São muitas as vantagens que conquistei ao envelhecer. Mentira.
Quem me conhece sabe que costumo dizer: envelheço porque a alternativa é muito pior. Ainda que essa frase não seja originalmente minha, ela veio de pai para filho. Com o passar dos anos, percebi que comecei a funcionar de forma diferente.
E isso, surpreendentemente, não é de todo mal.
Fui uma criança bastante perdida, depressiva e insegura. Hoje, essa fase passou. Olho as questões do cotidiano de forma mais dura. Sei o que quero — e principalmente o que não quero. Procuro decidir com base no que acredito, sem a necessidade de agradar a todos.
A adolescência também foi difícil. Muitas decisões e atitudes foram tomadas de maneira impulsiva. Lembro bem da falta de paciência, do estresse, da irritação. Com o tempo, essas frustrações acabaram sendo transformadas em algo mais produtivo: uma fonte de paciência e tolerância.
Curiosamente, mesmo depois de tantos anos, ainda me vejo impaciente e intolerante em algumas situações. Parece que algumas coisas não mudam.
Outro aspecto que notei foi o tempo que passo fazendo contas. E não falo apenas de números. São contas sobre o tempo de vida, o que ainda quero fazer, o que é possível realizar, o que já não faz sentido. Contas de trabalho, de dinheiro, de energia, de prioridades.
Através dessas contas, parei de desperdiçar meu tempo com vaidade, tolices e a paralisia do medo.
Fato: Quem diria — só através das contas é que aprendi a viver o presente.
E, no presente, talvez o ensinamento mais valioso que recebi foi a capacidade de dizer não.
Como isso foi difícil. Mas tornou-se necessário, especialmente ao perceber que muitas pessoas ultrapassam os limites saudáveis que devem nortear qualquer relação — seja de amizade, de trabalho ou mesmo familiar.
Hoje, sou alguém um tanto quanto diferente da pessoa que idealizei vinte anos atrás.
Consigo apreciar coisas simples que antes passavam despercebidas — e que hoje têm um valor imenso.
Parece que a vida agora é mais verdadeira.
Espero que seja. Confio que seja. Acredito cegamente que é.
Porque não foi fácil chegar até aqui. E, apesar de tudo, creio estar próximo da minha melhor versão.

