A que ponto chegamos?

É difícil interpretar o atual momento político brasileiro à distância, sobretudo quando as informações chegam filtradas por noticiários. Ainda que jamais saibamos ao certo os interesses e disputas reais por trás dos acontecimentos, é através dessas narrativas — parciais, editadas, às vezes mal estruturadas — que percebemos alguns movimentos preocupantes.

Na cobertura recente da GloboNews, por exemplo, chamou atenção a falta de rigor informativo. Uma repórter afirmou estar relatando os fatos com base em “alguém me disse”, e logo em seguida reconheceu não ter conhecimento suficiente para fazer uma avaliação política. Ainda assim, produziu uma narrativa embalada como opinião, mas apresentada com a autoridade de quem dita verdades. Esse tipo de conduta evidencia o colapso entre informação e propaganda — e empobrece o debate público.

Mas o problema não é só a imprensa. Se o governo brasileiro confia tanto na democracia que afirma defender, por que a estrutura do Estado age com tanto temor diante de ações supostamente articuladas por figuras sem poder institucional? E mais: por que a Justiça é tão célere e implacável para uns, enquanto outros esperam por anos uma resposta?

A seletividade da atuação institucional é visível. Em nome da soberania, persegue-se com agilidade quem é considerado adversário político, enquanto a população comum segue submetida à morosidade estrutural do Estado. Ainda que envolva um ex-presidente, tribunais e pressões internacionais, o verdadeiro sentido de soberania reside em planejamento, transparência, respeito ao devido processo legal — e isso, infelizmente, está em falta.

Hoje, o Supremo Tribunal Federal parece atuar como extensão do Executivo, adotando medidas que beiram o abuso e rasgam, na prática, os princípios constitucionais que deveria proteger. Cercear o direito de fala, de resposta, de ir e vir — tudo isso configura o esvaziamento do Estado de Direito. O que se vê não é justiça: é intimidação institucionalizada.

Recentemente, o país recebeu uma sinalização externa de preocupação — uma “carta” que, entre linhas diplomáticas, critica arbitrariedades jurídicas relacionadas ao ex-presidente. A reação do Judiciário foi ainda mais grave: restrições adicionais, mais silêncio, mais cancelamento. Bolsonaro, por mais controverso que seja, é hoje uma figura cancelada institucionalmente. E o Brasil, ironicamente, se esforça para materializar — e exportar — essa perseguição.

O mais preocupante é que essa lógica pode se voltar contra os próprios ministros. Se o sistema de compliance das instituições internacionais, que dependem financeiramente do Brasil, for levado a sério, os excessos praticados aqui terão consequências. Afinal, até que ponto a obediência ao “mando” de ministros se sobrepõe ao cumprimento das normas internacionais?

Vivemos um Brasil que ainda opera na lógica da força. Um país que impõe medo para garantir a vontade de poucos sobre a maioria. O mesmo país que a geração dos meus pais evita lembrar — e que agora volta a dar sinais de que nunca deixou de existir.

O tempo mostrará até onde isso será tolerado. E até quando será possível sustentar a democracia no grito.

Justiça encurralada, país a deriva.

Se há algo que o recente episódio envolvendo Bolsonaro escancarou, foi o funcionamento do Judiciário brasileiro: reativo, seletivo e, por vezes, espetaculoso. Uma fratura exposta.

A súbita operação de busca e apreensão, poucos dias antes do prazo para alegações finais em processo penal, levanta mais perguntas do que certezas.

Seria mesmo necessária à elucidação do caso dessa forma? Porque agiu so no fim? Ou uma resposta apressada a críticas vindas do exterior — mais precisamente de Donald Trump?

A justiça brasileira parece funcionar à base do constrangimento. Reage quando pressionada pela mídia, pela opinião pública ou por interesses que escapam ao rito técnico-processual.

Para o cidadão comum, essa seletividade salta aos olhos. Milhões esperam anos por decisões definitivas, enquanto outros, dependendo de sua posição política ou relevância midiática, têm seus casos movimentados em dias — ou horas.

A justiça que tarda pode falhar, mas a que se apressa para “dar satisfação” compromete sua credibilidade. E não adianta repetir o mimimi.

A mídia, por sua vez, tem contribuído pouco para a elevação do debate. Ao priorizar narrativas de fuga, especulações médicas ou análises emocionais, reforça a superficialidade e contribui para a desinformação. A lógica do clique sobrepõe-se ao interesse público. Tudo vira espetáculo. E o que era para ser um processo judicial técnico transforma-se em um roteiro de crise institucional.

Enquanto muitos em Brasília vivem em torno dos holofotes, o país real amarga as consequências. O cenário geopolítico se complica: com o risco de tarifações americanas e um Brasil cada vez mais isolado, a economia começa a sentir o peso das decisões políticas mal calibradas. Exportações em queda, empresas em alerta, empregos ameaçados. E não se trata de previsão catastrofista, mas de lógica econômica elementar — como logo revelará o CAGED.

O Brasil vive uma estranha inversão: o que deveria ser discreto, técnico e institucional — como decisões judiciais — torna-se espetáculo; enquanto aquilo que deveria ser prioridade — empregos, comércio, estabilidade — é tratado como pano de fundo.

Talvez o erro mais grave seja nosso hábito coletivo: esperar que o escândalo dite a pauta.

O povo se acostumou a ser plateia — e não cobrador — das prioridades nacionais.

Daí a inércia da justiça, a conivência da imprensa, o caos do Executivo. Seguimos olhando o carro passar, com a sensação de que ninguém está realmente no volante.

Jornalismo de gozo: o UOL atingiu o clímax da irrelevância ou transparência?

Não é de hoje que manifesto minha indignação com os excessos da pauta LGBT. No Brasil, há muito essa agenda deixou de ser centrada na defesa da dignidade e da liberdade de ser quem se é.

Com o passar dos anos — e pouco importa como começou —, percebi que muitos passaram a usar a bandeira da diversidade ou o pano de fundo da identidade de gênero para normalizar condutas que, se já existem, ao menos deveriam permanecer em privado.

Minha avó sempre dizia: “Costume de casa vai à praça”. Quando jovem, não entendi o real significado. O que a praça tinha a ver com isso? Hoje entendo: a vulgaridade doméstica, quando não é contida, vira espetáculo público. Ela, se viva, diria: “Eu te disse.”

Ontem, li uma matéria no UOL sobre um suposto “campeonato de gozo à distância”. Será possível? Qual a relevância disso na vida de alguém? O que isso contribui para o jornalismo, para o debate público, para a cultura?

Absolutamente nada. Nem se esforce.

Esse tipo de título não é só apelativo — é o retrato da baixa qualidade editorial, da irrelevância travestida de diversidade, da exploração vulgar da sexualidade como se isso fosse sinônimo de liberdade ou transgressão saudável.

O UOL, que deveria ser um meio respeitável, prefere chocar para gerar clique. É o algoritmo vencendo o bom senso e muita gente vendo isso como se fosse normal.

Não é.

Compreendo que o gozo sempre teve espaço na cultura brasileira. Nos anos 1970, Rita Lee cantava com sarcasmo: “Não quero luxo nem lixo, quero gozar no final” — subversiva, mas com arte.

Nos anos 1980, Alípio Martins embalava bailes com “Eu quero gozar a vida com você” — erotismo popular, mas com alegria ingênua.

Já em 2007, a então ministra Marta Suplicy, em meio ao caos aéreo, nos brindou com “Relaxa e goza” — deboche político disfarçado de leveza.

E hoje, o que temos?

Um “campeonato de gozo à distância” virando matéria de destaque num portal nacional. O gozo, antes símbolo de viver intensamente, virou grotesco performático.

E querem enfiar isso goela abaixo como expressão de diversidade?

Não aceito.

Não permito que um meio de comunicação me reduza à abrangência dessa pauta. Isso não é militância. Não é defesa de direitos, é desserviço à causa LGBT, usada aqui como biombo para legitimar o que, em qualquer sociedade madura, pertenceria ao espaço íntimo, e não à praça pública.

Não é de hoje que denuncio a irresponsabilidade editorial. Cada vez mais testemunho a captação de audiência por meio do constrangimento e do sensacionalismo. Depois, vão querer regular as big techs — mas pergunto: putaria sexual entra no debate ou só conteúdo político?

Fico indignado porque vejo um país que luta com desafios sociais, econômicos e culturais sendo distraído por manchetes que nada têm a oferecer além de ruído.

Falar de homens gozando em palco, em suposta suruba performática, é o tipo de conteúdo que deveria permanecer entre quatro paredes — não no UOL.

Minha avó tinha razão. O costume saiu de casa, foi à praça — e hoje é manchete.

Uma pena.