Durante muito tempo me perguntei se conseguiria chegar a essa idade bem, com saúde, e o que seria de mim ao cruzar esse marco. Cinquenta sempre soou distante, quase abstrato. Hoje é aqui e agora.
O que representa ser um cinquentão? Uma virada de chave? Um novo olhar sobre a vida pessoal e profissional? Novas perspectivas?
Ainda carrego muitas perguntas sem respostas, e talvez esse seja o maior sinal de vitalidade. Quem se pergunta, ainda caminha. Quem busca ainda vive.
Chegar aos 50 me trouxe uma grata surpresa: permitir-me o novo. Novas amizades, novos programas, novos olhares. Não como fuga do passado, mas como continuidade e expansão.
O que não mudou foi a rotina do dia a dia. E percebo que isso não é pouco. Voltei a acordar cedo para rezar e tomar café enquanto vejo o dia clarear. Esse ritual, independentemente do dia anterior, me reorganiza por dentro. Zera os excessos, silencia o ruído e me devolve ao essencial decorrente da fe em Deus. Todos os dias.
Sinto-me privilegiado por ter um marido e por viver nossa vida com liberdade, sem medo e sem as marcas do preconceito. Talvez porque nunca tenha alimentado isso em mim, não carrego esse reflexo nem isso atraio. A vida devolve aquilo que cultivamos.
Aos 50, sigo aprendendo. Aprendendo sobre mim, sobre pessoas, sobre amigos, sobre o tempo. Aprendendo a viver o presente e a acolher tanto as oportunidades quanto os problemas que cada dia traz.
Descobri que toda dificuldade é, também, uma oportunidade de fazer melhor. Esse entendimento me impulsiona nos processos, nas negociações, na vida profissional. Resolver problemas é, afinal, o que faço de melhor e sigo esse caminho com mais calma, mais consciência e menos ansiedade.
Essa é a essência da Série 50.
Não sobre o que ficou para trás, mas sobre o que continua e o que ha por vir. Sobre maturidade sem dureza. Sobre fé sem alarde. Sobre presença.
Aqui estou.
Essa é a minha vida, minha família, meus amigos que fazem parte do pequeno acervo afetivo, e a expressão do que sou como cristão.
Feliz. Grato.
Obrigado.
Que venha mais um ano. Rumo aos 51 escrevendo reflexões que estarão presentes na nova decada.
Parece que foi ontem que iniciei o ano me perguntando como ele iria transcorrer. Acredito que não sou o único a pedir e estabelecer metas pessoais e profissionais.
De todas as que fiz, hoje olho à minha volta e percebo que vivo a mais improvável delas. Graças a Deus.
Depois da crise dos quarenta, entrei no retrospecto dos cinquenta.
Percebi que, em poucos meses, essa idade vai chegar. Jamais poderia imaginar que a proximidade desse aniversário causaria tamanha revolução e reorganização interna.
Ajuda o fato de que, no campo profissional, apesar da demora na solução de algumas questões que venho buscando resolver há anos, os resultados estão chegando.
Faço parte e/ou sou a ponte para a solução, porque vivo diariamente os problemas dos outros. E não esqueço — nem das pessoas, nem das circunstâncias.
Esse tipo de profissional que me tornei foi construído ao longo dos anos, nos embates diários de situações e pessoas, moldado pela educação, assertividade, caráter e transparência. Isso ilustra bem uma frase que costumo dizer: “quem puxa os seus não degenera, herda.”
Amém!
Não tenho motivo, nem tive educação ou instrução para agir de forma contrária. Se hoje estou vivendo em altitude e velocidade de cruzeiro, apesar das turbulências, foi porque planejei, busquei e Deus, no comando, me capacitou para ser assim.
A revolução veio no campo pessoal.
Recentemente, falei ao Paulo que, antes de conhecê-lo pessoalmente, escutei sua voz. Através dela, conheci seu coração. A partir disso, a questão não era se eu ficaria com ele até o fim da vida, e sim se ele me aceitaria para ser dele pelo resto das nossas vidas.
Foi assim que entrei na vida dele. Ainda que com traumas, defeitos e um coração duro, construímos uma relação que torna os mais de vinte anos de distância em zero e aprendemos a viver o hoje.
Obrigado, Deus, Tu és bom o tempo todo. Conheces bem o coração das pessoas e não as julgas pelo que fazem, mas pelo que são.
Até mesmo quando me afastei da igreja ao me entender gay, voce me acolheu. E aqui estão inúmeras passagens que considero milagres, vividos o qual sou testemunha.
Não há um dia em que não me lembre de suas palavras quando estive internado e curado, como bem disse um emissário no corredor do hospital. Seja lá ou até mesmo num exame complexo laboratorial.
Quatro anos atrás, Ele operou outro milagre grandioso:
Me trouxe o Paulo. Aquele coração frio e duro, anos depois, começou a amolecer.
Junto com ele, algumas das emoções reprimidas voltaram. Algumas com lágrimas de alegria, outras de superação. Também chorei angústias, dores e frustrações nos momentos mais improváveis do dia.
Se hoje consigo acordar e olhar para a vida com amor e felicidade, reconhecer logo cedo a importância de rezar e agradecer por despertar, abraçar o maridão, escutar música e ter uma vida com ele, foi porque aprendi — e a vida me ensinou — a reconhecer esses momentos, como descrevi no texto “At times life is pure joy.”
Para os que não me conhecem pessoalmente, pode parecer que vivo para enfatizar a alegria e a felicidade o tempo todo. Acredito que, com o passar do tempo, as experiências relatadas revelam que ambas são reconhecidas em situações do dia a dia, ainda que permeadas por outras questões.
Como, por exemplo, dizer não. Não há contexto em que o estabelecimento de limites e um “não” sejam alegres.
Em “Livrai-me de todo o mal” retrato a felicidade por ter mais um ano com meus pais. Que presente esse dado por Deus: deu vida longa à minha família. Nesse contexto, sou de corpo e alma grato por viver esse momento.
Isso, assim como o desejável dia previsível e tipicamente normal, me dá uma sensação de pertencimento.
Voltando ao início do ano, o que mais? Esses sentimentos vêm sendo amplificados ao longo dos dias e semanas. Causaram suposto descontrole das emoções e, por elas, lágrimas caem como a chuva aparece todos os dias no Pará.
Coração conquistado, vida em ritmo de construção normal, tenho me dedicado à nossa família. Através de situações difíceis, aprendi a dar valor a todos os que estão presentes.
Olho para trás com felicidade, por que não?, ao ver que construímos nosso amor em um ecossistema de vida, trabalho, família e amigos por perto.
Isso aquece meu coração, que acorda e bate insistentemente forte, como a boca que treme, treme, treme ao comer a folha de jambu.
Fiz planos para tudo, menos para o aquecimento do coração. Esse veio como uma dança, um sorriso, um beijo, pela família, pelos amigos, veio com tudo o que é bom, ainda que por trás de desafios.
Posso hoje perceber, meses antes dos cinquenta, que o fim do degelo está próximo!
E os cinquenta vão chegar comigo em paz com a família, o trabalho e o passado.