Há carros que a gente compra.
E há carros que a gente encontra, como se eles já estivessem à nossa espera.
Essa é a história por trás do meu carro.
O meu Mercedes E320 W124 — azul por fora e azul por dentro — não é apenas um veículo.
É uma companhia silenciosa daquelas que não exigem nada, apenas repartem a estrada.
Não é um carro que se apresente.
Ele simplesmente é.
Existe algo quase afetivo na forma como o painel azul reflete a luz da manhã.
No interior azul toque do couro — marcado pelo tempo, mas não cansado.
No ronco baixo e contínuo do motor, que parece respirar junto comigo.
É difícil explicar para quem nunca dirigiu um carro que não é jovem — mas também não envelhece. É confortável, previsível e dinâmico.
Eu só sei dizer uma coisa: é o melhor carro que já tive.
Fato: esse carro não envelhece.
Ele amadurece.
Dirigi-lo é lembrar que há valor no contínuo, no sólido, no tranquilo.
Que existe beleza em não ter pressa.
E, se houver, há motor para chegar — com dignidade.
Esse carro me ensinou que presença não precisa de barulho.
Vivemos cercados de carros rápidos (quase liquidificadores), telas enormes, assistentes automáticos — e, curiosamente, nunca fomos tão distraídos.
E os carros, tão mal construídos!
Esse Mercedes vai na direção contrária.
Ele devolve o volante às mãos.
Devolve o tempo real ao motorista.
Devolve o momento presente.
É um carro que exige respeito, mas não arrogância.
Que entrega conforto, mas não ostentação.
Que foi construído quando o aço ainda era aço — e quando a Mercedes-Benz não competia com ninguém, a não ser consigo mesma.
Quando o preço não determinava o carro — a engenharia determinava.
Talvez eu não saiba explicar tecnicamente o que sinto quando dirijo.
Mas eu sei como me sinto: bem. Muito bem.
Com ele, não há buraco na rua.
Todos os dias são azuis.
Passei a reconhecer quando algo faz sentido na vida.
E esse carro faz.
Sou, de verdade, feliz com ele.
Não pretendo trocá-lo.
E acho que, de algum modo sutil, ele também está feliz comigo — com os consertos, com o cuidado, com a atenção.
O mundo moderno revela dois tipos de pessoas:
quem dirige um carro; e quem convive com o carro.
São coisas muito diferentes.
Esse clássico tem presença sem grito, engenharia sem arrogância, força sem pressa, anda calmo, mas não é lento, elegante sem precisar aparecer.
Tudo o que eu também desejo a todos vocês.
Curiosamente, é o preferido do Nino.
Tal pai, tal filho pet.



