Serie 50 | Capitulo 3 – Amadurecer é escolher com coragem.

Depois de muito refletir sobre a questão do tempo aos 50, concluí que a vida deixa de pedir pressa. Quem pediu e errou fui eu.

O que o viver pede, é clareza.

Termo simples de compreender, mas de descrição complexa. Algo que só fui alcançar depois de algum tempo.

Por que demorei? Onde errei?

Sabotei a mim mesmo ao confundir amadurecer com suportar. Achei que crescer era aguentar mais, ceder mais, criar mais, explicar mais, movimentar mais, enfim, ir levando.

Hoje percebo que não.

Amadurecer é diminuir. É entender que menos é mais. Diminuir o ruído, as expectativas, as concessões. Aliviar o peso desnecessário.

O tempo não ficou mais curto. Ele apenas ficou mais valioso. O que mudou foram as… escolhas!!!

Em uma retrospectiva breve e apertada da minha vida, percebo que algumas escolhas fiz cedo demais, por medo. Outras, tarde demais, por hábito. Só depois de muita terapia consegui olhar para esse campo das escolhas sem me maltratar, sem fazer de mim mesmo o alvo do erro. Ainda sinto o peso delas ao amanhecer.

No período que antecedeu os 50, algo mudou silenciosamente: passei a escolher não para agradar, não para provar, mas para preservar. Preservar a energia, coerência, paz. Talvez por isso tenha conseguido construir tantos vínculos pessoais e profissionais verdadeiros e que mantenho ate hoje.

Escolher, aos 50, também é aprender a renunciar sem culpa. É dar às pessoas aquilo que desejaram para si e, ainda assim, permanecer ao lado delas depois e sem julgamento.

A vida, através das escolhas, aproxima, e também afasta.

Renunciar a relações que só existiam pela memória foi necessário para, à distância, manter a serenidade.

Cheguei aos 50 renunciando. Renunciando a papéis que visto bem, mas que deixaram de me representar, por fazerem parte de enredos que, por algum tempo, me sabotaram.

Duro? Sim.

Honesto também.

Descobri que dizer “não” não fecha porta, organiza o caminho. Aprendi que limites não afastam quem importa. E que permanecer onde não há reciprocidade cobra um preço alto demais, quase sempre pago em incompreensão, raiva e silêncio e ingratidão.

Aos 50, escolhi estar inteiro onde estou, com tudo ou nada, e também ausente onde já não faz sentido permanecer.

Talvez essa seja a maior mudança: entender que escolher a mim mesmo não é egoísmo, é responsabilidade.

Com o tempo que me resta nessa curta e insignificante passagem pela vida, preciso escolher quem caminha ao meu lado. E, sobretudo, com quem, e com o quê, ainda desejo construir.

O futuro já não é uma promessa distante. É uma decisão diária, feita no passado de hoje para viver o amanhã.

Choices. Choices.

Serie 50 | O inferno astral como rito de passagem

Sempre ouvi dizer que todos os anos atravessamos o chamado inferno astral. Para quem acredita, é o período de fechamento de ciclo, de cansaço, de revisão, e no meu caso, de julgamento e cobrança, por vezes duras no entanto necessárias para manter a lente do óculos limpa.

Ainda que voce não acredite, creio ser difícil negar que nos dias que antecedem o aniversario algo sempre se move de maneira amplificada – por dentro e por fora.

Esse ano tem sido diferente.

Talvez porque não seja apenas mais um aniversário. Talvez porque os 50 anos não permitem erros e distrações. Essa idade chega exigindo algo para muitos custoso que é a verdade.

O inferno astral desse ano coincidiu com muitas mudanças. Um vazio inesperado na rotina de forum, cuja infinidade de prazos exigiam organização diária e que agora esta silencioso. A percepção de ajuste nas relações pessoais – amigos que se afastam, outros que revelam limites e principalmente vínculos familiares ja transformados que se consolidam.

Nada exatamente trágico, mas tudo suficientemente intenso para desestabilizar quem despreparado esta.

Ainda que tenha vivido esse cenário de perdas simbólicas e ajustes forçados, houve algo que não apenas resistiu como também floresceu. O meu amor pelo Paulo.

Isso não é pouco – especialmente porque começamos o ano com a noticia dura da passagem de sua mãe, situação que poderia ensejar o recolhimento do amor e endurecimento do coração. Mas aconteceu o oposto.

O cuidado entre nós cresceu. A presença se aprofundou. O nosso relacionamento se revelou mais sólido no que serão esses cinco anos do que qualquer previsão, de modo que conseguimos com a permissão de Deus acordar todos os dias e viver uma surpresa, ao mesmo tempo, um desafio.

Diria que esse também é o ensinamento que os 50 anos me dão logo de saída. Nem todo vazio é ausência, nem toda dor é perda, nem toda fase difícil é destruição. São apenas transições necessárias, ainda que desconfortáveis.

Se isso for inferno astral, que seja! mas que seja também o lugar onde se aprende o que fica – e o que definitivamente pode ir.

Sigo feliz, ainda que no inferno astral. Não há mal que resista o bem que o Pará e o paraense me traz.

Dois homens sorrindo juntos em frente a um corpo d'água, com um cais e palmeiras ao fundo.

O Carro que Me Encontrou

Há carros que a gente compra.

E há carros que a gente encontra, como se eles já estivessem à nossa espera.

Essa é a história por trás do meu carro.

O meu Mercedes E320 W124 — azul por fora e azul por dentro — não é apenas um veículo.

É uma companhia silenciosa daquelas que não exigem nada, apenas repartem a estrada.

Não é um carro que se apresente.

Ele simplesmente é.

Existe algo quase afetivo na forma como o painel azul reflete a luz da manhã.

No interior azul toque do couro — marcado pelo tempo, mas não cansado.

No ronco baixo e contínuo do motor, que parece respirar junto comigo.

É difícil explicar para quem nunca dirigiu um carro que não é jovem — mas também não envelhece. É confortável, previsível e dinâmico.

Eu só sei dizer uma coisa: é o melhor carro que já tive.

Fato: esse carro não envelhece.

Ele amadurece.

Dirigi-lo é lembrar que há valor no contínuo, no sólido, no tranquilo.

Que existe beleza em não ter pressa.

E, se houver, há motor para chegar — com dignidade.

Esse carro me ensinou que presença não precisa de barulho.

Vivemos cercados de carros rápidos (quase liquidificadores), telas enormes, assistentes automáticos — e, curiosamente, nunca fomos tão distraídos.

E os carros, tão mal construídos!

Esse Mercedes vai na direção contrária.

Ele devolve o volante às mãos.

Devolve o tempo real ao motorista.

Devolve o momento presente.

É um carro que exige respeito, mas não arrogância.

Que entrega conforto, mas não ostentação.

Que foi construído quando o aço ainda era aço — e quando a Mercedes-Benz não competia com ninguém, a não ser consigo mesma.

Quando o preço não determinava o carro — a engenharia determinava.

Talvez eu não saiba explicar tecnicamente o que sinto quando dirijo.

Mas eu sei como me sinto: bem. Muito bem.

Com ele, não há buraco na rua.

Todos os dias são azuis.

Passei a reconhecer quando algo faz sentido na vida.

E esse carro faz.

Sou, de verdade, feliz com ele.

Não pretendo trocá-lo.

E acho que, de algum modo sutil, ele também está feliz comigo — com os consertos, com o cuidado, com a atenção.

O mundo moderno revela dois tipos de pessoas:

quem dirige um carro; e quem convive com o carro.

São coisas muito diferentes.

Esse clássico tem presença sem grito, engenharia sem arrogância, força sem pressa, anda calmo, mas não é lento, elegante sem precisar aparecer.

Tudo o que eu também desejo a todos vocês.

Curiosamente, é o preferido do Nino.

Tal pai, tal filho pet.

O Fim do Degelo: Reflexões às Vésperas dos Cinquenta

Parece que foi ontem que iniciei o ano me perguntando como ele iria transcorrer. Acredito que não sou o único a pedir e estabelecer metas pessoais e profissionais.

De todas as que fiz, hoje olho à minha volta e percebo que vivo a mais improvável delas. Graças a Deus.

Depois da crise dos quarenta, entrei no retrospecto dos cinquenta.

Percebi que, em poucos meses, essa idade vai chegar. Jamais poderia imaginar que a proximidade desse aniversário causaria tamanha revolução e reorganização interna.

Ajuda o fato de que, no campo profissional, apesar da demora na solução de algumas questões que venho buscando resolver há anos, os resultados estão chegando.

Faço parte e/ou sou a ponte para a solução, porque vivo diariamente os problemas dos outros. E não esqueço — nem das pessoas, nem das circunstâncias.

Esse tipo de profissional que me tornei foi construído ao longo dos anos, nos embates diários de situações e pessoas, moldado pela educação, assertividade, caráter e transparência. Isso ilustra bem uma frase que costumo dizer: “quem puxa os seus não degenera, herda.”

Amém!

Não tenho motivo, nem tive educação ou instrução para agir de forma contrária. Se hoje estou vivendo em altitude e velocidade de cruzeiro, apesar das turbulências, foi porque planejei, busquei e Deus, no comando, me capacitou para ser assim.

A revolução veio no campo pessoal.

Recentemente, falei ao Paulo que, antes de conhecê-lo pessoalmente, escutei sua voz. Através dela, conheci seu coração. A partir disso, a questão não era se eu ficaria com ele até o fim da vida, e sim se ele me aceitaria para ser dele pelo resto das nossas vidas.

Foi assim que entrei na vida dele. Ainda que com traumas, defeitos e um coração duro, construímos uma relação que torna os mais de vinte anos de distância em zero e aprendemos a viver o hoje.

Obrigado, Deus, Tu és bom o tempo todo. Conheces bem o coração das pessoas e não as julgas pelo que fazem, mas pelo que são.

Até mesmo quando me afastei da igreja ao me entender gay, voce me acolheu. E aqui estão inúmeras passagens que considero milagres, vividos o qual sou testemunha.

Não há um dia em que não me lembre de suas palavras quando estive internado e curado, como bem disse um emissário no corredor do hospital. Seja lá ou até mesmo num exame complexo laboratorial.

Quatro anos atrás, Ele operou outro milagre grandioso:

Me trouxe o Paulo. Aquele coração frio e duro, anos depois, começou a amolecer.

Junto com ele, algumas das emoções reprimidas voltaram. Algumas com lágrimas de alegria, outras de superação. Também chorei angústias, dores e frustrações nos momentos mais improváveis do dia.

Se hoje consigo acordar e olhar para a vida com amor e felicidade, reconhecer logo cedo a importância de rezar e agradecer por despertar, abraçar o maridão, escutar música e ter uma vida com ele, foi porque aprendi — e a vida me ensinou — a reconhecer esses momentos, como descrevi no texto “At times life is pure joy.”

Para os que não me conhecem pessoalmente, pode parecer que vivo para enfatizar a alegria e a felicidade o tempo todo. Acredito que, com o passar do tempo, as experiências relatadas revelam que ambas são reconhecidas em situações do dia a dia, ainda que permeadas por outras questões.

Como, por exemplo, dizer não. Não há contexto em que o estabelecimento de limites e um “não” sejam alegres.

Em “Livrai-me de todo o mal” retrato a felicidade por ter mais um ano com meus pais. Que presente esse dado por Deus: deu vida longa à minha família. Nesse contexto, sou de corpo e alma grato por viver esse momento.

Isso, assim como o desejável dia previsível e tipicamente normal, me dá uma sensação de pertencimento.

Voltando ao início do ano, o que mais? Esses sentimentos vêm sendo amplificados ao longo dos dias e semanas. Causaram suposto descontrole das emoções e, por elas, lágrimas caem como a chuva aparece todos os dias no Pará.

Coração conquistado, vida em ritmo de construção normal, tenho me dedicado à nossa família. Através de situações difíceis, aprendi a dar valor a todos os que estão presentes.

Olho para trás com felicidade, por que não?, ao ver que construímos nosso amor em um ecossistema de vida, trabalho, família e amigos por perto.

Isso aquece meu coração, que acorda e bate insistentemente forte, como a boca que treme, treme, treme ao comer a folha de jambu.

Fiz planos para tudo, menos para o aquecimento do coração. Esse veio como uma dança, um sorriso, um beijo, pela família, pelos amigos, veio com tudo o que é bom, ainda que por trás de desafios.

Posso hoje perceber, meses antes dos cinquenta, que o fim do degelo está próximo!

E os cinquenta vão chegar comigo em paz com a família, o trabalho e o passado.