Comer não é apenas um ato biológico.
É também um gesto existencial.
Come-se por fome, é verdade.
Mas come-se igualmente por sede — não apenas de água, mas também de sentido.
Come-se quando falta o sabor da comida.
Come-se quando sobra o vazio que ela tenta preencher.
Come-se para ocupar a mesa.
Come-se, muitas vezes, para evitar encarar o que ficou fora dela.
Come-se para acompanhar,
Come-se para não estar só,
Come-se para fazer o tempo passar mais rápido
Come-se quando ele pesa demais.
Come-se para celebrar a vida
Come-se para sobreviver a ela.
Come-se para afogar mágoas,
Come-se para enterrar fases,
Come-se para inaugurar outras — como se fosse um rito de passagem.
Come-se quando se está feliz.
Come-se quando a tristeza pede anestesia.
Come-se por hábito,
Come-se por obediência,
Come-se porque alguém manda,
Come-se para existir,
e, talvez, para aprender — ainda que mal — a lidar com aquilo que não se resolve.
O problema é que o comer não conhece limite.
Quanto mais se come, mais se é comido.
O desejo cresce na mesma proporção da tentativa de saciá-lo.
Não há freio natural,
não há ponto final,
não há saciedade definitiva.
Por isso, comer pode deixar de ser necessidade,
e se tornar vício!
Não pelo alimento em si,
Mas pelo que ele silencia.
Daí porque sigo comendo, e fazendo exercício, todos os dias!
Pronto, falei.
