Serie 50 | O grão, o pão e os sinais

Acordo todos os dias em oração.

É um rito que me move, pulsa e aquece o coração. Talvez por isso eu escute de tantos o quanto sou querido. Tenho Deus em tudo o que sou e em tudo o que faço. E tenho a certeza de que por causa disso, o trabalho frutifica a minha vida e a de quem está ao meu redor.

Cheguei aos cinquenta anos não apenas somando tempo.

Aprendi a escutar melhor. Foi na oração, justamente nesse atravessar de ciclo, que percebi uma lição triste, porém verdadeira. Uma lição que não reflete apenas parte da população, mas revela a ausência de valores cristãos: quando o dinheiro entra, o coração de muitos sai. Nada justo nem certo. É dinheiro.

A reciprocidade desaparece. Ela passa a existir apenas enquanto há interesse. É lamentável, mas é real. E dói mais quando se chega a essa constatação não pela teoria, mas pela pratica.

E então me pergunto com a consciência e honestidade que os cinquenta exigem o que fiz para me colocar nessa situação?

Quais sonhos vivi, quais infernos inconscientemente desejei, que me conduziram a ponto de ser traído da minha natureza dessa forma?

Será que a bênção de Deus é me fazer celebrar cinquenta anos em estado tão pequeno quanto um grão? Ou será justamente nesse grão que mora o mistério da maturidade? Porque, mesmo pequeno, ele se multiplica como o pão, alimenta e sustenta. Não faz barulho, mas cumpre seu propósito.

Os sinais estão aí. E talvez os cinquenta sejam exatamente isso: aprender a enxergar menos com os olhos e mais com o espírito.

Há, sem dúvida, muita coisa boa por vir.

Serie 50 | O inferno astral como rito de passagem

Sempre ouvi dizer que todos os anos atravessamos o chamado inferno astral. Para quem acredita, é o período de fechamento de ciclo, de cansaço, de revisão, e no meu caso, de julgamento e cobrança, por vezes duras no entanto necessárias para manter a lente do óculos limpa.

Ainda que voce não acredite, creio ser difícil negar que nos dias que antecedem o aniversario algo sempre se move de maneira amplificada – por dentro e por fora.

Esse ano tem sido diferente.

Talvez porque não seja apenas mais um aniversário. Talvez porque os 50 anos não permitem erros e distrações. Essa idade chega exigindo algo para muitos custoso que é a verdade.

O inferno astral desse ano coincidiu com muitas mudanças. Um vazio inesperado na rotina de forum, cuja infinidade de prazos exigiam organização diária e que agora esta silencioso. A percepção de ajuste nas relações pessoais – amigos que se afastam, outros que revelam limites e principalmente vínculos familiares ja transformados que se consolidam.

Nada exatamente trágico, mas tudo suficientemente intenso para desestabilizar quem despreparado esta.

Ainda que tenha vivido esse cenário de perdas simbólicas e ajustes forçados, houve algo que não apenas resistiu como também floresceu. O meu amor pelo Paulo.

Isso não é pouco – especialmente porque começamos o ano com a noticia dura da passagem de sua mãe, situação que poderia ensejar o recolhimento do amor e endurecimento do coração. Mas aconteceu o oposto.

O cuidado entre nós cresceu. A presença se aprofundou. O nosso relacionamento se revelou mais sólido no que serão esses cinco anos do que qualquer previsão, de modo que conseguimos com a permissão de Deus acordar todos os dias e viver uma surpresa, ao mesmo tempo, um desafio.

Diria que esse também é o ensinamento que os 50 anos me dão logo de saída. Nem todo vazio é ausência, nem toda dor é perda, nem toda fase difícil é destruição. São apenas transições necessárias, ainda que desconfortáveis.

Se isso for inferno astral, que seja! mas que seja também o lugar onde se aprende o que fica – e o que definitivamente pode ir.

Sigo feliz, ainda que no inferno astral. Não há mal que resista o bem que o Pará e o paraense me traz.

Dois homens sorrindo juntos em frente a um corpo d'água, com um cais e palmeiras ao fundo.

Advogar contra a própria causa.

Advogar contra a própria causa.

Já muito no passado escutei que não é fácil tentar me convencer de algo quando já tenho entendimento formado. Pode-se tentar argumentar; no entanto, a incerteza quanto à assimilação do assunto sempre prevalece.

O que, às vezes, pode se passar por uma atitude pessoal importa, na verdade, em algo muito mais denso e profundo de se explicar. E isso não se aplica apenas a mim.

Quando se tem repertório, se vive alguma técnica e se possui certo nível de inteligência, é natural que dessa equação surjam argumentos capazes de justificar visões, desejos e atalhos. Contudo, existem aqueles que, mesmo assim, decidem seguir o caminho mais difícil: não trair a própria consciência.

É nesse caminho que estou. Tanto no profissional quanto no pessoal. Gostaria que fosse mais fácil. Não é.

Foram muitas as exigências impostas a quem estudou em uma escola católica. Fui criado nesse meio e, ainda perdido enquanto criança, recebi os sacramentos para os quais me senti vocacionado. Da Primeira Comunhão à Crisma, já havia em mim a intenção de dizer que Jesus viria em primeiro lugar.

Como muitos, fiz isso muito mais por obediência do que por compreensão efetiva do caminho que dizia que iria trilhar.

Hoje, na última missa do ano, refleti: sou um católico muito melhor agora do que fui quando me comprometi a seguir regras sem entendimento real sobre a vida.

Isso não me impediu de viver um primeiro casamento religioso com alegria, vocação, amor e fé. Recebi o sacramento acreditando nele, e tudo funcionou até o dia em que, por traumas e dramas, aprendi algo fundamental sobre mim: a minha natureza afetiva.

A partir desse momento, meu coração se dilacerou na desconstrução de uma vida que, embora verdadeira, percebi que não caberia em mim. Concomitantemente, decidi me afastar da Igreja — o que parecia natural — e fiz isso sem perceber um valor fundamental: estava me afastando de mim também.

Casei novamente, acreditando que a vida poderia se resumir ao suor do trabalho e à sustentação de escolhas, desde que comprometidas em não fazer mal a ninguém. A conta veio no corpo, na alma, no cansaço, no vazio de tudo. Foi então que compreendi que também esse casamento havia terminado.

E, de alguma forma quase inexplicável, conheci e recebi aquele que hoje tenho por marido — no que espero ser para toda a vida.

Curiosamente, quando afastado da Igreja, vivi experiências espirituais profundas. Uma delas, que já escrevi em algum lugar aqui, foi o encontro com Deus. Guardo permanentemente a memória do lugar, d’Ele e de tudo o que vivi, mesmo sem estar na Igreja.

Muitos foram os recados enviados, geralmente manifestados por pessoas aleatórias que dizem algo e instantaneamente esquecem o que falaram. Eu jamais esquecerei o homem que, em pleno corredor, surgiu do nada e me perguntou:

“Você acredita em Deus, meu filho?”

Ao responder que sim, ele disse: “Vá para casa e descanse. Você está curado.”

E eu estava.

Não sei explicar o porquê das curas, das vigílias silenciosas, de tudo o que passei — e ainda passo — que me aproximou de Deus. Fato é que eu estava afastado da Igreja, nunca me senti merecedor e, hoje, percebo que talvez exatamente por isso tenha recebido tanto.

Esse sentimento de indignidade, que permanece, levou-me a querer ser uma pessoa melhor no que sou e no que faço. Passei a me engajar em ações concretas: distribuí comida, ajudei a criar uma padaria para dar pão a quem tem fome e emprego a quem precisa. Viabilizei a contribuição para fundar uma confeitaria e sigo engajado nos projetos da Amparo, que vão desde aulas de reforço em português e matemática até a entrega de alimentos. Doei notebooks, patrocinei um atleta brasileiro que conheci no sinal para um campeonato nos Estados Unidos, de onde voltou com medalha de ouro.

E, ainda assim, nada disso foi suficiente.

Para quem ama a Deus e aos seus filhos, nada é suficiente. Os anos passaram, e permaneci buscando e aprofundando cada vez mais a Palavra do Evangelho — uma tarefa em nada confortável.

Não tenho vergonha de admitir que falhei e falho no trato com o próximo. O que mudou? Hoje busco aprender, procuro me perdoar e superar os erros. Acredito menos no mérito e mais na misericórdia do Senhor. Não sou deste mundo e quero sair dele melhor do que entrei.

Ainda assim, não vivo uma fé perfeita, mas a fé possível — honesta, custosa, porém verdadeira. Por ela, não posso receber a hóstia, pois, objetivamente, dentro dos parâmetros da Igreja, vivo uma situação que a instituição considera uma contradição sacramental e, por isso, não autoriza.

Mesmo assim, não desisti de amar a Cristo, de viver o Evangelho ou de ser um católico melhor do que muitos. Mais importante: nem isso afastou Deus de mim.

No fim, compreendo que a religião institucional não conseguiu me conter porque passei a ser fiel à religião do ser. Por ela, busco não me sustentar em aparências, mas em verdade, amor e responsabilidade diante da própria consciência.

Sigo confiante em Deus. Seu amor e sua misericórdia são maiores do que qualquer desejo ou feito humano. Estou otimista, mesmo sem garantias. E é pela fé que vivo e enfrento o inesperado.

O Senhor é meu pastor e nada me faltará.