Ajudar sem esperar um “obrigado” também traz um aprendizado: a nossa disposição para resolver o problema de alguém não significa que essa pessoa estará disponível quando o problema for nosso.
E esta tudo bem.
Talvez a maturidade esteja justamente em compreender que situações como essas acontecem, se repetem, vou viver sem deixar de ser quem sou.
Não é de hoje que somos movidos pelo poder da persuasão.
Quando se compreendem os mecanismos de gatilho, cria-se um sistema onde pessoas e instituições lucram ao nos oferecer a sensação de recompensa, e não a recompensa em si.
É mais ou menos assim que vivemos no Brasil:
Na Black Friday, anunciam um “desconto” maior do que o preço normal do mês anterior — e ainda fazemos festa achando que estamos levando vantagem.
Já aconteceu com você? Provavelmente, sim.
Isso não é novidade.
Da mesma forma que o escoteiro trabalha de graça esperando uma gratificação;
que aquele que bate à sua porta “em nome de Deus” oferece paz, benção e oração, para depois sugerir uma contribuição “compatível com a sua condição”;
ou mesmo o hippie da rosa — você recebe a rosa, e de repente se sente moralmente obrigado a pagar.
A psicologia da reciprocidade é antiga.
É simples. Funciona. E hoje é explorada à exaustão.
É justamente isso que está acontecendo no Prêmio Reclame Aqui. Já ouviu falar?
O prêmio se apresenta como reconhecimento de excelência.
Mas, na prática, é gamificação de engajamento:
Vote em dezenas de categorias — mesmo que você não conheça as empresas, mesmo que em algumas só exista um único candidato — e no final você ganha… uma medalha virtual.
Recompensando o vazio pelo nada.
Ou seja:
“Escolha o vencedor, não precisa saber quem é, clique, sinta-se eleitor… e ao final te dou uma medalha para você achar que participou de algo importante.”
Isso não é prêmio.
Não é reconhecimento.
Não é reputação.
Isto é uma vergonha.
E, num olhar mais atento, é difícil não perceber a engenharia por trás:
Empresas supostamente combinadas, categorias inventadas, subcategorias criadas para que todos possam concorrer — ou ao menos parecer que concorrem — e vencer alguma coisa.
É o famoso:
“Vamos participar da premiação do nada? Juntamos umas desconhecidas com outras, e deixamos o público decidir pelo cansaço. Quem sobreviver ao clica-clica leva.”
Nada é impossível.
Nesse país, até a bala mágica teria saído do JFK e desembarcado num acordo anticorrupção.
Observe como a regra da reciprocidade existe e funciona na sua vida.
Não raras vezes me vejo em situações que existem por conta de algo muito maior prometido que na realidade é bem menor.
O que importa para muitos que chegam as vezes não é nem vender ou me engajar na questão e sim chegar a alguma indicação ou contato.
A regra da reciprocidade faz parte da dimensão da mente humana, assim como o credo.
Aprendi que não é o dono da bola que importa e sim o time. De igual forma, não existe time com jogador fominha.
Não existe reciprocidade em canal unilateral.
Esse tipo de relação não se cria, não se compra nem se constrói da noite para o dia. Ainda que seja o sonho de muitos e me incluo no time dos sonhadores, a vida vai passando e agora com 44 anos olho para trás e reflito sobre tudo o que fiz, apostei, gastei, ganhei e perdi em relação a pessoas.
Porque bens materiais não são recíprocos, não tem valor, correspondem apenas a um momento financeiro… nesse caso e para quem tem cobiça a vida alheia, a recíproca não é verdadeira.