Serie 50 | Capitulo a parte…

Há muito tempo percebi o aumento da violência na cidade. Se alguém ainda tem duvida, basta acordar e ligar o RJTV.

Na falta de notícia, o telejornal virou boletim de trânsito e policial. Quando muito, sobram os serviços da prefeitura que por óbvio não funcionam e do Estado, que parece existir mais como ideia de democracia do que como realidade concreta na vida de qualquer cidadão brasileiro.

Curioso é que saber do trânsito importa a quem está nele, não a quem está em casa. A informação que, por lógica pertencia ao rádio, hoje foi apropriada pelo telejornal. Melhor falar muito sobre nada do que não ter o que noticiar. E ali, entre uma ocorrência e outra, os comentários se misturam com uma leveza deslocada da gravidade do que se anuncia que vai a tragédia quando resolvem dar sua opinião pessoal.

Voltando ao Big Brother Brasil 26, assisti desde o início uma tentativa de crime contra mulher algo que o jornal noticia materializado todos os dias. Não é ficção. É espelho.

Houve disputa eivada de trapaça na corrida por um telefone. E sejamos francos: não há nada mais humano do que competir mal. Basta assistir a uma partida de futebol qualquer. Todo dia alguém empurra, simula dor, faz fita para ganhar vantagem. A diferença é que, hoje, qualquer empurrão ganha proporção moral absoluta. La no jogo é competência, so que não.

O problema não está na disputa. Está na incapacidade de conter o excesso. Na impunidade sobretudo falta de educação que propicia consideravelmente o aumento dele.

O bicho pega quando olho para o lado e vejo mulher agredindo mulher. Patético. Incrédulo. Triste. As ofensas não param por aí. Na violência cotidiana, que todo mundo diz repudiar, não é novidade ver alguém perder a cabeça numa discussão acalorada.

O álibi é sempre o mesmo:

“Você não me conhece.”

“Você não sabe de onde eu vim.”

“Você não sabe da minha história.”

Particularmente, não sei mesmo. E depois do que assisti, confesso, não me interessa como justificativa. História explica. Não absolve!!

Essa depressão coletiva que se tornou a existência de qualquer brasileiro surfando discursos prontos de vida e de classe só interessa à televisão quando vira comoção. Quando dá audiência. Quando cabe na narrativa. E também ao governo que se empenha ao máximo fazer politica publica de patrocínio a igualdade para se esquivar do básico.

Infelizmente é nesse ponto que estou. E o BBB não é muito diferente do dia a dia de muitos.

Ah, e teve um que passou mal. O serviço médico não funcionou. Ele passou mal de novo. Melhor tirar. Essa realidade de hoje não comporta quem atrapalha o ritmo do espetáculo.

É duro escrever isso aos cinquenta.

Porque aos cinquenta eu aprendi que maturidade não é suportar tudo. É escolher o que não se tolera. É entender que limite não é frieza é proteção.

Talvez o que mais me incomode não seja o empurrão, nem o grito, nem a expulsão. É a naturalidade. É perceber que não houve surpresa genuína. Apenas torcida organizada, análise de narrativa e posicionamento estratégico.

O reality passa, a irritação fica.

E se não aprendermos a diferenciar disputa de agressão, história de justificativa e dor de licença para ferir, vamos continuar vivendo como se o país inteiro fosse uma casa vigiada por câmeras onde gritar dá mais resultado que argumentar.

Aos cinquenta, percebo que o verdadeiro luxo não é vencer a discussão. É não precisar entrar nela.

É sobre isso…

O BBB real que voce vive e não vê.

Parece, nesta segunda-feira passada, que não existe assunto em maior evidencia do que a saída do jogador Pedro do BBB. So depois de analisar os videos e ler alguns comentários é que percebi, a saída dele não me parece muito diferente da cultura e dos costumes impostos aos cariocas e a todos que por exemplo passam na Cidade do Rio de Janeiro.

A leitura diária das notícias confirma isso com uma clareza quase constrangedora e expõe a inconsistência da moral e dos bons costumes tão defendida nas falas e discursos, inexistente no dia-dia.

Não é de hoje que chamo atenção ao novo normal que se tornou a inserção de textos erotizado na vitrine do dia como faz o UOL por exemplo. O GLOBO repete o mesmo padrão de forma mais discreta, na segunda-feira passada revelou a existência de uma plataforma que reúne adeptos ao sexo liberal e conteúdo adulto no Rio de Janeiro.

Confesso que fiquei pasmo, ainda que seja impossível conter a demência de muitos que estão aí no mundo, existem 442 locais apontados como pontos para a prática de sexo público e com desconhecidos.

Não estou diante de algo excepcional. Pelo contrário. Essa prática ja esta organizada, mapeada e amplamente conhecida por quem esse meio frequenta e se expande pela normalização da situação amplamente divulgada como se fosse convite a adesão de novas pessoas.

Sera que as delegacias especializadas para defender mulheres, gays e outros grupos de pessoas vulneráveis vão se manifestar com o mesmo afinco como fizeram em relação aos atos praticados dentro do BBB? Ou, a resposta institucional será seletiva, dependendo da visibilidade, do constrangimento publico que o tema pode potencialmente causar?

Voltando ao BBB, me causou certa estranheza para dizer o mínimo, que o programa ao vivo, com monitoramento integral, em tempo real, levou mais de uma hora para fazer um pronunciamento oficial. O alerta dado pelo Tadeu Schmidt, afirmando que o participante teria sido expulso caso não tivesse apertado o botão, levanta uma questão objetiva para quem opera o direito.

Qual é o tempo que um crime tentado admite para ser tipificado?

Considerando que no direito penal, tentativa não depende de consumação nem de arrependimento posterior, a conduta da pessoa é avaliada desde o momento em que ela se manifesta. O crime de tentativa não absolve o quase. A hesitação não apaga o risco e a demora não transforma o fato menos grave.

Isso é o que fez, e ainda faz, muitos levantar a voz para criticar e reviver a ditadura como se estivesse acontecendo até hoje, no entanto, o que se viu no BBB parece ter sido a benevolência através da qual o interesse privado se sobrepõe ao publico.

Essa postura é tão ineficiente quanto a demora crônica da Justiça brasileira.

Ilustra o quanto muitos, até o dia de hoje, são iludidos pela narrativa de que esta tudo bem no Brasil. O Rio esta bombando. A mais famosa festa de de final do mundo foi palco do maior furto de cabo de luz do mundo, quem diria, copacabana e leme amanheceram sem luz.

Comum a tudo o que vivo é a percepção essa realidade existe por conta da evidente falta de instrução e educação ao povo. A isso soma-se a impunidade que permite aos mal educados afrontar a lei sem medo da consequência de seus atos.

Quando a justiça demora, relativiza ou negocia suas decisões, algumas impulsionadas mais pela imprensa do que pela regra, isso é péssimo. Resta a percepção comum do que é injusto.

Foi justamente a impressão que tive e mantenho no episódio do BBB. Ja é sabido que os participantes da casa são várias vezes chamados atenção a questões cujo audio não é perceptível a quem esta do outro lado da TV.

A rápida edição de imagem na convulsão de um participante existiu. Porém na questão do agressor não. O que ficou parece foi a tentativa de preservar o programa, em claro ato de contenção de danos ao invés de enfrentar o problema.

A ideia que o Pedro teria apertado o botão espontaneamente e sem pressão, renunciando ao premio de cinco milhões pelo despertar súbito de sua consciência me parece impossível. Eu e muitos não compram isso.

Pois é, ao que parece, a situação do BBB é mais corriqueira na realidade de muitos do que se imagina, e principalmente se defende na moral e bons costumes. O discurso pelo certo, sério, moral e justo se tornou em uma narrativa do projeto de sociedade e vida que o poder publico ha anos, independente do partido governante, pretende emplacar.

Não podemos nos acostumar com essas contradições profundas e achar isso normal.

Dai porque percebi que esse BBB diz muito sobre o que somos enquanto sociedade e do que vimos e fazemos para a coletividade.