Quem quer dinheiro? Agora é o governo que grita.

Quem não se lembra do bordão icônico do querido Silvio Santos? Costumava passar alguns domingos na casa dos meus avós e, nesses momentos, sempre me vem à memória o programa e os famosos aviõezinhos de dinheiro lançados para a plateia.

De lá pra cá, muito pouco mudou em relação à renda das pessoas. Continuamos com um salário mínimo risível, que mal paga luz e comida em casa. Esse é o custo da desvalorização da moeda — que, obviamente, prejudica muito mais quem dela depende para sobreviver.

Curiosamente, essa memória afetiva ressurgiu com força nos últimos dias, justamente quando se iniciou a divulgação do fim do prazo para a entrega da declaração do Imposto de Renda. O esforço do governo para chamar cerca de sete milhões de contribuintes foi incansável. E, nesse processo, assumiu o papel de Silvio Santos, promovendo uma versão alternativa do famoso bordão: “Eu quero dinheiro!”

Essa mobilização também escancara a falta de organização e eficiência da Receita Federal. Uma análise séria certamente revelaria uma infinidade de CPFs ativos em nome de pessoas falecidas. Por isso, a expectativa do governo quanto ao número de declarações entregues sempre se baseia no ano anterior — nunca em dados atualizados de realidade social.

Ninguém ali parece ter culpa ou consciência do fato de que milhões empobreceram no último ano e, por isso, sequer tiveram o que declarar. Afinal, quando o assunto é governo e dinheiro, nenhum político até hoje se sentiu culpado pelo fracasso que o Brasil se tornou. Todos, no entanto, utilizam mala direta para divulgar suas atividades como se isso trouxesse qualquer melhoria concreta no dia a dia das pessoas comuns.

Não é de hoje que muitos vivem da venda de esperança. Mês passado mesmo, leu-se muito sobre o aumento do IOF — um imposto que pesa principalmente sobre quem menos pode pagar. O único “benefício” desse aumento foi ampliar a arrecadação para tapar buracos ou financiar mais um gasto absurdo e desnecessário, como tantos outros que já conhecemos.

A discussão sobre o aumento do IOF de 0,38% para 1% em algumas transações só reforça a esperteza do governo e a passividade da maioria da população, que prefere concordar com um aumento “menor” em vez de questionar por que o imposto existe ou precisa ser ampliado.

Não concordo com esse imposto — nem com seu aumento, em qualquer hipótese. Da mesma forma, também não concordo com reajustes salariais de servidores em todos os poderes, enquanto eles mesmos não fizerem o dever de casa de cortar gastos como nós, da iniciativa privada, temos de fazer.

Não dá para viver sob dois paradigmas simultâneos. Para quem esses gestores estão trabalhando, afinal, senão para si mesmos?

E antes que se conclua que este texto é apenas uma crítica ao governo, vale lembrar que a imprensa acaba de denunciar mais uma “farra” envolvendo o INSS. Desta vez, a fraude no sistema de aposentadorias beneficiou não só golpistas, mas também instituições financeiras, por meio de empréstimos consignados indevidos.

Quem puxa os seus, não degenera — herda. E o que se esperar do monopólio dos bancos em relação ao governo? Nada de bom. Isso só evidencia a falência do compliance corporativo e da regulação pública. Sim, estou falando dos mesmos “incapacitados institucionalizados” que, mesmo ineficientes, seguem recebendo altos salários — e que provaram sua inutilidade nos casos como o das Lojas Americanas e da Light no Rio de Janeiro, ambos se arrastando em batalhas judiciais.

Voltando ao bordão: fato é que o governo, seja por meio do IOF, seja pelo Imposto de Renda, teve o seu momento “Silvio Santos” invertido — mas desta vez, para arrecadar, não para distribuir.

E ele não foi o único. Empresários, políticos e até senadores envolvidos no desvio de dinheiro de aposentados mostram que o povo precisa, urgentemente, alterar o jargão.

Antes de sair por aí pedindo dinheiro, talvez seja hora de votar com consciência. De eleger pessoas comprometidas com a ideia de fazer mais com menos. Gente disposta a melhorar a vida de todos — e não apenas a própria conta bancária e a de seus amigos.

É como penso, e bom domingo!!