Serie 50 | Capitulo 18 – O preço da lucidez

Ja ouvi muito de algumas pessoas, à época adultos, que se pudessem voltar no tempo gostariam de ser mais jovens com a cabeça de hoje.

Existe uma falsa sensação de lucidez, geralmente atribuída a quem consegue expressar com clareza suas ideias, como se isso fosse suficiente para lhes atribuir noção de boa compreensão do presente.

Nem tudo é perfeito.

Ainda que discorde em parte dessa premissa, porque conheço muita gente articulada que não compreende bem o que esta a sua frente, a consequência da lucidez não é explorada.

Porque?

A lucidez afasta as pessoas.

Ver demais não agrega, pelo contrário, separa. Quem muito bem vê e consegue enxergar com a lente limpa não consegue ter muitos amigos ao redor.

Pato que mergulha raso não se da com o que mergulha fundo. Simples assim. Nem todos conseguem acompanhar a nossa evolução. Obvio, não temos o habito de descreve-la a quem esta perta.

Resta somente a interpretação dos fragmentos.

A imagem que a lucidez passa é de menos excesso, menos erro. Concordo.

A partir do momento que consigo interagir lúcido, ja me antecipo a determinados movimentos quando percebo determinado padrão.

Isso não vem de graça.

É preciso ter coragem para enfrentar as questões diárias, disciplina para tomar decisão que não é fácil e firmeza para sustentar o limite e a consequência das escolhas.

Por isso a lucidez afasta. Nem todos acompanham nem todos conseguem enxergar. Isso acaba gerando uma solidão seletiva porque não temos paciência para sujar a lente e viver a imagem do passado.

Afinal perder a ilusão daquele tempo dói. Não seria lúcido voltar ao sentimento pela falta de companhia.

Por isso digo que viver é violento e crescer não é fácil, a vida cobra um preço.

Serie 50 | Capitulo 17 – O que eu não negocio mais.

Muito recentemente minha vida tomou uma mudança súbita de direção. Meses depois percebi a serie de elos quebrados, que juntos formaram o enredo para tomada da decisão.

Se uma coisa aprendi com o meu pai que é cirurgião foi tomar decisão. Assim é que de certa forma me destaco na advocacia, por decidir melhor ou pior as questões e ter capacidade de reavaliar.

Não foram os elos culpados. Claro que não. A decisão tomei após observar um conjunto de atitudes que retiraram a minha paz.

Foi um conjunto de atitudes, gritos, reclamações, afirmações e ações cujo enredo, pelo que ja escrevi ate agora na reflexão dos cinquenta anos, pouco a pouco sinalizou que eu deveria me afastar, privilegiar a paz, ter confiança no escolher, sobretudo recusar.

Ao privilegiar a paz enterrei tudo que não deu certo.

Passei a negociar apenas o essencial.

Isso incluiu algo que antes parecia impossível. Abrir mão de discutir tudo. Sair em silencio. Atitude bem diferente daquele Pedro de anos atrás.

Evolui.

Pelas reflexões que começaram antes dos cinquenta anos percebi momentos da vida que me fizeram evoluir em questões relacionadas a temas importantes de minha vida, como escolha, limite, relações, silencio, desapego e o que fica.

O que fiz ano passado?

Observei os sinais e parei de reagir a tudo. Isso não significa não negocie. Aprendi a respeitar meus limites.

Apenas, não negocio mais a paz.

Serie 50 | Capitulo 8 – O Espaço Que Ocupo.

Percebo algo comum de muitos ao perguntar sobre a minha história: porque demorei tanto a entender e assumir a natureza afetiva que tenho?

Hoje percebo que veio do fato que passei a vida inteira tentando caber.

Queria muito suprir as expectativas depositadas em mim. Obviamente não deu certo, e cansei.

A dificuldade que tive de me entender, portanto conviver e socializar na infância, me tornou adaptável ao ambiente. Adaptar não é uma virtude. Não há mérito nisso.

Hoje percebo que o adaptado nunca sera um profissional pleno, marido presente ou homem forte que resolve as questões do dia-dia. Essa flexibilidade não gera maturidade. Nem o silencio sobre mim foi elegante.

Essa virada de chave dos 50 anos me fez refletir que o importante mesmo é ser quem eu sou, ocupando o próprio espaço sem pedir desculpas.

Isto, ao contrário do que no passado pensei, não é ser arrogante. É presença.

O que aprendi depois de muita dor e do peso que as circunstâncias recaiam sobre mim, é que eu me diminuí, me menosprezei para manter o equilíbrio de situações e problemas que… não eram meus.

Quero viver, se assim Deus permitir, o espaço que ocupo.

Ou seja, não quero ser entendido a força, nem falar ou convencer quem ja decidiu a não escutar. Cada um é o senhor do seu destino. Também não vou disputar espaços que exigem energia demais para pouco sentido. Se você quiser por favor passe a frente e bom caminho.

Hoje, no espaço que ocupo, escolho onde sento, onde falo, onde invisto tempo, com quem falo e também onde me silencio.

São decisões reais provenientes de um alinhamento interno. A presença surge sem ser anunciada, competência, aparece sem ser proclamada. Simplesmente sou, dentro do meu quadrado, percebido.

Saber quem sou, e principalmente quem não mais sou, trouxe uma calma incrível. To be, or not to be, that is the question.

Aquela ideia conquista que no passado que significava mais trabalho, mais responsabilidade, mais compromisso hoje não é vista da mesma forma.

Ouso dizer. Me parece meio raso.

Hoje, aos 50 ocupo meu espaço sem tirar o de ninguém. Pelo contrário, crio relações honestas simplesmente porque não quero mais caber.

Quero viver e ocupar meu espaço sem imposição, sem medo e se possível, sem excessos.

Com postura.

E sigo!

Com sono, barba e cabelinho cacatua.