A arte de transformar a tragedia em novela… (e não resolver o problema)

Depois de algum tempo acompanhando as notícias que chegam aqui sobre a tragédia do Rio Grande do Sul, comecei a pensar sobre o que não esta sendo dito. Por óbvio o resgate de um animal não é prioridade a ponto de ser veiculado em rede nacional, tampouco a chuva. No entanto, percebo que a imprensa tem reduzido o problema do Rio Grande do Sul ao nível do rio guaíba que tem provocado a enchente.

Foi quando me dei conta como a politica da propaganda, de um lado faz com que tenhamos uma imagem melhor da cidade e município, enquanto por outro negligencia necessidades básicas para nossa existência.

Fato: é mais fácil culpar a chuva e o nível do rio do que refletir sobre os motivos que nos levaram a essa dura realidade. A imprensa sensacionalista e nociva ao cidadão se alimenta da expectativa que cria em razão da angustia passada ao leitor sobre a possibilidade de chuva e aumento do nível do rio.

Estamos todos assistindo, ha dias, semanas, meses, uma catástrofe, pior do que guerra e ato terrorista em solo brasileiro, que se resume a isso. Uma espécie de jogos vorazes através da qual o governo, mal cria, mal educa, mal da estrutura, possibilidade e oportunidade ao cidadão, e agora ao invés de pagar a conta tornou todos telespectadores do problema climatico.

Nesse contexto, revela-se fácil, conveniente e prático culpar a chuva pelo alagamento, enquanto sabemos que a falta de infraestrutura e de ação pelos governos, ao longo dos anos, aliado a política da propaganda se tornaram o salvo conduto dos agentes públicos.

Olho para o Rio e me pergunto como podemos achar normal haver tanto show em Copacabana sem qualquer tipo de serviço relevante na manutenção e conservação de espaços urbanos. Coisas simples, como a ordem urbana aqui foi deixada de lado. Seria porque cobrar ordem tornam os agentes públicos impopulares?

Imagina se alguns bares perdessem um trecho da calçada para ter espaço de circulação melhor, ou os motoristas que param em fila dupla, por exemplo, ou mesmo aqueles que estacionam no meio da rua, ligam o alerta e fazem fila, fossem multados?

O resultado dessa inversão de valor tem causado mais prejuízo e dano a vida cotidiana das pessoas do que alegria. Porque ao sinalizar que vou trocar de faixa as motos que trafegam kilometros de distancia nos corredores aceleram e buzinam como se tivessem prioridade até mesmo as leis de transito?

Realmente morar e viver no Brasil é acostumar-se com tudo isso e não esta legal.

Acho que essa situação só vai mudar quando o povo realmente voltar a urna. Porque nem saindo na rua resolveu. Há uma completa inversão de valores quando se analisam aqueles que desejam o melhor para o povo na tentativa de rotular ao que melhor convém para explicar, ou seja, dependendo do ponto de vista da crítica você acaba rotulado a um ou outro grupo político.

Esse modo de operação só acontece porque os partidos estão loteados como clubinho. Poucos são os que votam naqueles que podem ser a oportunidade para contribuir na elaboração de melhores politicas públicas para todos. Melhor votar em quem é amigo do amigo, ou em quem se conhece para no menor problema ter a quem pedir, do que enfrentar o sistema aumentando as chances de quem quer entrar por espírito público e seguir a vida de forma independente.

Uma coisa é certa e ja vimos isso no passado em muitos partidos, quando se tem alguém que puxa voto e atrai não só os candidatos de seu grupo como outros puxados pela legenda, nem sempre eles se entendem, isso é bom para a democracia.

A democracia não existe e não funciona como meio de promover consenso entre as ideias, ela existe para aqueles que são comunitariamente organizados tenham influencia politica na sociedade através da elaboração de leis. E se não temos nas casas legislativas pessoas com disposição para enfrentar as questões que nos afetam todos os dias, porque historicamente temos problema, nossa realidade nunca vai mudar.

Com isso matérias como a fuga de presos por muro baixo ou de arame farpado vão aumentar, e não é porque era véspera de feriado, não. É porque sabemos que a noite o serviço público já deficiente é pior ainda.

No setor privado, lidamos várias vezes com clientes que pedem mais por menos. Exigem além do trabalho, processo e relatório enquanto no serviço público canso de ver gente se sentindo pressionada pelo estabelecimento de metas. Ainda que isso nem sempre seja saudável e de tempos em tempos nos exige estabelecer limites, é assim que basicamente o mercado se desenvolve e ganhamos mais ou menos dinheiro, enquanto isso o funcionário público tem a certeza que vai receber todo mês, com correção em alguns anos.

Reparem bem, da mesma forma que o fenômeno climático é responsável pelos problemas atuais no mundo, a falta de dinheiro para pagamento de salário pelo estado é consequência do endividamento do estado que ocorre através da implementação de politica pública ruim. Só que o governo se atrasa, quando atrasa, a manchete é sobre a falta de dinheiro e não do quanto se torrou, o quanto se perdeu, o quanto se superfaturou.

Desejo que os políticos, quando forem a imprensa, digam ao povo a verdade. É preciso começar de alguma forma a expor os traumas, feridas para se traçar um objetivo para sair do problema. Isso não deveria ser vinculado somente ao superavit ou a variação de moeda estrangeira.

Se as vidas perdidas são importantes, que sejam para nos ajudar a trazer dias melhores e não explorar a dor de quem fica e de quem perde como forma de ter engajamento em torno do que não é importante.

São esses os meus pensamentos.

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