Advogar contra a própria causa.

Advogar contra a própria causa.

Já muito no passado escutei que não é fácil tentar me convencer de algo quando já tenho entendimento formado. Pode-se tentar argumentar; no entanto, a incerteza quanto à assimilação do assunto sempre prevalece.

O que, às vezes, pode se passar por uma atitude pessoal importa, na verdade, em algo muito mais denso e profundo de se explicar. E isso não se aplica apenas a mim.

Quando se tem repertório, se vive alguma técnica e se possui certo nível de inteligência, é natural que dessa equação surjam argumentos capazes de justificar visões, desejos e atalhos. Contudo, existem aqueles que, mesmo assim, decidem seguir o caminho mais difícil: não trair a própria consciência.

É nesse caminho que estou. Tanto no profissional quanto no pessoal. Gostaria que fosse mais fácil. Não é.

Foram muitas as exigências impostas a quem estudou em uma escola católica. Fui criado nesse meio e, ainda perdido enquanto criança, recebi os sacramentos para os quais me senti vocacionado. Da Primeira Comunhão à Crisma, já havia em mim a intenção de dizer que Jesus viria em primeiro lugar.

Como muitos, fiz isso muito mais por obediência do que por compreensão efetiva do caminho que dizia que iria trilhar.

Hoje, na última missa do ano, refleti: sou um católico muito melhor agora do que fui quando me comprometi a seguir regras sem entendimento real sobre a vida.

Isso não me impediu de viver um primeiro casamento religioso com alegria, vocação, amor e fé. Recebi o sacramento acreditando nele, e tudo funcionou até o dia em que, por traumas e dramas, aprendi algo fundamental sobre mim: a minha natureza afetiva.

A partir desse momento, meu coração se dilacerou na desconstrução de uma vida que, embora verdadeira, percebi que não caberia em mim. Concomitantemente, decidi me afastar da Igreja — o que parecia natural — e fiz isso sem perceber um valor fundamental: estava me afastando de mim também.

Casei novamente, acreditando que a vida poderia se resumir ao suor do trabalho e à sustentação de escolhas, desde que comprometidas em não fazer mal a ninguém. A conta veio no corpo, na alma, no cansaço, no vazio de tudo. Foi então que compreendi que também esse casamento havia terminado.

E, de alguma forma quase inexplicável, conheci e recebi aquele que hoje tenho por marido — no que espero ser para toda a vida.

Curiosamente, quando afastado da Igreja, vivi experiências espirituais profundas. Uma delas, que já escrevi em algum lugar aqui, foi o encontro com Deus. Guardo permanentemente a memória do lugar, d’Ele e de tudo o que vivi, mesmo sem estar na Igreja.

Muitos foram os recados enviados, geralmente manifestados por pessoas aleatórias que dizem algo e instantaneamente esquecem o que falaram. Eu jamais esquecerei o homem que, em pleno corredor, surgiu do nada e me perguntou:

“Você acredita em Deus, meu filho?”

Ao responder que sim, ele disse: “Vá para casa e descanse. Você está curado.”

E eu estava.

Não sei explicar o porquê das curas, das vigílias silenciosas, de tudo o que passei — e ainda passo — que me aproximou de Deus. Fato é que eu estava afastado da Igreja, nunca me senti merecedor e, hoje, percebo que talvez exatamente por isso tenha recebido tanto.

Esse sentimento de indignidade, que permanece, levou-me a querer ser uma pessoa melhor no que sou e no que faço. Passei a me engajar em ações concretas: distribuí comida, ajudei a criar uma padaria para dar pão a quem tem fome e emprego a quem precisa. Viabilizei a contribuição para fundar uma confeitaria e sigo engajado nos projetos da Amparo, que vão desde aulas de reforço em português e matemática até a entrega de alimentos. Doei notebooks, patrocinei um atleta brasileiro que conheci no sinal para um campeonato nos Estados Unidos, de onde voltou com medalha de ouro.

E, ainda assim, nada disso foi suficiente.

Para quem ama a Deus e aos seus filhos, nada é suficiente. Os anos passaram, e permaneci buscando e aprofundando cada vez mais a Palavra do Evangelho — uma tarefa em nada confortável.

Não tenho vergonha de admitir que falhei e falho no trato com o próximo. O que mudou? Hoje busco aprender, procuro me perdoar e superar os erros. Acredito menos no mérito e mais na misericórdia do Senhor. Não sou deste mundo e quero sair dele melhor do que entrei.

Ainda assim, não vivo uma fé perfeita, mas a fé possível — honesta, custosa, porém verdadeira. Por ela, não posso receber a hóstia, pois, objetivamente, dentro dos parâmetros da Igreja, vivo uma situação que a instituição considera uma contradição sacramental e, por isso, não autoriza.

Mesmo assim, não desisti de amar a Cristo, de viver o Evangelho ou de ser um católico melhor do que muitos. Mais importante: nem isso afastou Deus de mim.

No fim, compreendo que a religião institucional não conseguiu me conter porque passei a ser fiel à religião do ser. Por ela, busco não me sustentar em aparências, mas em verdade, amor e responsabilidade diante da própria consciência.

Sigo confiante em Deus. Seu amor e sua misericórdia são maiores do que qualquer desejo ou feito humano. Estou otimista, mesmo sem garantias. E é pela fé que vivo e enfrento o inesperado.

O Senhor é meu pastor e nada me faltará.

Comer é um vicio

Comer não é apenas um ato biológico.

É também um gesto existencial.

Come-se por fome, é verdade.

Mas come-se igualmente por sede — não apenas de água, mas também de sentido.

Come-se quando falta o sabor da comida.

Come-se quando sobra o vazio que ela tenta preencher.

Come-se para ocupar a mesa.

Come-se, muitas vezes, para evitar encarar o que ficou fora dela.

Come-se para acompanhar,

Come-se para não estar só,

Come-se para fazer o tempo passar mais rápido

Come-se quando ele pesa demais.

Come-se para celebrar a vida

Come-se para sobreviver a ela.

Come-se para afogar mágoas,

Come-se para enterrar fases,

Come-se para inaugurar outras — como se fosse um rito de passagem.

Come-se quando se está feliz.

Come-se quando a tristeza pede anestesia.

Come-se por hábito,

Come-se por obediência,

Come-se porque alguém manda,

Come-se para existir,

e, talvez, para aprender — ainda que mal — a lidar com aquilo que não se resolve.

O problema é que o comer não conhece limite.

Quanto mais se come, mais se é comido.

O desejo cresce na mesma proporção da tentativa de saciá-lo.

Não há freio natural,

não há ponto final,

não há saciedade definitiva.

Por isso, comer pode deixar de ser necessidade,

e se tornar vício!

Não pelo alimento em si,

Mas pelo que ele silencia.

Daí porque sigo comendo, e fazendo exercício, todos os dias!

Pronto, falei.

O barulho do vazio

No Rio de Janeiro, há algum tempo, tenho notado que conhecer alguém vale mais do que ser alguém.

Esse jeito carioca de ser parece ter sido exportado do Rio de Janeiro para o mundo.

Ser competente, preparado, educado ou íntegro, para quem se espelha no show off, pouco importa. O que vale é o acesso, o sobrenome, o contato certo, o lugar à mesa.

É assim que uma facção constrói e exerce poder por aqui — não pela excelência, mas pela proximidade. Não pela elegância, mas pela vulgaridade. Não pela discrição, mas pela ostentação sem educação.

O enriquecimento desses mal-educados e pouco instruídos passou a ser tratado como algo normal. Não é. Nunca foi.

Não é de hoje que observo, lentamente, a perda de referências. Os símbolos nacionais já não nos representam há muito tempo. Políticos, nem pensar. Nem o futebol se salva.

O mais deprimente, porém, não é o enriquecimento em si — é o que ele não trouxe junto.

A julgar pelos novos ricos cariocas, não vieram com cultura, modos ou conhecimento. O dinheiro não veio acompanhado de aperfeiçoamento, mas de ostentação. Não produziu civilidade, apenas barulho. Não gerou responsabilidade, apenas exibicionismo.

Forma-se, então, um jogo de poder raso e cansativo. Um teatro permanente de carros, relógios caros, vozes altas, roupas chamativas e a necessidade constante de ser visto, reconhecido, temido. Um poder que não se sustenta por conteúdo, apenas por presença.

Quando o costume de casa vai à praça, o retrato fica claro: não houve educação antes do dinheiro. Não houve construção antes da conquista. Houve apenas acesso.

Talvez por isso esses idiotas confundam espaços públicos com territórios privados. Talvez por isso tratem restaurantes como palcos, pessoas como figurantes e regras como sugestões. Talvez por isso precisem reafirmar o tempo todo quem conhecem, onde entram, com quem falam.

No fundo, não se trata de riqueza.

Trata-se de vazio.

E vazio faz barulho.

Muito barulho!!!!!

Onde termina em tinta começa em carater.

Hoje eu vou falar de banheiro.

E não, isso não é um exagero nem uma pauta menor. É justamente o contrário: há temas que só parecem pequenos porque ninguém quer enfrentá-los.

Cheguei em casa e precisei usar o banheiro da garagem. O espaço que, segundo o sindico, foi “reformado”. Reformado, aqui, significa pintado — do chão à pia. Nada além disso.

Que vergonha!!!

Nenhuma preocupação estrutural, nenhuma intenção real de oferecer dignidade. Apenas uma camada de tinta para disfarçar o abandono. É isso que devemos aos funcionários, prestadores de serviço e a nos mesmos?

O curioso é o contexto.

Moro em um prédio que, há pouco tempo, arrecadou mais de um milhão de reais em cotas condominiais em atraso. Um edifício cujo condomínio é caro, e também habitado por pessoas ricas, instruídas.

Aqui residem embaixadores, consul, advogados, profissionais da televisão, gente que fala bem, se veste bem e sabe discursar. Ainda assim, o banheiro destinado a funcionários, prestadores de serviço e também aos próprios moradores permanece indigno.

E foi aí que a reflexão surgiu.

Esse banheiro não é apenas um espaço mal cuidado.

É um retrato social!

Um experimento silencioso que revela algo que raramente é dito: a forma como muitos da elite cuidam dos espaços “dos outros” diz muito sobre como tratam os que lhe atendem. Mais ainda, diz sobre o ambiente que é tolerado aos funcionários e por consequência como deve ser mantido.

Sempre tive dificuldade com discursos ensaiados. Nunca levantei bandeira seja qual for. Da lgbt a esg. Dou a minima para isso.

Também não dou ouvido a esse discurso politicamente correto de fachada, com as risadas fáceis em mesas bem postas. Muitas vezes, essas risadas não são de alegria — são de superioridade. Não se ri com o outro, ri-se do outro. Especialmente de quem trabalha, de quem serve, de quem não aparece na foto.

O banheiro da garagem mostra isso com uma honestidade brutal. Ele mostra que há pessoas capazes de investir tempo, dinheiro e energia em festas, aparências e narrativas públicas, mas incapazes de garantir o mínimo de dignidade a quem circula ao seu redor todos os dias.

E aqui vale uma inversão simples, porém necessária: quem trata o outro como inferior não demonstra superioridade alguma — revela apenas a própria pequenez.

Talvez alguém diga que é exagero. Que é “só um banheiro”. Mas não deveria nem ser pauta eu precisar reclamar disso. O problema é justamente esse: quando o óbvio precisa ser dito, algo está profundamente errado.

Somos dezessete unidades. Um não muda dezessete. Dois ou três também não. O silêncio coletivo acaba sendo o maior aliado da manutenção desse estado de coisas. Talvez o video, esta reflexão, nem chegue ao algoritmo certo. Talvez não incomode quem deveria incomodar. Ainda assim, falar é necessário.

Enquanto isso, sigo fazendo a minha parte.

Estou reformando todos os banheiros da minha casa. Os que eu uso e os que eu uso também — porque faço questão de usar todos. Não por virtude, mas por coerência. Dignidade não se terceiriza. Não se escolhe para quem ela vale. Aqui a prioridade é higiene com dignidade seja em qual banheiro for.

No fim, fica a pergunta que me faço — e faço a quem lê: estou errado por me incomodar com isso ou o verdadeiro problema é termos normalizado demais o que nunca deveria ser normal?

Norte magnetico

Todos nos ja vivemos momentos que subitamente perdemos o norte, situação em que nos encontramos a deriva.

Nada como a religião para nos tirar de la. Sem ela perdemos o norte, ficamos sem saber para onde vamos e nossas acoes ficam meio soltas no espaço. É um navio sem rota, sem porto e sem destino.

Esse sentimento que muitos envolve chega silenciosamente, sem fazer muito alarde e vai desviando a pessoa do destino, da familia, da religião.

Ganha força e predomina em quem esqueceu seu propósito, quem malandramente achou que driblaria a vida e deixou de encarar seus desafios.

A deriva estão todos que desistiram da vida e se contentaram apenas em viver.

Engana-se quem pensa que não ha movimento em quem esta a deriva. Pelo contrário. O que não existe é direção e o que resta é um fardo que presumo pesado.

As vezes encontramos o caminho em silencio e oração. Também uma pitada de coragem desde que acompanhada de verdade.

E justamente nesse ponto, o da honestidade e verdade do que somos, é que achamos o norte magnetico e a bússola volta a funcionar.