu tempo com vaidade, tolices e a paralisia do medo.

Fato: Quem diria — só através das contas é que aprendi a viver o presente.

E, no presente, talvez o ensinamento mais valioso que recebi foi a capacidade de dizer não.

Como isso foi difícil. Mas tornou-se necessário, especialmente ao perceber que muitas pessoas ultrapassam os limites saudáveis que devem nortear qualquer relação — seja de amizade, de trabalho ou mesmo familiar.

Hoje, sou alguém um tanto quanto diferente da pessoa que idealizei vinte anos atrás.

Consigo apreciar coisas simples que antes passavam despercebidas — e que hoje têm um valor imenso.

Parece que a vida agora é mais verdadeira.

Espero que seja. Confio que seja. Acredito cegamente que é.

Porque não foi fácil chegar até aqui. E, apesar de tudo, creio estar próximo da minha melhor versão.