A normalização das relações “sugar” como sintoma ou reflexo de uma sociedade que perdeu a noção do que é futuro…

Ao que parece, a falta de conteúdo e de noção não se restringe mais às revistas automobilísticas — ela se alastrou pelos mais diversos meios de comunicação. Li, com profunda indignação, a coluna de Lu Lacerda na VEJA Rio, que sempre considerei parte de um grande grupo de comunicação do país.

Fiquei estarrecido com a forma pela qual ela decidiu tratar os relacionamentos “sugar” como se fossem uma tendência cultural carioca, e não um problema social grave — sintoma evidente de uma sociedade adoecida pela desigualdade. Nada nisso é normal, glamouroso ou digno de celebração.

A matéria não apenas descreve uma situação: ela molda referências, legitima escolhas e educa pelo torto.

Várias perguntas me ocorreram de imediato. O que a jornalista realmente sabe sobre o assunto? Há alguma semelhança com o estilo de vida que leva? Mera coincidência? Seria este o tema das mesas que frequenta? Isso representa, de fato, a chamada alta sociedade da Zona Sul?

E, em termos mais amplos: que Brasil — e que Rio de Janeiro — estamos exportando?

O país que deveríamos refletir ao mundo é o das pessoas que se aprimoram, estudam, constroem carreira, inovam e transformam. Não o de quem vê, na dependência afetivo-financeira, um estilo de vida — alguém que banca o jantar, a viagem, o aluguel e o look social, enquanto o “afeto” se converte em moeda de troca.

Para quem nasceu nos anos 70, isso tem nome e definição muito claros. Qualquer coincidência pode até ser coincidência. Ou não.

Como se não bastasse vivermos num Estado paternalista, deficitário, cujos programas de transferência de renda são ineficientes e, não raro, utilizados como ferramenta eleitoral, agora assistimos ao setor privado transformar a desigualdade em aspiracional, como se fosse parte do charme local.

O carioca não merece ser reduzido a esse estereótipo, ainda que travestido de romance.

Pergunto: desde quando sucesso é ser sustentado?

Quando uma jornalista legitima esse tipo de arranjo baseado no dinheiro, como algo normal, ela não narra uma tendência — ela consagra a desigualdade como vocação nacional. Eleva o atalho à categoria de plano de carreira com resultado econômico. Faltou-lhe senso de país. Faltou-lhe visão de futuro.

Não há como se orgulhar de uma matéria que exporta o jeito brasileiro de terceirizar a vida afetiva.

O Brasil merece mais que isso — e eu, como tantos cariocas que trabalham, estudam e constroem, mereço exemplos melhores e matérias com responsabilidade social mínima.

É frustrante ver uma coluna que poderia fomentar cultura, arte, inteligência, criação, inovação e sociedade optar por normalizar — e exportar — a economia afetiva como tendência.

Se isso for tendência, então a indignação não é apenas compreensível — ela é obrigatória!!

https://vejario.abril.com.br/coluna/lu-lacerda/carioca-quer-gentileza-sol-e-um-sugar-pra-chamar-de-seu/

#Indignação #Sociedade #CulturaCarioca #ResponsabilidadeSocial #VEJARio #LuLacerda #Sugar #IdentidadeNacional #BrasilQueQueremos #RioDeJaneiro #Comportamento #Desigualdade #EconomiaAfetiva

Um passo de cada vez

Vivo administrando decisões — quando não as minhas, as dos outros. Há um ponto em que isso cansa. Nem sempre estou disposto a explicá-las, muito menos a justificá-las.

Ao longo da vida, acumulei escolhas difíceis. Alguns chamam isso de experiência. Eu prefiro chamar de consequência.

Ainda assim, nenhuma decisão foi tão complexa quanto a de ser eu mesmo. Foi um caos libertador. Tomei essa decisão tarde — mas a verdade não tem prazo de validade. Fiz isso sem plateia, sem torcida e, sobretudo, sem garantias. E segui.

Quando finalmente olhei para dentro, encontrei ruínas. Descobri que parte do que eu acreditava ser solidez não passava de um castelo de areia. Precisei derrubá-lo para construir algo que resistisse ao vento, ao tempo e, principalmente, a mim.

Depois da primeira dificuldade veio a segunda — e, como sempre, todas as que a realidade reserva a quem escolhe não fingir. Cada uma com seu preço. E não é barato.

Mas aprendi o essencial: no fim do dia, posso perder tudo — menos a mim.

Isso não tem preço.

Entre o Silencio e a Luz

Há momentos em que a vida nos coloca diante de um vazio que a gente não sabe nomear.

Não é tristeza, não é medo, não é cansaço.

É apenas um silêncio profundo que toma conta por dentro — como se tudo ficasse suspenso.

Hoje acordei assim.

Com um aperto discreto na garganta e uma sensação de algo que precisa ser entendido, não evitado.

Não foi por coincidência que a leitura do Cafe com Deus Pai foi Mateus 6:22–23.

“Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; mas se forem maus, todo o teu corpo estará em trevas.”

É impressionante como esse texto ilumina o que muitas vezes confundimos.

Não fala dos olhos em si, mas do olhar — da direção para onde apontamos a alma.

Há circunstâncias que tentam nos puxar para o velho padrão:

– a reação impulsiva,

– a memória dolorosa,

– a dúvida,

– o medo de repetir o passado.

Mas a palavra de Mateus muda tudo.

Ela nos lembra que a luz e a escuridão não chegam de fora — começam dentro.

E, de repente, aquele vazio ganhou outro significado: ele não era ausência de Deus.

Era espaço.

Espaço para a reconstrução.

Espaço para reorganizar o olhar.

Espaço para deixar a luz entrar sem pressa.

A dificuldade, a inércia que às vezes sentimos não é sinal de fracasso. É apenas o resultado de experiências que ainda pesam.

Mas a direção — a direção verdadeira — continua lá.

Ela não se perde, só fica encoberta.

E é nessa hora que Mateus ensina: se o olhar apontar para o que é bom, mesmo no cansaço, a luz volta.

Se o olhar se fixa no que é mau — ressentimento, medo, culpa — a luz se apaga.

Hoje entendi que o meu trabalho é apenas ajustar o ângulo do olhar.

Continuo de pé.

Um pouco cansado, talvez.

Mas com a certeza de que Deus preenche o vazio com propósito, e que cada silêncio interior é o convite para um recomeço.

Que eu siga assim: enxergando o que é bom, caminhando com luz, e permitindo que Deus conduza, no tempo Dele, o próximo capítulo da minha vida.

Enquanto uns desfilam outros agradecem.

Antecipei a montagem da árvore lá em casa.

E confesso: acordar com a expectativa silenciosa do Natal — a celebração do nascimento de Jesus — muda tudo. Irradia bons pensamentos, organiza o espírito, suaviza as urgências. Não apenas em mim, mas em quem passa pela porta, pelo corredor, pelo olhar.

Montar a árvore em novembro é quase um gesto de resistência.

Uma escolha por lembrar que o Natal não é um evento de calendário: é um estado de presença. Um convite ao cuidado, à memória, à gentileza, ao recolhimento.

Mas algo acontece quando viramos o ano.

Janeiro chega e parece que uma parte do país desmonta a própria fé junto com os enfeites. Infelizmente!

A pressa retorna, a urgência volta a dominar, e a busca desenfreada pelo prazer — muitas vezes mascarada de liberdade — toma conta das ruas, das avenidas, dos blocos que tornam a vida de qualquer morador um inferno.

Não é sobre ser contra o Carnaval. Ele tem beleza, história, musicalidade, potência cultural.

É sobre perceber que, para muitos, ele virou anestesia — um alívio rápido para um vazio que dezembro, por algumas semanas, conseguiu acalmar.

E então lembro do Círio de Nazaré, no Pará.

Milhões caminham movidos não por espetáculo, mas por promessa, gratidão, milagre, pertencimento. O que os move é a fé. Uma celebração que não precisa de palco, camarote ou transmissão internacional para ser grandiosa.

Por que o mundo conhece o Carnaval do Rio, mas não a procissão que emociona Belém?

Porque o Brasil concentrou sua indústria cultural no Sudeste. É la que esta a Globo e outras mídias.

Dai a pergunta: Porque fé não gera o mesmo faturamento de publicidade, turista, camarote e streaming.

Porque aquilo que é silencioso raramente vira tendência.

E, no entanto, é justamente esse silêncio que sustenta e cura.

Talvez por isso eu tenha montado a árvore mais cedo.

Para lembrar que ainda existe espaço — dentro e fora da gente — para a espiritualidade cotidiana. Para pequenos rituais que devolvem sentido ao ano que insistimos em atravessar no automático.

Se dezembro nos lembra quem somos, janeiro não precisa nos fazer esquecer o ano inteiro.

Quando o Instinto Sabe Antes

Acordei pensando em quantas vezes consegui resolver questões complexas apenas com base no instinto.

Se isso funciona tão bem, por que — sem precisar medir o tempo — às vezes demoro para agir?

Para decidir pelo instinto é necessário, antes de tudo, conhecer profundamente a si mesmo.

No meu caso, percebo que em praticamente tudo — relações pessoais, negócios, processos, pessoas duvidosas, intenções ocultas — meu instinto sempre avisa cedo, como se antecipasse a verdade antes mesmo que ela se revelar..

Contudo, no meu caso, ele não manda sozinho. O instinto é apenas um indicador. Um sinal.

E sinais… podem ser enganosos.

Logo depois de cada intuição, inicia-se dentro de mim um conjunto de processos que incluem (não necessariamente na mesma ordem): racionalização, vontade de ser justo, tentativa de dar mais uma chance, moderação para não ser duro demais e, por fim, a esperança de que as pessoas sejam melhores do que apresentam ser.

Muitas vezes já me sabotei por não acreditar na primeira impressão — mesmo quando ela gritava que algo estava errado. E isso acontecia porque eu acredito, sinceramente, que todos merecem uma chance de se perdoar e acertar antes de qualquer julgamento.

Como se eu não fosse merecedor de julgar.

Aquela sensação amarga do “eu sabia”, “não acredito”, “por que não me ouvi?” sempre vem acompanhada do consolo final: “meu instinto estava certo.”

E isso, curiosamente, ajuda a dormir.

O dia seguinte, porém, começa como sempre: leve, fácil, feliz por acordar.

E grato por estar aqui — escrevendo esses textos.

Obrigado, Senhor.