Justiça encurralada, país a deriva.

Se há algo que o recente episódio envolvendo Bolsonaro escancarou, foi o funcionamento do Judiciário brasileiro: reativo, seletivo e, por vezes, espetaculoso. Uma fratura exposta.

A súbita operação de busca e apreensão, poucos dias antes do prazo para alegações finais em processo penal, levanta mais perguntas do que certezas.

Seria mesmo necessária à elucidação do caso dessa forma? Porque agiu so no fim? Ou uma resposta apressada a críticas vindas do exterior — mais precisamente de Donald Trump?

A justiça brasileira parece funcionar à base do constrangimento. Reage quando pressionada pela mídia, pela opinião pública ou por interesses que escapam ao rito técnico-processual.

Para o cidadão comum, essa seletividade salta aos olhos. Milhões esperam anos por decisões definitivas, enquanto outros, dependendo de sua posição política ou relevância midiática, têm seus casos movimentados em dias — ou horas.

A justiça que tarda pode falhar, mas a que se apressa para “dar satisfação” compromete sua credibilidade. E não adianta repetir o mimimi.

A mídia, por sua vez, tem contribuído pouco para a elevação do debate. Ao priorizar narrativas de fuga, especulações médicas ou análises emocionais, reforça a superficialidade e contribui para a desinformação. A lógica do clique sobrepõe-se ao interesse público. Tudo vira espetáculo. E o que era para ser um processo judicial técnico transforma-se em um roteiro de crise institucional.

Enquanto muitos em Brasília vivem em torno dos holofotes, o país real amarga as consequências. O cenário geopolítico se complica: com o risco de tarifações americanas e um Brasil cada vez mais isolado, a economia começa a sentir o peso das decisões políticas mal calibradas. Exportações em queda, empresas em alerta, empregos ameaçados. E não se trata de previsão catastrofista, mas de lógica econômica elementar — como logo revelará o CAGED.

O Brasil vive uma estranha inversão: o que deveria ser discreto, técnico e institucional — como decisões judiciais — torna-se espetáculo; enquanto aquilo que deveria ser prioridade — empregos, comércio, estabilidade — é tratado como pano de fundo.

Talvez o erro mais grave seja nosso hábito coletivo: esperar que o escândalo dite a pauta.

O povo se acostumou a ser plateia — e não cobrador — das prioridades nacionais.

Daí a inércia da justiça, a conivência da imprensa, o caos do Executivo. Seguimos olhando o carro passar, com a sensação de que ninguém está realmente no volante.

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