Tenho uma lembrança nítida da infância, logo depois de nos mudarmos para Chicago. Meu irmão havia aderido a um clube de CDs: todo mês chegavam discos pelo correio. Que ideia genial — ele pagava, recebia em casa e, se não gostasse, podia devolver. Simples assim.
Naquele tempo, o conceito de assinatura na minha vida ainda estava associado à locadora de vídeo. A posse era temporária, mas por alguns dias aquele filme era meu, mesmo que emprestado. Era uma relação clara: uso, devolvo, fim.
O tempo passou. Não sei dizer exatamente quando surgiu a assinatura do Microsoft Office, mas lembro da empolgação: pagar um valor pequeno todo mês para sempre ter a versão mais recente. Que avanço, pensei. E, de repente, o mundo inteiro embarcou nessa lógica. Veio a assinatura da música, da nuvem, dos videogames… e o serviço online de tudo explodiu.
No início, a lógica parecia justa: muito por pouco. Mas a realidade atual é bem diferente daquela que nos foi vendida lá atrás — e nos assalta todos os dias.
Os serviços por assinatura seguiram o mesmo modelo enganoso que já conhecíamos das impressoras e, mais tarde, das cápsulas de café.
Menos passou a ser mais — mais caro, mais limitado, mais condicionado.
Lembro com clareza da minha primeira impressora, uma HP Deskjet 820cxi. O cartucho de tinta vinha com 42 mililitros. Hoje, em alguns modelos, mal chega a 8ml — e ninguém fala sobre isso. E o preço? Subiu. Muito. Silêncio geral.
A mesma estratégia foi usada pela Nespresso. No começo, você comprava cápsulas e ganhava a máquina. Hoje, a equação se inverteu: paga-se caro pela máquina e entra-se, sem perceber, no “clube do café”.
E nem adianta reclamar. Porque sempre pode piorar. Com a pandemia, os serviços de assinatura se multiplicaram: Zoom, plataformas de aprendizado, aplicativos de treino. A assinatura deixou de ser exceção para virar regra.
Foi aí que surgiu a assinaturite — essa doença moderna que adoece o bolso e o juízo. Ela vem disfarçada de comodidade, mas é pura exaustão. Hoje, mesmo quem adere ao modelo “pay as you go” percebe que já nasce caro. Se fosse pensado para uso em massa, custaria bem menos.
Lembra dos CDs? No fim da linha, vendiam por R$ 9,90 — ou menos — até sumirem das lojas. Quem pagou R$ 30, R$ 50, R$ 100 antes disso, pagou mal? Ou pagou justo porque foi só uma vez?
Hoje, não há nada de “premium” nos serviços por assinatura. Essa palavra existe por um único motivo: nos enganar.
As montadoras já sabiam disso. Lembra do Gol Power? Tinha força só no nome.
As big techs fazem o mesmo — Netflix, Disney+, Spotify, Microsoft, Google… nos cobram diariamente para não nos darem quase nada. A pior de todas? O Google, que cobra para você não ver anúncios. A paz agora tem preço.
Recentemente, doente, recebi do meu personal trainer um link com o treino num app. Imagine: ele vinha com anúncios! E, claro, precisava pagar para tirá-los. O que fiz? Deletei na hora. Avisei: melhor procurar outro.
Cansei. Cansei de ser assaltado por serviços digitais.
É só isso.
Não tem mais jeito.
Acabou. Boa sorte.
Não tenho mais o que dizer.
São só palavras.
E o que eu sinto… não mudará.
(Vanessa da Mata, obrigada por resumir o que todos queremos gritar.)
Essa doença felizmente tem cura, basta cancelar ou não assinar. Vamos começar?
