Prescrição, Privilégio e Fé

“Se demorar cinco anos prescreve, logo não será preciso pagar tudo porque uma parte não vão poder cobrar.” Essas foram as palavras que escutei, mal havia sentado à mesa do restaurante, no que poderia ser um almoço comum.

Não foi.

Para o senhor e sua senhora que estavam atrás de mim, o tema parecia absolutamente normal e confortável. Não só debateram o marco temporal para pagar uma dívida como também concluíram que o problema não era a prescrição, mas o fato de ter que pagar honorários para o advogado pleitear tal benefício.

Esse raciocínio não difere muito da lógica aristocrata que há tempos critico e que permeia a suposta classe intelectual da cidade.

Semana passada, enquanto almoçava, assisti à reprise de um episódio de Sai de Baixo em que um dos personagens principais, interpretado por Miguel Falabella, o Caco Antibes, foi impedido de entrar no Jockey Club porque não havia pago a mensalidade por mais de dez anos. Um absurdo, dizia ele, como se pudesse frequentar um lugar sem pagar, ainda que não fosse dono nem monarca.

Não vejo graça na crítica ao estereótipo de pobre feita naquela época, porque não acho engraçado fazer graça com a vida dos outros. Ainda que esse tipo de comédia seja reiterado na TV brasileira — afinal, foi mal copiada por um comediante que jogou a própria mãe “na boca de Matilde” em relação a si, à família e à vida. Fez isso no teatro, no filme e na televisão. Curioso reparar que o autor se foi e a mãe ficou… empregada na Globo.

Isso diz muito sobre alguns níveis da elite — intelectual, financeira, política — ou mesmo todas quando reunidas ou omissas.

Comum à conversa que escutei no almoço é o fato de que o Rio de Janeiro parece andar cheio de pessoas que foram tomadas pelo individualismo. São muitos os fatores que contribuíram para o declínio da cidade. Não à toa estamos capturados por milícias e vivemos diariamente a disputa de facções criminosas. Muitos dos que poderiam planejar projetos de longo prazo para melhorar a condição de vida do povo, simplesmente se fecharam à realidade. Passaram a viver em seu controle direto e indireto de instituições — políticas ou não — através das quais perpetuam o resquício do colonialismo.

Não é novidade que todas as manhãs acordo de madrugada pedindo a Deus sabedoria, discernimento e misericórdia. Comum a todos os dias, quando depois assisto ao RJTV, é constatar que vivemos em uma cidade é gerida por uma governança inconsistente e falha. Acostumamo-nos a receber menos por mais. Não a toa, pagamos mais por menos.

O que vivemos hoje não é compatível com o que nos foi prometido tempos atrás.

Permanecemos vivendo em um município que fomenta a desigualdade persistente em razão das bolhas criadas que sustentam essa rede de influencia e poder. É frustrante perceber que a euforia de novos programas — de habitação, transporte ou o que quer que seja — parece nascer para frustrar – e não ajudar – o povo, e fomentar o capital privado.

Nem mesmo a filantropia escapa, porque até para isso gasta-se muito, e muito mal.

A cooperação do governo federal tampouco tem nos ajudado a equilibrar o estado. Ainda que este último tenha subsidiado programas de infraestrutura que particularmente considero falhos — alguns desde os tempos da Olimpíada —, estranho é o impulsionamento de novos projetos na antevéspera da eleição.

Voltando ao almoço de hoje: felizmente passou.

Estou esperançoso de que amanhã consiga almoçar ao lado de pessoas civilizadas, que falem baixo, para que eu não precise escutar ou fazer juízo de valor sobre histórias alheias. No entanto, se isso não ocorrer, que a conversa ao menos seja mais humana, mais gentil, que fomente boas ações, que traga soluções. Que seja uma conversa mais cristã.

Aos políticos e empresários que não ajudam e vivem a realidade de seus umbigos, só Jesus na causa — esse nunca tarda, nem falha, felizmente!

Crônica #RioDeJaneiro #Reflexão #Sociedade #Ética #Comportamento #Brasil #Fé #Moral #Desigualdade #Individualismo #CidadePartida #JesusNaCausa