Não é de hoje que assisto à inversão moral que tomou conta do debate público no Brasil.
Quando o bandido mata um inocente na saída do banco, no sinal, metralha um carro ou invade uma casa, é “tragédia”.
A imprensa, porcamente, transforma o luto em audiência e a dor em manchete. Vive da tragédia e dela se alimenta.
Quem não se lembra do pequeno João Hélio?
Mas quando a polícia enfrenta facções que impedem gente de trabalhar e viver em paz, vira “extermínio”.
Curioso é que nem o povo — refém do próprio bandido — endossa essa narrativa.
Por quê?
Em que momento o Estado falhou tanto que deixou de dar a essas pessoas a chance de enxergar que podem ser dignas de uma nova vida — ou ao menos de uma vida civilizada?
Fato: o Brasil é o país onde o criminoso ganha rosto, história e empatia — e a vítima, um número numa planilha.
José Vicente da Silva Filho, Miriam Leitão, Gleisi Hoffmann, Lewandowski e tantos outros adotam, cada qual à sua maneira, o mesmo discurso polido, o mesmo tom professoral, a mesma fórmula vazia:
“É preciso conter os abusos.”
“Respeitar o Estado de Direito.”
“Evitar a escalada da violência.”
Todos confortavelmente instalados em seus cargos, cercados de assessores, motoristas e seguranças.
Bonito no papel. Cômodo na consciência. Mas inócuo — e perigoso.
O Estado de Direito que defendem já foi sequestrado.
E, por ironia, esse discurso “civilizado” parece endossar o próprio caos institucional em que vivemos — apenas com outra narrativa.
Não foi a polícia quem sequestrou o Estado.
Foi o crime organizado, que dita toque de recolher, cobra pedágio e veta a liberdade do cidadão.
Decide em quem se vota, onde se compra o gás, quanto se paga na TV a cabo e qual operadora de telefone o morro vai usar.
O verdadeiro abuso é o da omissão.
É a covardia de quem se refugia em códigos e tratados enquanto o povo sangra nas ruas.
Duvido que algum deles tenha coragem de andar de janela aberta, com o celular na mão e relógio no pulso, num carro comum, atravessando o Rio de Janeiro.
Quando um policial reage, é manchete.
Quando uma criança é baleada por traficante, é rodapé.
Essa seletividade moral é o retrato da elite brasileira — cercada por muros e escoltas — que ainda tem a pretensão de ensinar ética a quem dorme com o barulho dos tiros.
É confortável ser garantista quando se vive blindado.
Difícil é defender o trabalhador que acorda cedo, atravessa território dominado por facção e reza para voltar vivo — ou que se acostuma a andar cercado por gente armada oferecendo tudo em troca de apoio.
Esse, o Brasil progressista e acadêmico prefere ignorar.
Não cabe na narrativa.
E assim seguimos: reféns de um moralismo seletivo que protege quem oprime e condena quem protege.
Quando o criminoso morre, é luto nacional.
Quando a polícia vence, é “violência do Estado”.
Quando o cidadão morre, é só mais uma estatística.
E quando o Judiciário reage apenas pela manchete do jornal, é só mais um capítulo do esgoto que chamamos de normalidade.
Segue o baile.

