Serie 50 | Capitulo 8 – O Espaço Que Ocupo.

Percebo algo comum de muitos ao perguntar sobre a minha história: porque demorei tanto a entender e assumir a natureza afetiva que tenho?

Hoje percebo que veio do fato que passei a vida inteira tentando caber.

Queria muito suprir as expectativas depositadas em mim. Obviamente não deu certo, e cansei.

A dificuldade que tive de me entender, portanto conviver e socializar na infância, me tornou adaptável ao ambiente. Adaptar não é uma virtude. Não há mérito nisso.

Hoje percebo que o adaptado nunca sera um profissional pleno, marido presente ou homem forte que resolve as questões do dia-dia. Essa flexibilidade não gera maturidade. Nem o silencio sobre mim foi elegante.

Essa virada de chave dos 50 anos me fez refletir que o importante mesmo é ser quem eu sou, ocupando o próprio espaço sem pedir desculpas.

Isto, ao contrário do que no passado pensei, não é ser arrogante. É presença.

O que aprendi depois de muita dor e do peso que as circunstâncias recaiam sobre mim, é que eu me diminuí, me menosprezei para manter o equilíbrio de situações e problemas que… não eram meus.

Quero viver, se assim Deus permitir, o espaço que ocupo.

Ou seja, não quero ser entendido a força, nem falar ou convencer quem ja decidiu a não escutar. Cada um é o senhor do seu destino. Também não vou disputar espaços que exigem energia demais para pouco sentido. Se você quiser por favor passe a frente e bom caminho.

Hoje, no espaço que ocupo, escolho onde sento, onde falo, onde invisto tempo, com quem falo e também onde me silencio.

São decisões reais provenientes de um alinhamento interno. A presença surge sem ser anunciada, competência, aparece sem ser proclamada. Simplesmente sou, dentro do meu quadrado, percebido.

Saber quem sou, e principalmente quem não mais sou, trouxe uma calma incrível. To be, or not to be, that is the question.

Aquela ideia conquista que no passado que significava mais trabalho, mais responsabilidade, mais compromisso hoje não é vista da mesma forma.

Ouso dizer. Me parece meio raso.

Hoje, aos 50 ocupo meu espaço sem tirar o de ninguém. Pelo contrário, crio relações honestas simplesmente porque não quero mais caber.

Quero viver e ocupar meu espaço sem imposição, sem medo e se possível, sem excessos.

Com postura.

E sigo!

Com sono, barba e cabelinho cacatua.

Serie 50 | Capitulo 7 – O Peso Que Não Se Ve. (Parte II)

Lembro-me bem de uma cena de De Volta para o Futuro em que Marty, ao receber uma informação de seu amigo Doc respondeu: “Isso é pesado”.

Volta e meia nos difíceis embates da vida ouvi que Deus não da a ninguém um fardo maior que possa carregar. E não so por isso, ao chegar a exaustão, incontáveis vezes pedi ajuda para carregar o meu.

Assunto pesado, cor que grita, muitos são os adjetivos para descrever um sentimento por trás de uma ação.

Peso a parte, ja escrevi dizendo que aos 20 vivia para provar; aos 30 com o mundo aos meus pés queria conquistar o mundo; ja com 40 procurei me sustentar e quando cheguei, finalmente aos 50 percebi que a fase é de entender.

Ando pensando muito sobre o que não vejo. Nada em relação ao sucesso aparente, menos ainda das viagens apesar de ser o interlúdio um artigo sobre carro.

Não são esses os assuntos que me ocupam, e sim o cansaço invisível que compreende situações e decisões que ninguém soube. Sao um combustível para noite ma dormida e duvida respondida pela frase de consolo “e esta tudo bem”.

Esse tipo de exaustão moral, silenciosa e emocional se nutre do acumulo de expectativas, de pessoas que dependem de mim, tudo regado pelas diferentes versões de minha própria existência aqui classificadas por décadas.

Custei olhar para mim e reconhecer que, com o passar do tempo, a força de mudar não mais protagonista de minha existência.

O momento hoje é de escolher.

Precisei de cinquenta anos e tres casamentos para começar a enxergar padrões. Eles estavam nos relacionamentos que exigiram demais sem oferecer tanto. Também presente nos ambientes cujo peso drenou energia sem oferecer na igual proporção contrapartida.

É tempo de passar a régua, reconhecer a finitude e ter respeito ao que resta. A flor da idade vem com peso embora delicada.

Passei anos resolvendo problemas dos outros e meus para corrigir situações, transformando o que estava quebrado em algo funcional com alguma dignidade. Quem orbita a minha vida bem sabe.

Com o tempo passei a acumular perguntas sem resposta. Se não tenho o habito de pedir, quem vai resolver os meus problemas. Qual é o meu problema? Ainda sem resposta voltei a terapia para relatar pelos assuntos dos textos o que sinto.

A falta de resposta é um peso que não se ve. Some a isso as renuncias silenciosas e o não que dói no momento, ainda que se revele uma especie de livramento no futuro.

Sair de cena, não enfrentar determinadas batalhas também tem seu peso. O conjunto desses argumentos bem demonstra a evolução do poder de selecionar. Não preciso provar nada a ninguém, e sim decidir melhor o que quero.

Pensando nisso acordo, treino, trabalho e durmo diferente. O resultado disso é ter serenidade na batalha. É um sentimento real ainda que em construção.

Olho ao meu entorno e tenho certeza que aos 50 o luxo não é ter mais e sim precisar menos. Isso se aplica ao ruído, a urgência e validação sem a qual não vivo a verdade. Menos é mais.

Engraçado, no começo dessa serie bem escrevi sobre o passado, escolhas que fiz e limites que impus. Agora o momento compreende a inteligência emocional comigo mesmo.

Procuro não ter nada alem do necessário, a sempre buscar o justo e permanecer saudável.

Esse peso, que a gente não vê, pode me dobrar ou ensinar a postura quando aprendemos a conviver.

Estou a escolher a segunda opção.

E sigo!

Serie 50 | Capitulo 5 – Escolhas

Antes dos 20, a escolha era ter 18 para entrar nas sessões de cinema, ter habilitação para dirigir e poder sair sem censura, ou seja, escolher… era lidar com ansiedade.

Quando formado e trabalhando, aos 30 veio aquela sensação que o mundo estava aos meus pés, muitas escolhas foram feitas levando em consideração a ambição de ser, fazer e estar.

Não a toa existe um ditado popular que diz o tempo é o senhor da razão. Quando virei 40 as escolhas giravam em torno da responsabilidade. Havia consolidado a minha natureza afetiva pouco tempo antes e ja sentia o peso e responsabilidade dos meus atos e decisões.

Curioso esse sentimento nunca deixou de existir. Foi complementado agora aos 50, quando me dei conta que escolher é renunciar. E isso exige responsabilidade.

E talvez esse seja em apertada síntese o panorama dos meus aprendizados.

Nos textos anteriores ja disse enquanto jovem levei muita coisa para frente na concepção que amadurecer era suportar e somar. O dia dia, no espectro de opções binárias se resumiu a escolher isso, ou aquilo. Ora pensava na carreira, ora na vida social, nunca em mim. Queria ter dinheiro e tempo simultaneamente. Achei que poderia ser perfeitamente possível ter ambição e paz.

A maturidade ensinou algo desconfortável: minhas escolhas carregaram uma renúncia silenciosa. Com o tempo entendi, não dava para estar em todo lugar, agradar a todos, sustentar todas as versões de mim mesmo e através disso manter todas portas abertas.

E agora vejo, foi demais. A frustração foi libertadora também. Muitos que não correspondiam as expectativas foram embora. Quem estava fora do propósito também.

Sem perceber fechei portas, algumas com raiva outras depois de viver um drama para ter serenidade.

Hoje aos 50, percebo que escolha deixou de ser movida pelo medo de perder. Passou a ser guiada pelo desejo de preservar energia, tempo e paz.

E há algo ainda mais profundo: hoje posso escolher quem quero ser daqui para frente.

Das escolhas ja digo, não sera quem fui ou esperava que fosse. Essas paginas estão viradas. Daqui para frente a escolha será consciente em torno do que sou.

Afinal hoje a idade pesou. Talvez a juventude tenha me dado muitas possibilidades que a maturidade adicionou uma pitada de critério ao molho de rejeição.

Hoje entendo que não escolher também é uma escolha e geralmente a pior delas. Daí porque certo ou errado decido e não me omito. Porque a vida decide por nos quando ficamos paralisados. Se o tempo ensina, ele também cobra posicionamento.

Aos 50, percebo que liberdade não é fazer tudo.

É poder dizer: isso eu quero.

E principalmente: isso eu não quero mais.

E há uma paz enorme nisso.

Acredito.

Serie 50 | Capitulo 4 – O Limite

Superada a fase inerente as escolhas me deparei com a questão do limite. Demorei a entender que limite não é dureza. É respeito genuíno.

Ao limitar não estou necessariamente tirando algo de alguém. Pelo contrário, porque gosto digo desse ponto não vai, essa linha não vai cruzar dessa forma.

Por muito tempo associei equivocadamente limite a afastamento, frieza, indiferença. Talvez seja porque eu assim como muitos brasileiros tem problema em dizer não.

Daí porque via aquele que impunha limites como menos disponível, por vezes menos generoso, talvez até menos amoroso.

Hoje sei que não é por ai que se anda. Hoje entendo que limite é cuidado e proteção, principalmente comigo. Seja na vida pessoal ou profissional, entender o limite é importante para não frustrar as relações.

Aos 50, percebo que grande parte do meu cansaço não veio do trabalho, do tempo ou das responsabilidades. Veio de pessoas, fatos e circunstâncias desenvolvidas para ultrapassar a mim mesmo. Verdadeiro atropelo.

Ai vem a simples pergunta: porque? Teria eu errado ao aceitar mais do que cabia? silenciar incômodos para manter a paz? Ou por permanecer onde já não havia reciprocidade, apenas hábito.

Impor limites não me fez perder pessoas. Os limitados parece não estavam comigo mesmo. Em ultima analise revelou quem realmente estava ali.

Onde estou? Com quem estou?

Algumas ausências doem, outra doeram fora as que não superei. Nem tudo é ruim, obviamente existem outras que aliviaram.

E houve aquelas que só mostraram que o vínculo já não existia apenas ocupava espaço e como tal demandava da tríade de trabalho pessoas e processos.

Algo bom desse ensinamento é que dizer “não” não exige explicação longa.

Que não estar disponível o tempo todo não é falha de caráter. Procuro sempre preservar o meu tempo, a minha própria energia e a própria paz.

Isso não é egoísmo, é maturidade.

Limite também é saber sair. Sair de conversas que não levam a lugar algum. De expectativas que nunca serão atendidas. De relações onde o esforço é sempre unilateral.

Hoje escolho menos embates e mais silêncio. Escolhi o ócio em detrimento do Caos.

Procuro menos justificativas e mais coerência. Menos presença por obrigação e mais presença por verdade.

Aos 50, entendo que quem se ofende com limites, quase sempre se beneficiava da ausência deles.

Serie 50 | Capitulo 3 – Amadurecer é escolher com coragem.

Depois de muito refletir sobre a questão do tempo aos 50, concluí que a vida deixa de pedir pressa. Quem pediu e errou fui eu.

O que o viver pede, é clareza.

Termo simples de compreender, mas de descrição complexa. Algo que só fui alcançar depois de algum tempo.

Por que demorei? Onde errei?

Sabotei a mim mesmo ao confundir amadurecer com suportar. Achei que crescer era aguentar mais, ceder mais, criar mais, explicar mais, movimentar mais, enfim, ir levando.

Hoje percebo que não.

Amadurecer é diminuir. É entender que menos é mais. Diminuir o ruído, as expectativas, as concessões. Aliviar o peso desnecessário.

O tempo não ficou mais curto. Ele apenas ficou mais valioso. O que mudou foram as… escolhas!!!

Em uma retrospectiva breve e apertada da minha vida, percebo que algumas escolhas fiz cedo demais, por medo. Outras, tarde demais, por hábito. Só depois de muita terapia consegui olhar para esse campo das escolhas sem me maltratar, sem fazer de mim mesmo o alvo do erro. Ainda sinto o peso delas ao amanhecer.

No período que antecedeu os 50, algo mudou silenciosamente: passei a escolher não para agradar, não para provar, mas para preservar. Preservar a energia, coerência, paz. Talvez por isso tenha conseguido construir tantos vínculos pessoais e profissionais verdadeiros e que mantenho ate hoje.

Escolher, aos 50, também é aprender a renunciar sem culpa. É dar às pessoas aquilo que desejaram para si e, ainda assim, permanecer ao lado delas depois e sem julgamento.

A vida, através das escolhas, aproxima, e também afasta.

Renunciar a relações que só existiam pela memória foi necessário para, à distância, manter a serenidade.

Cheguei aos 50 renunciando. Renunciando a papéis que visto bem, mas que deixaram de me representar, por fazerem parte de enredos que, por algum tempo, me sabotaram.

Duro? Sim.

Honesto também.

Descobri que dizer “não” não fecha porta, organiza o caminho. Aprendi que limites não afastam quem importa. E que permanecer onde não há reciprocidade cobra um preço alto demais, quase sempre pago em incompreensão, raiva e silêncio e ingratidão.

Aos 50, escolhi estar inteiro onde estou, com tudo ou nada, e também ausente onde já não faz sentido permanecer.

Talvez essa seja a maior mudança: entender que escolher a mim mesmo não é egoísmo, é responsabilidade.

Com o tempo que me resta nessa curta e insignificante passagem pela vida, preciso escolher quem caminha ao meu lado. E, sobretudo, com quem, e com o quê, ainda desejo construir.

O futuro já não é uma promessa distante. É uma decisão diária, feita no passado de hoje para viver o amanhã.

Choices. Choices.