Quando o Espetáculo Substitui o Estado Vivemos uma Política de Fachada.

Desde sempre tive como verdadeira a ideia de que um dos pilares centrais da democracia é o respeito institucional entre os poderes e as autarquias. Sem isso, não há respeito mínimo, não há segurança jurídica e, muito menos, democracia.

O que vivemos hoje se assemelha a uma democracia de fachada, com práticas cada vez mais autoritárias. Basta observar o noticiário: manchetes que alternam entre o “número de presos em suposta trama golpista” e ministro do STF batendo boca com delegada em investigação bancária. O espetáculo substituiu o institucional. O ruído tomou o lugar da sobriedade.

Enquanto isso, a atenção do governo ao seu próprio povo — se é que ainda se trata de prioridade — parece inexistente. A proposta de o Brasil ceder à China a cota de carne de países que não conseguirem cumpri-la é emblemática. Revela muito mais do que uma política comercial: revela desprezo estratégico.

Ao invés de exportar menos, valorizar o produto e lucrar mais, como fazem países maduros, opta-se por inundar o mercado externo para manter margens artificiais. Tudo isso enquanto o preço da carne continua distante do prato do brasileiro médio. Afinal, alimentar o povo nunca foi prioridade quando há um seleto grupo disposto a capturar os ganhos da democracia para agir em causa própria.

O que une quase tudo o que há de errado é a propaganda institucional positiva. A violência cresce, mas o Réveillon é “o maior do mundo”. Talvez também seja um dos menos seguros. A criminalidade “cai” enquanto cresce a frota de veículos blindados — não por mérito do Estado, mas por falência dele. O pobre, por sua vez, segue lutando para pegar um ônibus com ar-condicionado inexistente, enquanto a culpa nunca é do cartel que sustenta a concessão, mas sempre da empresa multada — e jamais substituída.

É curioso, para não dizer perverso, ver empresa pública de transporte patrocinando eventos culturais, como se essa fosse sua vocação. Estamos na contramão da Europa e de países das Américas que postergaram subsídios a veículos elétricospor razões fiscais e estruturais. Aqui, incentiva-se praticamente uma única fabricante — que, por coincidência conveniente, abriga ex-político em seu conselho.

Esse Brasil do faz-de-conta, que simula evolução enquanto distribui privilégios, produz uma sequência interminável de injustiças contra quem quer apenas trabalhar, produzir e viver sem depender da política ou do lobby.

Talvez seja mesmo mais fácil aumentar o orçamento das empresas de cenografia. Transformar a existência do povo em uma sucessão de eventos: Ano Novo, Carnaval, “Todo Mundo no Rio”, carnaval fora de época e afins. Festa como política pública. Espetáculo como anestesia social.

Até quando?

Jaé: a maquiagem barata que vende sucata como inovação

Hoje o dia começou como tantos outros: acordei, rezei, tomei meu café e iniciei a rotina que consigo seguir em qualquer lugar do mundo. É simples, segura e, provavelmente, a melhor de todas. Agradeço a Deus por tanto, e peço que Sua misericórdia alcance não só a mim, mas também a todos os seus filhos.

Enquanto malhava na academia, uma notícia exibida no RJTV me indignou profundamente. O departamento de comunicação da prefeitura (TV GLOBO) transmitia no RJTV aquele boletim medíocre de trânsito, nada de bom para falar, e noticiava problemas no cartão de transporte chamado Jaé.

Confesso não me surpreendi com o fato de não funcionar. O que realmente me revolta é a petulância de se criar um substituto para o RioCard, desativado da noite para o dia, e chamá-lo de Jaé.

Nem adianta dizer que o sistema antigo estava sucateado, porque o atual se encontra no mesmo estado. É perverso: quem dependia do RioCard foi obrigado a trocar de cartão de uma hora para outra, sem chance de migrar gradualmente. Enfrentou fila, incontáveis filas para ter o que ja tinha. Foi imposto. E quem não trocou simplesmente ficou excluído do sistema. Tudo em nome de uma suposta inclusão e democracia que não passa de propaganda vazia.

A audácia vai além. Deu ao cartão um nome forçado, baseado em gíria, algo artificial e caricato. Jogou no lixo uma marca consolidada como o RioCard para adotar um nome infantil, sem qualquer ligação real com a cultura carioca.

Jaé nasceu sendo “já foi”: não trouxe melhoria alguma nem para o sistema, nem para as companhias de transporte, muito menos para as pessoas.

Parabéns à TV que, dia após dia, noticia problemas sem jamais fazer as perguntas certas. Como pode a Globo falar diariamente sobre falhas no transporte, na integração dos modais sem trazer dados concretos ou juízo de valor?

E não adianta apontar o dedo apenas para empresas ou consórcios: o governo que está aí é o mesmo há quase três décadas, é ele que gerencia essa realidade há anos.

Troca-se o nome, aumenta-se a tarifa, e o povo continua acessando os mesmos ônibus sucateados, fruto de uma frota mal gerida. Esse sistema é exemplo do que não deve ser feito no transporte. Sua criação e implementação não são probas.

A pergunta que fica é: o que esse slogan esconde, além do fato de que é mais barato fazer marketing e buscar likes do que trabalhar?

Até quando o prefeito e politicos de modo geral continuarão não sendo cobrados pela falta de infraestrutura de uma cidade que, além do transporte ruim, continua alagando a cada chuva?

Quando vamos perceber que esse marketing vazio não é acaso, mas projeto de governo?

Essa maquiagem está presente no nosso dia a dia, e o mais importante é compreender que isso precisa, de fato, mudar.