Quem me navega é o mar (e não o aplicativo)

No mundo atual, inundado de aplicativos, penso ser cada vez mais raro alguém ter uma lista de websites favoritos. Parece que o hábito de navegar virou coisa do passado. Tudo bem, não sou mais nenhum jovem — mas tenho o prazer de ver a internet na mesma onda do que cantou Paulinho da Viola: “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”.

No universo da inteligência artificial, curiosamente, acontece algo parecido. Ela não me “carrega” como passageiro, não me arrasta para onde quer. Eu sigo meu próprio rumo, chegando aos lugares com o sentimento de quem descobriu um continente. E, de fato, eu sou assim. Eu e Tim Maia, ambos descobridores dos sete mares.

Apesar de os aplicativos serem bonitos, supostamente mais práticos, basta um detalhe — um cadastro, uma senha, um CPF — para a eficiência evaporar. E junto com ela, vai a paciência, na velocidade do click.

Por exemplo: ontem cheguei em casa precisando comprar algumas coisas de mercado. Fiz o que qualquer cristão moderno faria: Ifood. Bastou começar para perceber que, por trás da propaganda sedutora, havia um serviço, no mínimo, sofrível.

Qual foi minha alternativa? Buscar o mercado diretamente. Resultado: cheguei no aplicativo do Zona Sul. E aí, confesso, me senti uma criança na piscina de bolinhas. Produtos variados, preços claros, tudo ali, pronto para escolher, pagar e receber em casa.

Mas deu certo?

Não.

Teve jeito?

Também não.

No momento de finalizar a compra, inseri o CPF. O sistema, por sua vez, direcionou para um e-mail que não existe mais — afinal, fui abandonado pelo Globo.com. Então cliquei em “não tenho mais acesso ao e-mail”. O app me mandou para uma tela de recadastro. Pensei: ótimo. Faltou pouco.

Mas logo veio a resposta: “CPF já em uso.”

Como terminou a saga?

Vou ao mercado hoje mesmo.

Esse novo mundo rápido, direto, automático, que promete resolver tudo com o polegar, é bonito na teoria. Na prática, não vai longe. Se for, é para além de Marrakesh — e, convenhamos, nem chega perto de Maracangalha, quem dirá Maranguape.

A lógica da livre escolha em tempos de celular e IA está cada vez mais rarefeita.

Agora, ao meu próprio desafio.

Reformulei recentemente esta página. Meu conhecimento de programação parou no dBase III+, Pascal, Basic… uma arqueologia digital. Penei para ligar um meio de pagamento a um formulário — e ainda tem um link que não descobri como resolver.

O que fiz?

Coloquei meu e-mail no texto e pedi para entrarem em contato.

Ou seja: sem expertise técnica, sem design glamouroso, sem startup, sem pitch… mas funciona.

No fim das contas?

Até eu estou melhor que o Zona Sul.

Rindo, mas com respeito… e um leve desabafo.

Um comentário em “Quem me navega é o mar (e não o aplicativo)

  1. Também sofro de amores pelas APPs de pedir comida ou compras, com constantes falhas informáticas ou humanas. O que supostamente seria um ganho de tempo precioso, passa a desilusão em questão de minutos.Chego à conclusão que existem atalhos que não devemos seguir.É claro que não podemos generalizar. Ainda existem apps e serviços de qualidade, que se preocupam verdadeiramente.Culpo a facilidade de criar e publicar um serviço destes apenas para não darem um seguimento de qualidade. Mas, o mesmo acontece com restaurantes e outros negócios.Obrigado pela partilha. Mais uma leitura interessante. Uma lufada de ar fresco longe das redes (anti)sociais que excomunguei.

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