Antecipei a montagem da árvore lá em casa.
E confesso: acordar com a expectativa silenciosa do Natal — a celebração do nascimento de Jesus — muda tudo. Irradia bons pensamentos, organiza o espírito, suaviza as urgências. Não apenas em mim, mas em quem passa pela porta, pelo corredor, pelo olhar.
Montar a árvore em novembro é quase um gesto de resistência.
Uma escolha por lembrar que o Natal não é um evento de calendário: é um estado de presença. Um convite ao cuidado, à memória, à gentileza, ao recolhimento.
Mas algo acontece quando viramos o ano.
Janeiro chega e parece que uma parte do país desmonta a própria fé junto com os enfeites. Infelizmente!
A pressa retorna, a urgência volta a dominar, e a busca desenfreada pelo prazer — muitas vezes mascarada de liberdade — toma conta das ruas, das avenidas, dos blocos que tornam a vida de qualquer morador um inferno.
Não é sobre ser contra o Carnaval. Ele tem beleza, história, musicalidade, potência cultural.
É sobre perceber que, para muitos, ele virou anestesia — um alívio rápido para um vazio que dezembro, por algumas semanas, conseguiu acalmar.
E então lembro do Círio de Nazaré, no Pará.
Milhões caminham movidos não por espetáculo, mas por promessa, gratidão, milagre, pertencimento. O que os move é a fé. Uma celebração que não precisa de palco, camarote ou transmissão internacional para ser grandiosa.
Por que o mundo conhece o Carnaval do Rio, mas não a procissão que emociona Belém?
Porque o Brasil concentrou sua indústria cultural no Sudeste. É la que esta a Globo e outras mídias.
Dai a pergunta: Porque fé não gera o mesmo faturamento de publicidade, turista, camarote e streaming.
Porque aquilo que é silencioso raramente vira tendência.
E, no entanto, é justamente esse silêncio que sustenta e cura.
Talvez por isso eu tenha montado a árvore mais cedo.
Para lembrar que ainda existe espaço — dentro e fora da gente — para a espiritualidade cotidiana. Para pequenos rituais que devolvem sentido ao ano que insistimos em atravessar no automático.
Se dezembro nos lembra quem somos, janeiro não precisa nos fazer esquecer o ano inteiro.