Se o Raimundos pensa que só existem mulheres de fase, estão redondamente enganados.
Claro, com bem menos intensidade e rancor, nos diversos capítulos desta serie coloquei o foco nas fases mais variadas da vida.
Fase de amar, de casar, de separar, de recomeçar, de encontrar denovo, casar novamente e de entender que todas as fases vividas, são o alicerce dessa nova fase da vida, que chega sem alarde.
Essa é a que estou hoje e que vivo silenciosamente todos os dias.
O que tem de diferente?
Bem, não preciso pedir licença a ninguém para falar, concordar ou discordar. Nem para fazer o necessário para ocupar o meu espaço.
Porque fui tao diferente no passado?
Teria sentido um medo que me enterrou vivo? Seria prudência demais na tentativa de manter as situações existentes funcionando sem incomodar, sem perturbar o entorno que sao as pessoas ao redor?
Fato: Todas as vezes que pedi licença fiquei de fora.
Esse foi o tamanho do processo de auto anulação vivido. Fiquei fora de mim, por isso também não aprofundei algumas amizades e vivi um ecossistema paterno que para minha idade era artificial.
Como pude?
Para viver nunca foi necessário pedir autorização. Sempre foi uma condição humana cuja alternativa é certamente muito pior.
Para viver a minha história, nem eu, voce e ninguém deveria ter que pedir licença. Demorei muito tempo para entender isso. Hoje, aqui, nessas linhas e fora delas, vivo plenamente.
Foi somente assim que consegui superar alguns defeitos, historias e contradições que, reunidas, sao o ingrediente que formam a minha presença.
A idade chegou e percebo que não preciso ser agressivo para mostrar firmeza. Da mesma forma ocupo naturalmente o meu espaço sem arrogância e com elegância falando o que penso.
Hoje aos 50 não preciso mais esconder-me dentro de mim, a vida se resume ao que vivo por dentro e para fora.
Depois do livre arbítrio talvez esta seja uma das poucas e valiosas liberdade que todos nos temos.
Ao viver assim, curiosamente, o mundo fica mais simples.
Percebo algo comum de muitos ao perguntar sobre a minha história: porque demorei tanto a entender e assumir a natureza afetiva que tenho?
Hoje percebo que veio do fato que passei a vida inteira tentando caber.
Queria muito suprir as expectativas depositadas em mim. Obviamente não deu certo, e cansei.
A dificuldade que tive de me entender, portanto conviver e socializar na infância, me tornou adaptável ao ambiente. Adaptar não é uma virtude. Não há mérito nisso.
Hoje percebo que o adaptado nunca sera um profissional pleno, marido presente ou homem forte que resolve as questões do dia-dia. Essa flexibilidade não gera maturidade. Nem o silencio sobre mim foi elegante.
Essa virada de chave dos 50 anos me fez refletir que o importante mesmo é ser quem eu sou, ocupando o próprio espaço sem pedir desculpas.
Isto, ao contrário do que no passado pensei, não é ser arrogante. É presença.
O que aprendi depois de muita dor e do peso que as circunstâncias recaiam sobre mim, é que eu me diminuí, me menosprezei para manter o equilíbrio de situações e problemas que… não eram meus.
Quero viver, se assim Deus permitir, o espaço que ocupo.
Ou seja, não quero ser entendido a força, nem falar ou convencer quem ja decidiu a não escutar. Cada um é o senhor do seu destino. Também não vou disputar espaços que exigem energia demais para pouco sentido. Se você quiser por favor passe a frente e bom caminho.
Hoje, no espaço que ocupo, escolho onde sento, onde falo, onde invisto tempo, com quem falo e também onde me silencio.
São decisões reais provenientes de um alinhamento interno. A presença surge sem ser anunciada, competência, aparece sem ser proclamada. Simplesmente sou, dentro do meu quadrado, percebido.
Saber quem sou, e principalmente quem não mais sou, trouxe uma calma incrível. To be, or not to be, that is the question.
Aquela ideia conquista que no passado que significava mais trabalho, mais responsabilidade, mais compromisso hoje não é vista da mesma forma.
Ouso dizer. Me parece meio raso.
Hoje, aos 50 ocupo meu espaço sem tirar o de ninguém. Pelo contrário, crio relações honestas simplesmente porque não quero mais caber.
Quero viver e ocupar meu espaço sem imposição, sem medo e se possível, sem excessos.
Todos os anos muitos pais programam as ferias dos filhos. Nem sempre fácil e obvio.
No meu caso, penso que era mais fácil, eu finalmente largava o computador, embarcava em um voo para fortaleza e me enfurnava na concessionária Chevrolet da familia que ficava do outro lado da rua na casa do meu tio.
Do atendimento ao cliente na recepção ao serviço na oficina, me encantei desde cedo com o que o conserto do carro representa. A ideia de trabalhar em algo que não esta bom, por vezes quebrado e retornar corrigido me fascina.
Ha muito o que aprender sobre pessoas na recepção de uma oficina. A forma pela qual relatavam os problemas também mostra a sensibilidade e percepção na condução.
Mal sabia que essa sensação seria o embrião a minha atividade atual. Como advogado procuro acertar o caminho resolvendo problemas tornando a situação ruim em normal.
Os longos dias acabavam ao som de tony bennett, tomy dorsey e frank sinatra.
E ao longo da vida tive a benção de ter veículos que passam ao motorista uma sensação boa de dirigir, maior do que representam.
Em viagens costumo dirigir um Mercedes E 220d. Sou fascinado por esse carro que não pede palco. É confortável, seguro e tem ótima estabilidade.
Surpreende, com sete lugares, tem espaço para tudo o que ainda cabe na minha vida e tem um som que transforma cada minuto na estrada em reflexão.
E graças ao eficiente motor turbodiesel consigo viajar ate 1100 kms com serenidade portanto sem ansiedade.
Ja no Brasil alguns textos atras relatei dirigir o azulão. Aquele carro tem peso nas portas, densidade na construção e um silencio de outra época. Feito para durar.
Entre maquinas e silencios, percebo que a maturidade não é diminuir a paixão e sim refina-la, andar sem ter que provar nada no caminho.
A condição humana para estar vivo é suportar, enfrentar e superar uma infinidade de questões — e alguns problemas que surgem no caminho.
Considero esse período que antecede o Natal o mais importante do ano. A percepção da comemoração de mais um aniversário do nascimento de Jesus traz, de fato, o melhor das pessoas.
Penso — e entendo — quem gostaria de viver o clima de Natal o ano inteiro. Imagine lidar apenas com pessoas capazes de serem mais otimistas, um pouco mais generosas e até assertivas, ao invés desse vai e vem de egos e disputas que atravessam o resto do ano.
Não à toa, parece que em janeiro tudo de bom que muitos fazem em dezembro simplesmente desaparece. A perspectiva de esperar longos — porém rápidos — meses para retornar a esse estado provoca em alguns, além de tristeza, um certo egoísmo. Passam a viver para si mesmo.
A minha parte venho procurando fazer o ano inteiro.
Nesta semana montei a árvore de Natal. Me alegra ver e viver essa liturgia — esse estado de espírito. A árvore montada, as luzes incandescentes acesas, sem ferir os olhos, e eu aqui, olhando para a estrela iluminada no topo como quem olha para si. Não tanto quanto gostaria — poucos em batalha conseguem —, mas consciente de que cada vez mais preciso olhar melhor para dentro.
Aproveito, portanto, esse tempo — e essa época — para, silenciosamente, pensar: o que eu fui, o que fiz, o que sou e o que ainda pode nascer em mim.
Deus é misericordioso, isso sabemos. Vejo que alguns, confiantes em alguém que nos amou até o limite — que tudo nos deu, inclusive a si —, esquecem que não são deste mundo. Eu me lembro disso, e sobre isso escrevi e afirmei muitas vezes.
A percepção desse fato é o que me encoraja todos os anos a receber família e amigos em casa para celebrar a Festa da Árvore. Essa ocasião serve para lembrar que viver é mais do que trabalhar, comprar, cumprir agenda, resolver problemas e eliminar pendências.
Viver exige manter o coração limpo. É difícil. Porque? Ninguém nos ensinou que viver é perigoso. E a tentação de endurecer é diária.
Confesso que não sei se mudei o suficiente, se amadureci o necessário ou se apenas sobrevivi.
Ainda estou aqui.
Enquanto digito, respiro, reflito, penso e reorganizo. Processo parecido faço quando escuto música, organizo meus discos e me dedico à casa, à família, ao marido — com valores que, espero, edifiquem nosso castelo e se Deus permitir, ficara em pe para sempre.
Nos acertos e tropeços, entendi que busco na fé uma forma de manter o coração limpo e sobreviver em um mundo que insiste em nos endurecer e afastar do que realmente importa.
Chego ao fim do ano com alguns arranhões, feridas em processo de cicatrização e perspectiva de sucesso em algumas questões.
Em retrospectiva, vejo que caminhei entre cidades, histórias, reuniões, estradas e lembranças — tudo o que foi possível para tentar viver com densidade. Tenho dificuldade de viver no modo automático, de caber em caixas, de conviver com o raso ou o improviso vazio.
Recentemente, alguém disse que eu tenho capacidade de mudar de assunto sem perder profundidade: falar de regulamentação bancária, preço de brunch em Paris, tensão do tensor da W123 e do sentido moral do Estado brasileiro — e ainda assim permanecer no mesmo eixo de responsabilidade e consistência.
Por anos me julguei insuficiente por não mudar de opinião conforme o vento. Hoje entendo: eu mudo quando entendo. E para entender, aprendi a ter escuta longa. No profissional, aprendi a discordar sem aumentar o volume — aumento a precisão. Custe o que custar, demore o quanto for, resolvendo, da certo no final.
Não é facil, so consigo porque não estou em guerra comigo mesmo.
Ser gay nessa sociedade — intolerante em alguns aspectos, acolhedora em outros — me ensinou a levar tradição e afeto a sério, mas não como peso. Não me enraízo em valores que não me pertencem. Nesta vida curta, procuro aproveitar meus pais, as cidades onde estou, meus carros e esses textos que escrevo: representam a memória viva.
Melhor do que isso so mesmo gravando video, bloqueio que estou constantemente tentando superar.
Ainda que às vezes pareça cético, procuro terminar meus textos com esperança. Que seja por um fio — vale a pena tentar.
Quanto mais me aproximo dos cinquenta, mais busco sentido no que atravessa o tempo: pessoas, gestos, memórias.
Há carros que a gente compra. E há carros que nos encontram, como se estivessem à nossa espera. Isso diz muito sobre mim. Vejo valor no que amadurece, não no que apenas envelhece. No que permanece quando o mundo corre — ou nos cobra correr. Não preciso levantar a voz para ser quem sou.
Procuro reconhecer o que tem valor mesmo quando ninguém está olhando.
Entendi que o tempo não leva tudo — ele revela. Só o tempo revela quem ficou, quem se foi, o que importa e o que só fazia barulho.
Tantas certezas, e ainda não sei exatamente quem sou. Mas sei o que não quero ser. E, por agora, isso basta.
Que esta véspera de Natal e o ano que está por vir sejam de mais presença e menos embrulho. Menos promessa e mais verdade. Tão importante quanto decorar a casa, entregar uma lembrança e preparar a mesa — é habitar o coração.
Sigo buscando. Com calma. Com firmeza. Com coração. E com fé — porque com fé tudo é possível.
Este blog, com seus erros e acertos, é o meu lugar de pensar.