Não da para começar esse capitulo sem pensar no que o Pedro do inicio da vida retratada nessa serie guardou e construiu ao longo dos anos para si.
E a consequência de tudo: um recomeço.
Foi difícil me guardar, me amar em primeiro lugar, viver sem saber e ter o que fazer, buscar lucidez como norte, dar mais ao proximo do que a mim mesmo.
Sabe la porque fiz isso. Apenas fiz. E para alguns faco isso ate hoje.
Hoje tenho notado que ando em silencio. Um dos motivos se da ao fato que, hoje não preciso ser entendido.
Essa percepção facilitou uma especie de recomeço sem barulho.
E a consequência disso? O que mudou?
Cinquenta anos depois, não mais preciso me explicar, logo canso menos. Me desapeguei da validação externa. Adotei na pratica a mudança não discursada para conduzir minha vida.
Quando o momento não esta legal, a estratégia é não falar.
Hoje eu não preciso avisar nada a ninguém, e não é porque gosto de um segredo. Pelo contrário. Hoje quem precisa saber… sabe. E quem não percebe, nunca faria a diferença para inicio de conversa.
Recomecei sem buscar reconhecimento, sem provar nada a ninguém.
A mudança sem pedir licença, justificar e aguardar validação, em silencio foi difícil, porem necessária a minha evolução.
No capitulo anterior escrevi sobre um silencio diferente. Este tem origem único e exclusivamente em mim. Não se relaciona com o medo nem o que vem dos outros.
Aquele silencio, que não pede explicação, justifica nem me impulsiona a voltar atrás foi fundamental. Através dele vivi uma mudança importante que so veio aparecer depois.
Foi quando então me dei conta que precisava me sustentar.
Oh Deus obrigado por sua infinita misericórdia e companhia ao longo da vida. Através de Ti hoje sou quem sou de verdade.
Esse é um compromisso diário que faço comigo mesmo do acordar ao dormir. Curioso, por tempo essa verdade me pareceu mais difícil do que a própria verdade.
Seria porque precisei expulsar demônios de mim?
Talvez.
Ou porque a evolução da mudança, no primeiro momento fez com que tudo parecesse claro. Faz sentido. Acordo todos os dias, abro os olhos portanto enxergo, decido e me posiciono.
Formula essa que me permite viver com leveza, certo?
Perfeito ate chegar o teste silencioso que somos submetidos por todos.
Através dele nos é sugerido fazer concessões, enfrentar situações que não desejamos se repita, tudo isso acontece nesse enredo dos outros que não é obvio, portanto não percebemos imediatamente. Tudo e muito sutil.
E não sao poucos que deixam de resistir a mudança e voltam atrás. Não e porque não aprenderam e sim porque não se sustentam.
Olho para traz e percebo quantas vezes fiz isso e errei. Assim como Thomas Edison que precisou de inúmeras tentativas até chegar a lâmpada, também passei pelo meu proprio processo..
Tentei, falhei e recomecei por muitas vezes.
O que me levou a isto, reflito.
Tres fatores, sendo um deles a confusão da paz com acomodação, situação que zerou a fila do embate. Achei que ser maduro era me silenciar, deixa passar. Tudo isso me permitiu viver com menos conflito.
Hoje sei que essa confusão ai me permitiu entender que na verdade fiz uma grande confusão sem lógica e coerência.
Querido Pedro, ouso lhe dar um conselho que reflete muitas das experiências que voce teve na vida.
Esquece o todo.
Nem todos vão te acompanhar, ficar, nem voce vai se sentir confortável no ambiente passado onde ja nao cabe mais.
E está tudo bem
Hoje não existe espaço para me abandonar e não caber.
Por mais caro que tenha custado ser quem sou, creio e tenho certeza que é infinitamente menor ao que teria se tivesse optado por não ser.
Hoje eu escolho qual conta vou pagar.
Essa decisão é única e exclusivamente minha. O processo é silencioso, se repete todo dia por isso se sustenta.
O que me faz pensar, o que faço com o espaço que sobra quando finalmente conseguir ocupar o meu lugar?
Depois de escrever sobre o desconforto que temos uns pelos outros e o impacto nas decisões do dia-dia no capitulo anterior, me perguntei algo simples e trivial, o que vem em seguida?
Silencio…
Mas não é aquele cantado por Simon & Garfunkel que saúda a escuridão como velho conhecido de prosa. Definitivamente não é o caso, esse silencio não se assemelha em absolutamente nada do que disse a musica.
Pensando bem, talvez aquela circunstância descrita na musica, de pessoas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrever canção sem compartilhar, sem ousar, tenha sido o rastro da escuridão que vivia ao me censurar e não decidir.
Esse silencio é diferente.
Não tem relação com a escuridão que ja vivi nem com o desconforto dos outros. Também não tem relação com o conflito que antecedeu a tomada de decisão.
O silencio é do tipo que não exige explicação ou justificativa. Com a seguinte e importante vantagem, não tem o impulso para voltar atrás.
Para evoluir e chegar aqui, precisei entender que não era necessário ser compreendido pelos outros, ou mesmo que as minhas escolhas deveriam fazer sentido para eles.
Na-na-ni-na-não.
Hoje entendo que não preciso permanecer no olhar alheio como forma de validação para manter algum tipo de pertencimento.
Esse capitulo não foi simples de assimilar. Para vive-lo foi preciso pagar seu preço: a ruptura e o fim do antigo lugar.
Se voce estiver passando por isso, me permita um conselho, aproveite e enterra, por definitivo, a necessidade de ser entendido.
Esse passo não tem nada haver com os outros. Ele aconteceu simplesmente porque o que vivi no passado não mais me sustenta.
Dai vem o silencio.
Qualquer silencio? Não, vem esse tipo de silencio.
Diferente do que já senti na solidão por omissão ou rejeição, esse silencio decorre do fato que não preciso explicar.
Isso muda tudo.
Esse silencio me trouxe paz. Essa fase me permitiu organizar e reorganizar a vida.
Então digo que através dele criei espaço… para existir sem ajuste, mediação, tradução.
Lição essa que ate hoje não ouvi de ninguém.
O silencio não é sobre perder versões de si, de pessoas e lugares. Isso não existe mais, nem mesmo a necessidade de caber.
Por isso é um caminho sem volta.
O silencio de hoje não me permite voltar atrás pela ausência de identidade com o que passou.