Deboche não é argumento: sobre arrogância retórica e pobreza intelectual

Há textos que incomodam não pelo tema, mas pela forma. O artigo recente de reinaldo azevedo é um desses casos.

O problema central não está, necessariamente, nas conclusões a que o reporter chega. É possível, sim, que parte do diagnóstico esteja correto. O que causa estranhamento — e rejeição — é o método. A retórica adotada, marcada pelo deboche e por uma suposta classificação “técnica” de fatos e argumentos por meio de siglas, não fortalece a tese. Ao contrário: denuncia sua fragilidade.

Transformar o debate público em uma sequência de rótulos é um recurso antigo. Serve menos para esclarecer e mais para enquadrar, reduzir e deslegitimar o pensamento divergente. Não se trata de análise rigorosa, mas de uma imposição de visão, travestida de didatismo.

Há ainda um equívoco mais profundo: a crença de que o escárnio é instrumento legítimo do convencimento.

Não é.

O sarcasmo pode render aplausos fáceis de quem já concorda, mas empobrece o debate, fecha portas e afasta qualquer possibilidade real de diálogo. Além disso, envelhece mal. O que hoje parece ironia afiada, amanhã soa apenas cafona.

Os fins — ainda que considerados nobres pelo autor — não justificam os meios. Quando o argumento depende do deboche para se sustentar, o problema não está apenas no interlocutor criticado. Está, sobretudo, na segurança de quem escreve.

O debate público brasileiro já sofre demais com gritos, caricaturas e certezas absolutas. Não precisamos de mais textos que trocam reflexão por escárnio. Precisamos de menos arrogância retórica e mais responsabilidade intelectual.

Leia

Minha visão política mudou ao longo do tempo?

Gostaria de dizer que sim. No entanto, penso que não.

Em retrospectiva, apresentei-me à sociedade como candidato em 2010 com o propósito de fazer diferente. A chamada nova forma de fazer política, por óbvio, naufragou. Seus pilares não se sustentavam na troca de interesses e favores — pelo contrário — e talvez aí residisse sua maior fragilidade diante do sistema.

Naquele momento, opus-me ao processo de alfabetização conduzido pelo Estado do Rio de Janeiro, chamando atenção para deficiências estruturais que atravessavam toda a formação educacional: da pré-escola ao ensino médio e universitário. Anos depois, aquela percepção inicial não apenas persiste como se agravou. O aluno que ingressa no sistema permanece nele sem o desenvolvimento necessário para realizar a travessia rumo a uma condição de vida melhor. O ensino médio — que considero essencial para qualquer futuro, seja na produção ou na administração — foi deixado para trás, vítima de uma política castradora que ainda insiste em sobreviver.

Também percebi, cedo, que a saúde estava doente. Só então me dei conta do privilégio que sempre tive ao contar com água tratada e esgoto encanado. Hoje, a falta de investimento é tamanha que o cheiro de esgoto se faz presente nas ruas, e temo que uma parcela significativa da população ainda conviva com doenças diretamente ligadas à ausência de saneamento básico. Se o Estado avocou para si a responsabilidade pela saúde, isso deveria ser inegociável. Não foi. A iniciativa privada, por sua vez, transformou os poucos que podem pagar em reféns de uma lógica que faz tudo pelo lucro — exceto cuidar da saúde.

Agora, a poucos dias de completar cinquenta anos, faço uma pergunta inevitável: o que será de mim quando idoso? O que fará o governo, em qualquer de suas esferas, para amparar quem envelhece? Absolutamente nada. Todos nós precisaremos de auxílio nas relações de trabalho e de convívio social. Em troca, parece que receberemos apenas o descarte motivado pela idade. A experiência acumulada não é tratada como ativo nacional, mas como contingência incômoda.

Desde que deixou de ser capital da República, o Rio de Janeiro parece viver uma permanente dor de cotovelo. Apesar da abundância de equipamentos culturais — muitos deles também presentes em cidades próximas, como Petrópolis e Niterói — sua utilização para a difusão da cultura é aquém do possível e do necessário. Optou-se por viver do turismo, dos shows e das sensações, em vez de promover o acesso à cultura como política pública. Não me recordo da última vez em que o poder público incentivou seriamente o uso de bibliotecas. Em contrapartida, não faltam ações de marketing para atrair turistas ou discursos do “nunca antes” para normalizar enchentes, acidentes, roubos e infortúnios.

Apesar de todo esforço, fiquei para trás. Muitos não compreenderam — ou não quiseram compreender — que disputar uma eleição exige, inevitavelmente, um passeio pelo chiqueiro que se tornaram partidos e práticas políticas. Lidar com o peso das escolhas erradas e dos erros de quem domina o sistema é um passo doloroso, porém real e necessário.

Não por acaso, candidatei-me em oposição ao governo que aí está, ainda que tenha sido utilizado oportunamente por circunstâncias alheias à coerência política. A janela de oportunidade surgiu, e nela segui acreditando que, para mudar, era preciso votar.

Ainda é. Não há como falar em redemocratização diante de tamanha abstenção e do crescimento de votos brancos e nulos. Parece que, enfim, o medo venceu a esperança. Muitos acreditam que votar não adianta, que tudo de ruim persistirá independentemente do resultado eleitoral. O mal triunfa porque aqueles que recebem alguma contrapartida do governo estão confortáveis com isso — e, por isso mesmo, lutarão para manter o estado das coisas.

A visão permanece a mesma. O que evoluiu foi a percepção da degradação dos entes públicos, reflexo direto de seus próprios atos. O deputado hoje é uma figura apagada. Sua representatividade diminuiu na mesma proporção em que o processo eleitoral se cristalizou. A República conserva traços de feudo e assistencialismo tão arraigados que impedem qualquer renovação real.

Por isso — e por tantos outros motivos — venho, há muito tempo, questionando se vivemos de fato uma democracia ou apenas sua fachada. Se a institucionalização das relações políticas entre parlamentares não consolidou uma espécie de ditadura democrática, impermeável ao acesso e à mudança. Enfrentar esse sistema parece uma sentença de morte; ser julgado por ele, uma pré-condenação.

O que não havia antes, e hoje encaro com lágrimas e pranto, é a fragilidade do Poder Judiciário. Um Judiciário que age por provocação da imprensa, pela comoção social, e que custa caro — caro demais. Ao longo de mais de vinte anos de formação e exercício profissional, testemunhei o abandono da literatura clássica do direito em favor de reformas que não abreviaram um único dia de julgamento. Apenas deram nome ao ministro cuja regra mudou. Vieram os cursos, os simpósios, os títulos — e o vazio.

Minha visão não mudou. O que mudou foi a experiência — e a percepção amarga que eu, assim como qualquer cidadão atento, carrego ao acompanhar o desdobramento de mais um dia da política nesta cidade.

Sua visão política mudou ao longo do tempo?

Quando o Espetáculo Substitui o Estado Vivemos uma Política de Fachada.

Desde sempre tive como verdadeira a ideia de que um dos pilares centrais da democracia é o respeito institucional entre os poderes e as autarquias. Sem isso, não há respeito mínimo, não há segurança jurídica e, muito menos, democracia.

O que vivemos hoje se assemelha a uma democracia de fachada, com práticas cada vez mais autoritárias. Basta observar o noticiário: manchetes que alternam entre o “número de presos em suposta trama golpista” e ministro do STF batendo boca com delegada em investigação bancária. O espetáculo substituiu o institucional. O ruído tomou o lugar da sobriedade.

Enquanto isso, a atenção do governo ao seu próprio povo — se é que ainda se trata de prioridade — parece inexistente. A proposta de o Brasil ceder à China a cota de carne de países que não conseguirem cumpri-la é emblemática. Revela muito mais do que uma política comercial: revela desprezo estratégico.

Ao invés de exportar menos, valorizar o produto e lucrar mais, como fazem países maduros, opta-se por inundar o mercado externo para manter margens artificiais. Tudo isso enquanto o preço da carne continua distante do prato do brasileiro médio. Afinal, alimentar o povo nunca foi prioridade quando há um seleto grupo disposto a capturar os ganhos da democracia para agir em causa própria.

O que une quase tudo o que há de errado é a propaganda institucional positiva. A violência cresce, mas o Réveillon é “o maior do mundo”. Talvez também seja um dos menos seguros. A criminalidade “cai” enquanto cresce a frota de veículos blindados — não por mérito do Estado, mas por falência dele. O pobre, por sua vez, segue lutando para pegar um ônibus com ar-condicionado inexistente, enquanto a culpa nunca é do cartel que sustenta a concessão, mas sempre da empresa multada — e jamais substituída.

É curioso, para não dizer perverso, ver empresa pública de transporte patrocinando eventos culturais, como se essa fosse sua vocação. Estamos na contramão da Europa e de países das Américas que postergaram subsídios a veículos elétricospor razões fiscais e estruturais. Aqui, incentiva-se praticamente uma única fabricante — que, por coincidência conveniente, abriga ex-político em seu conselho.

Esse Brasil do faz-de-conta, que simula evolução enquanto distribui privilégios, produz uma sequência interminável de injustiças contra quem quer apenas trabalhar, produzir e viver sem depender da política ou do lobby.

Talvez seja mesmo mais fácil aumentar o orçamento das empresas de cenografia. Transformar a existência do povo em uma sucessão de eventos: Ano Novo, Carnaval, “Todo Mundo no Rio”, carnaval fora de época e afins. Festa como política pública. Espetáculo como anestesia social.

Até quando?

01.01.2026 – fé, amor, renovação, saude e recomeço.

01.01.2026 – fé, amor, renovação, saude e recomeço.

Geralmente escrevemos para nós mesmos, todos os anos, aquilo que desejamos que aconteça ao longo da vida.

Esse gesto quase íntimo costuma surgir logo depois do Natal, quando o silêncio fala mais alto e o ano ainda não começou de verdade.

Para 2026, desejo antes de tudo que Jesus continue me guiando, como fez no ano que passou.

Quero viver mais um ano com fé, amor, trabalho, compreensão e carinho.

Que 2026 seja um ano de renovação e recomeço.

Um ano simbólico: completo 50 anos de vida e celebro 5 anos ao lado do Paulo. Marcas de tempo que não pesam — ensinam.

Começo este ano na leveza de quem aprendeu a não remar contra todas as marés.

Parado, atento, escolhendo apenas a onda que realmente importa surfar.

Advogar contra a própria causa.

Advogar contra a própria causa.

Já muito no passado escutei que não é fácil tentar me convencer de algo quando já tenho entendimento formado. Pode-se tentar argumentar; no entanto, a incerteza quanto à assimilação do assunto sempre prevalece.

O que, às vezes, pode se passar por uma atitude pessoal importa, na verdade, em algo muito mais denso e profundo de se explicar. E isso não se aplica apenas a mim.

Quando se tem repertório, se vive alguma técnica e se possui certo nível de inteligência, é natural que dessa equação surjam argumentos capazes de justificar visões, desejos e atalhos. Contudo, existem aqueles que, mesmo assim, decidem seguir o caminho mais difícil: não trair a própria consciência.

É nesse caminho que estou. Tanto no profissional quanto no pessoal. Gostaria que fosse mais fácil. Não é.

Foram muitas as exigências impostas a quem estudou em uma escola católica. Fui criado nesse meio e, ainda perdido enquanto criança, recebi os sacramentos para os quais me senti vocacionado. Da Primeira Comunhão à Crisma, já havia em mim a intenção de dizer que Jesus viria em primeiro lugar.

Como muitos, fiz isso muito mais por obediência do que por compreensão efetiva do caminho que dizia que iria trilhar.

Hoje, na última missa do ano, refleti: sou um católico muito melhor agora do que fui quando me comprometi a seguir regras sem entendimento real sobre a vida.

Isso não me impediu de viver um primeiro casamento religioso com alegria, vocação, amor e fé. Recebi o sacramento acreditando nele, e tudo funcionou até o dia em que, por traumas e dramas, aprendi algo fundamental sobre mim: a minha natureza afetiva.

A partir desse momento, meu coração se dilacerou na desconstrução de uma vida que, embora verdadeira, percebi que não caberia em mim. Concomitantemente, decidi me afastar da Igreja — o que parecia natural — e fiz isso sem perceber um valor fundamental: estava me afastando de mim também.

Casei novamente, acreditando que a vida poderia se resumir ao suor do trabalho e à sustentação de escolhas, desde que comprometidas em não fazer mal a ninguém. A conta veio no corpo, na alma, no cansaço, no vazio de tudo. Foi então que compreendi que também esse casamento havia terminado.

E, de alguma forma quase inexplicável, conheci e recebi aquele que hoje tenho por marido — no que espero ser para toda a vida.

Curiosamente, quando afastado da Igreja, vivi experiências espirituais profundas. Uma delas, que já escrevi em algum lugar aqui, foi o encontro com Deus. Guardo permanentemente a memória do lugar, d’Ele e de tudo o que vivi, mesmo sem estar na Igreja.

Muitos foram os recados enviados, geralmente manifestados por pessoas aleatórias que dizem algo e instantaneamente esquecem o que falaram. Eu jamais esquecerei o homem que, em pleno corredor, surgiu do nada e me perguntou:

“Você acredita em Deus, meu filho?”

Ao responder que sim, ele disse: “Vá para casa e descanse. Você está curado.”

E eu estava.

Não sei explicar o porquê das curas, das vigílias silenciosas, de tudo o que passei — e ainda passo — que me aproximou de Deus. Fato é que eu estava afastado da Igreja, nunca me senti merecedor e, hoje, percebo que talvez exatamente por isso tenha recebido tanto.

Esse sentimento de indignidade, que permanece, levou-me a querer ser uma pessoa melhor no que sou e no que faço. Passei a me engajar em ações concretas: distribuí comida, ajudei a criar uma padaria para dar pão a quem tem fome e emprego a quem precisa. Viabilizei a contribuição para fundar uma confeitaria e sigo engajado nos projetos da Amparo, que vão desde aulas de reforço em português e matemática até a entrega de alimentos. Doei notebooks, patrocinei um atleta brasileiro que conheci no sinal para um campeonato nos Estados Unidos, de onde voltou com medalha de ouro.

E, ainda assim, nada disso foi suficiente.

Para quem ama a Deus e aos seus filhos, nada é suficiente. Os anos passaram, e permaneci buscando e aprofundando cada vez mais a Palavra do Evangelho — uma tarefa em nada confortável.

Não tenho vergonha de admitir que falhei e falho no trato com o próximo. O que mudou? Hoje busco aprender, procuro me perdoar e superar os erros. Acredito menos no mérito e mais na misericórdia do Senhor. Não sou deste mundo e quero sair dele melhor do que entrei.

Ainda assim, não vivo uma fé perfeita, mas a fé possível — honesta, custosa, porém verdadeira. Por ela, não posso receber a hóstia, pois, objetivamente, dentro dos parâmetros da Igreja, vivo uma situação que a instituição considera uma contradição sacramental e, por isso, não autoriza.

Mesmo assim, não desisti de amar a Cristo, de viver o Evangelho ou de ser um católico melhor do que muitos. Mais importante: nem isso afastou Deus de mim.

No fim, compreendo que a religião institucional não conseguiu me conter porque passei a ser fiel à religião do ser. Por ela, busco não me sustentar em aparências, mas em verdade, amor e responsabilidade diante da própria consciência.

Sigo confiante em Deus. Seu amor e sua misericórdia são maiores do que qualquer desejo ou feito humano. Estou otimista, mesmo sem garantias. E é pela fé que vivo e enfrento o inesperado.

O Senhor é meu pastor e nada me faltará.