O Fim do Degelo: Reflexões às Vésperas dos Cinquenta

Parece que foi ontem que iniciei o ano me perguntando como ele iria transcorrer. Acredito que não sou o único a pedir e estabelecer metas pessoais e profissionais.

De todas as que fiz, hoje olho à minha volta e percebo que vivo a mais improvável delas. Graças a Deus.

Depois da crise dos quarenta, entrei no retrospecto dos cinquenta.

Percebi que, em poucos meses, essa idade vai chegar. Jamais poderia imaginar que a proximidade desse aniversário causaria tamanha revolução e reorganização interna.

Ajuda o fato de que, no campo profissional, apesar da demora na solução de algumas questões que venho buscando resolver há anos, os resultados estão chegando.

Faço parte e/ou sou a ponte para a solução, porque vivo diariamente os problemas dos outros. E não esqueço — nem das pessoas, nem das circunstâncias.

Esse tipo de profissional que me tornei foi construído ao longo dos anos, nos embates diários de situações e pessoas, moldado pela educação, assertividade, caráter e transparência. Isso ilustra bem uma frase que costumo dizer: “quem puxa os seus não degenera, herda.”

Amém!

Não tenho motivo, nem tive educação ou instrução para agir de forma contrária. Se hoje estou vivendo em altitude e velocidade de cruzeiro, apesar das turbulências, foi porque planejei, busquei e Deus, no comando, me capacitou para ser assim.

A revolução veio no campo pessoal.

Recentemente, falei ao Paulo que, antes de conhecê-lo pessoalmente, escutei sua voz. Através dela, conheci seu coração. A partir disso, a questão não era se eu ficaria com ele até o fim da vida, e sim se ele me aceitaria para ser dele pelo resto das nossas vidas.

Foi assim que entrei na vida dele. Ainda que com traumas, defeitos e um coração duro, construímos uma relação que torna os mais de vinte anos de distância em zero e aprendemos a viver o hoje.

Obrigado, Deus, Tu és bom o tempo todo. Conheces bem o coração das pessoas e não as julgas pelo que fazem, mas pelo que são.

Até mesmo quando me afastei da igreja ao me entender gay, voce me acolheu. E aqui estão inúmeras passagens que considero milagres, vividos o qual sou testemunha.

Não há um dia em que não me lembre de suas palavras quando estive internado e curado, como bem disse um emissário no corredor do hospital. Seja lá ou até mesmo num exame complexo laboratorial.

Quatro anos atrás, Ele operou outro milagre grandioso:

Me trouxe o Paulo. Aquele coração frio e duro, anos depois, começou a amolecer.

Junto com ele, algumas das emoções reprimidas voltaram. Algumas com lágrimas de alegria, outras de superação. Também chorei angústias, dores e frustrações nos momentos mais improváveis do dia.

Se hoje consigo acordar e olhar para a vida com amor e felicidade, reconhecer logo cedo a importância de rezar e agradecer por despertar, abraçar o maridão, escutar música e ter uma vida com ele, foi porque aprendi — e a vida me ensinou — a reconhecer esses momentos, como descrevi no texto “At times life is pure joy.”

Para os que não me conhecem pessoalmente, pode parecer que vivo para enfatizar a alegria e a felicidade o tempo todo. Acredito que, com o passar do tempo, as experiências relatadas revelam que ambas são reconhecidas em situações do dia a dia, ainda que permeadas por outras questões.

Como, por exemplo, dizer não. Não há contexto em que o estabelecimento de limites e um “não” sejam alegres.

Em “Livrai-me de todo o mal” retrato a felicidade por ter mais um ano com meus pais. Que presente esse dado por Deus: deu vida longa à minha família. Nesse contexto, sou de corpo e alma grato por viver esse momento.

Isso, assim como o desejável dia previsível e tipicamente normal, me dá uma sensação de pertencimento.

Voltando ao início do ano, o que mais? Esses sentimentos vêm sendo amplificados ao longo dos dias e semanas. Causaram suposto descontrole das emoções e, por elas, lágrimas caem como a chuva aparece todos os dias no Pará.

Coração conquistado, vida em ritmo de construção normal, tenho me dedicado à nossa família. Através de situações difíceis, aprendi a dar valor a todos os que estão presentes.

Olho para trás com felicidade, por que não?, ao ver que construímos nosso amor em um ecossistema de vida, trabalho, família e amigos por perto.

Isso aquece meu coração, que acorda e bate insistentemente forte, como a boca que treme, treme, treme ao comer a folha de jambu.

Fiz planos para tudo, menos para o aquecimento do coração. Esse veio como uma dança, um sorriso, um beijo, pela família, pelos amigos, veio com tudo o que é bom, ainda que por trás de desafios.

Posso hoje perceber, meses antes dos cinquenta, que o fim do degelo está próximo!

E os cinquenta vão chegar comigo em paz com a família, o trabalho e o passado.

como consegui resolver a questão da anorexia nervosa e bulimia que por anos me atormentou

Desenvolvi a primeira doença ou transtorno, seja la como queira entender, aos 17 anos. Somente após alguns senão muitos anos de análise (e aqui vou abrir um parêntese para  homenagear o trabalho e dedicação incansável da Geny Talberg) consegui entender que resultou de vários fatores, dentre eles a obsessão, o perfeccionismo, uma elevada busca e cobrança por um padrão que não é nada fácil de ser obtido tampouco saudável, tudo isso interligado ao problema de auto-imagem e dificuldade de expressar o que realmente sentia.

Só de pensar em comer tinha náusea, suava frio, o apetite ia logo embora e ja deixava de lado o prato de comida ou se fosse inevitável assim fazia em dose homeopática, quase que por conta gota.

Logo senti na pele o que é viver o efeito “sanfona” e, ainda que magro, me ver como gordo e não raro ouvir comentários e observações que atualmente devem ser considerados pela sociedade uma espécie de bullying comparado aquele que os fumantes tem quando todo mundo fala “ta gordinho”, “ta magrinho”, “ta fumando”, “ta sem fumar”e por aí vai.

Pois é o menino cadáver recebeu ajuda dos amigos, apoio incondicional dos pais, e aprendeu a viver a vida não sem antes, e no caminho, tropeçar na Bulimia.

Reza a lenda e o saber comum que a Bulimia é uma espécie de compulsão não saudável pela qual uma pessoa induz vômito e perde rapidamente o peso.

É verdade e acredite, não é nada bom tampouco saudável. No meu caso aconteceu porque, ao deixar de comer e chamar atenção pela magreza, comecei a me alimentar em resposta a cobrança para demonstrar que estava comendo bem, daí não tinha limite e comia muito mais do que era preciso.

Obviamente não caia nada bem, porque estava em jejum por um longo período e não havia qualquer tipo de critério para comer e o que comer então caia mal, o corpo respondia mal, os soluços ou vômitos involuntários aconteciam e não tinha alternativa senão tirar logo esse mal de dentro de mim para sentir aquele alívio e um longo período de saciedade novamente.

Bem a equação seguiu ruim até o “click” dia em que consegui admitir que tinha algumas dificuldades, que sozinho não estava conseguindo superar e que pela ajuda profissional da Geny, por alguns anos, consegui expor a ela o que me preocupava.

Mais do que isso, consegui dizer para mim mesmo o que sentia e nesse processo de verbalização das dificuldades entendi que tinha uma voz sensacional, formidável e que através dela eu era capaz de lidar e resolver muitos dos problemas e dificuldades advindas de situações normais do dia-dia.

Afinal viver é a arte dos encontros, desencontros, reencontros, todos eles com ou sem conflitos, nossos, de outros ou de terceiros e que ocorrem naturalmente na medida em que todo o ser busca, ocupa ou quer um espaço.

Logo vi e desenvolvi a capacidade de analisar situações e de ajudar os outros, porque desde cedo muito li e muito me cobrei fazer coisas e realizar tarefas que exigiam muito mais do que era necessário, daí porque resolvi advogar e não seguir a medicina, mais isso vou deixar para escrever oportunamente em um próximo post junto com os motivos pelos quais resolvi também ser político.