O Salão do Automóvel, os Plásticos Vibrantes e a Decadência da Indústria

Não é de hoje que venho criticando a baixa qualidade das matérias das revistas especializadas em automóveis.

A geração que me antecedeu — aquela que sabia distinguir um bom carro de um amontoado de plástico bem-acabado — foi substituída por outra que parece não ter aprendido absolutamente nada.

Pior: perdeu as referências.

A prova? A notícia do retorno do Salão do Automóvel em São Paulo, agora dominado por marcas predominantemente chinesas, é tratada como um triunfo editorial.

Na falta de conteúdo denso, técnico e de qualidade, o jeito é noticiar como grande marco justamente aquilo que escancara a decadência do setor: a ocupação do espaço por quem oferece carros cujos trincos plásticos vibram nos buracos — mas “compensa” com um pedaço de plástico macio no painel.

É esse o novo parâmetro de excelência. Vale o bonito, o iluminado, o disponível.

E sobram absurdos. As revistas listam “14 marcas diferentes” de um mesmo conglomerado como se fossem independentes — no tempo em que montadora era montadora, e não colagem de logotipos.

Infelizmente, o Brasil ajudou a chegar aqui.

Por escolha política, abrimos as portas para montar, não fabricar, carros chineses. E agora celebramos como visionários justamente os grupos que estão comprando robôs humanoides — como se fossem gerar empregos por aqui.

Acorda: nem no país deles vão.

Outro dia li que determinado modelo “evoluiu” ao adotar lanternas traseiras independentes, sem a faixa de LED.

E quem disse que barra de led é bom? Que é eficiente? Que é bonito? Desde quando trocar uma luz de freio decente por três micro LEDs virou avanço? Há casos piores: carros cuja seta é um LED… torto.

Mas é tudo para chamar atenção. Assim como tirar todos os botões e obrigar o motorista a desviar o olhar para o tal “minimalismo” da tela. Depois vende um sistema que detecta o olhar para o lado e pede atenção. Deveria ser um crime hein?

Tudo pode sempre piorar: muitos nem acendem luz de freio durante a regeneração. Aí o sujeito empata trânsito, desacelera sem aviso e quase causa um acidente — mas não reclame. Ele está dirigindo “o futuro”.

Enquanto isso, seguimos vendo lanternas toscas, carros que parecem confortáveis mas te deixam com a cintura abaixo do joelho, assoalho alto, cabine apertada… grandes por fora, pequenos por dentro.

Mas tudo faz 0–100 em 2, 3, 4 ou 5 segundos. E isso basta para o marketing e para os desafortunados que não tem condições de comprar algo melhor. Culpado é o custo Brasil.

O resto — ergonomia, segurança real, durabilidade, engenharia — virou irrelevante. Ninguém compra carro para bater, então porque se preocupar.

Lanternas separadas na traseira… francamente!!!!

Reclame Aqui e a Medalha do Nada

Não é de hoje que somos movidos pelo poder da persuasão.

Quando se compreendem os mecanismos de gatilho, cria-se um sistema onde pessoas e instituições lucram ao nos oferecer a sensação de recompensa, e não a recompensa em si.

É mais ou menos assim que vivemos no Brasil:

Na Black Friday, anunciam um “desconto” maior do que o preço normal do mês anterior — e ainda fazemos festa achando que estamos levando vantagem.

Já aconteceu com você? Provavelmente, sim.

Isso não é novidade.

Da mesma forma que o escoteiro trabalha de graça esperando uma gratificação;

que aquele que bate à sua porta “em nome de Deus” oferece paz, benção e oração, para depois sugerir uma contribuição “compatível com a sua condição”;

ou mesmo o hippie da rosa — você recebe a rosa, e de repente se sente moralmente obrigado a pagar.

A psicologia da reciprocidade é antiga.

É simples. Funciona. E hoje é explorada à exaustão.

É justamente isso que está acontecendo no Prêmio Reclame Aqui. Já ouviu falar?

O prêmio se apresenta como reconhecimento de excelência.

Mas, na prática, é gamificação de engajamento:

Vote em dezenas de categorias — mesmo que você não conheça as empresas, mesmo que em algumas só exista um único candidato — e no final você ganha… uma medalha virtual.

Recompensando o vazio pelo nada.

Ou seja:

“Escolha o vencedor, não precisa saber quem é, clique, sinta-se eleitor… e ao final te dou uma medalha para você achar que participou de algo importante.”

Isso não é prêmio.

Não é reconhecimento.

Não é reputação.

Isto é uma vergonha.

E, num olhar mais atento, é difícil não perceber a engenharia por trás:

Empresas supostamente combinadas, categorias inventadas, subcategorias criadas para que todos possam concorrer — ou ao menos parecer que concorrem — e vencer alguma coisa.

É o famoso:

“Vamos participar da premiação do nada? Juntamos umas desconhecidas com outras, e deixamos o público decidir pelo cansaço. Quem sobreviver ao clica-clica leva.”

Nada é impossível.

Nesse país, até a bala mágica teria saído do JFK e desembarcado num acordo anticorrupção.

Segue o baile.